Seria uma ingratidão da bola, depois de 120 minutos, se negar a balançar as redes para quem a tratou tão bem. Poder torná-lo vilão, pela segunda vez na Copa do Mundo. Igor Akinfeev esteve a um triz de salvar o pênalti cobrado por Luka Modric. Não conseguiu. O chute triscou na trave. Entrou. E um dos caras que mais honram a camisa 10 neste Mundial conseguiu respirar tranquilo, assim como aqueles que apreciam seu futebol. A Croácia, com todos os seus poréns, está em mais uma semifinal de Copa.

A seleção croata alternou momentos neste Mundial. O deslumbramento provocado contra a Argentina se tornou algo menor depois dos últimos jogos, mais mornos, um tanto quanto burocráticos. A categoria de Modric não é suficiente para mudar algumas impressões. Ainda assim, ela dá as caras em campo e ajuda a dominar uma partida, como foi em Sochi. A lucidez da equipe dependia bastante do meio-campista, distribuindo passes, limpando a marcação com dribles, fazendo a roda girar – mesmo sem apresentar o ápice de seu brilhantismo ou de sua criatividade. Algumas jogadas importantes nasceram de seus pés, como o chute de Ivan Perisic que triscou a trave. Como o gol de Domagoj Vida, sua assistência na noite.

O melhor de Modric contra a Rússia, todavia, surgiu em outros detalhes. Em ações que não estamos tão acostumados a apreciar no maestro. Neste sábado, o camisa 10 voltou a atuar como volante, logo à frente da zaga, ao lado de Ivan Rakitic. Precisou se desdobrar na marcação. E cumpriu o seu papel. Foram 15 bolas recuperadas pelo camisa 10, incluindo quatro desarmes. Mais do que isso, impressionou a maneira como o croata correu ao longo dos 120 minutos. Diante do baile físico da Rússia, ele seguia se esforçando em seu máximo até os instantes finais. Se errou o pênalti, não se pode condenar o cansaço nas pernas. Afinal, o camisa 10 foi o último a deixar o campo. Quando seus companheiros já tinham ido aos vestiários, ele brincava de cobrar pênaltis com seus filhos.

Contra a Inglaterra, a influência de Modric será mais decisiva. Se a Croácia pegou dois adversários tecnicamente inferiores nos mata-matas, não deve ser o caso das semifinais. Por isso mesmo, o camisa 10 terá sua exigência para dominar o meio-campo com e sem a bola, mas, acima disso, de criar. Talvez a melhor versão do craque neste Mundial, acima do visto contra a Argentina, esteja guardada. Poderá ser um divisor de águas para que concorra de vez à Bola de Ouro do Mundial, à qual já figura entre os potenciais candidatos.