A seleção brasileira começa neste sábado sua campanha no Mundial de Basquete. Estreia difícil, contra a França, a atual campeã europeia. Embora conte com bons valores, a ambição do Brasil não é tão grande, já que o time de Ruben Magnano sequer conquistou a vaga direta para o torneio. Uma mentalidade muito diferente da que o Brasil teve entre as décadas de 1950 e 1960, quando foi bicampeão mundial e duas vezes vice. Sucesso construído sob as ordens de Togo Renan Soares, o Kanela, um técnico bastante ligado ao futebol.

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Paraibano radicado no Rio de Janeiro, Kanela foi um poliesportista. Chegou a ser jogador de futebol e polo aquático no Botafogo, mas a carreira como atleta não foi para frente. Então, começou a trabalhar como técnico nos juvenis alvinegros, se sagrando campeão carioca invicto quando tinha apenas 19 anos. Também chegou a comandar equipes no remo e no polo aquático, mas o maior legado antes de partir às quadras foi mesmo nos gramados.

O grande feito de Kanela aconteceu em 1929, quando trabalhava no Bangu. O clube de Moça Bonita era um dos poucos abertos a jogadores negros e mulatos, em uma época na qual o racismo era escancarado dentro da própria estrutura do futebol brasileiro. E, nos alvirrubros, o técnico teve a chance de lapidar um craque. Domingos da Guia tinha apenas 17 anos quando Kanela promoveu uma mudança essencial em sua carreira.

O treinador percebeu a aptidão do garoto na marcação e o convenceu a deixar o meio-campo para atuar na zaga. Kanela via o estilo sóbrio, sem jogadas de efeito, de Domingos. Era “um apolíneo entre os dionisíacos”, como definiu em entrevista a Gilberto Freyre, comparando a força física e a concentração do defensor com a ginga de outros de sua época. A partir de então, o rapaz que trabalhava como mata-mosquito no departamento de Saúde Pública do Rio de Janeiro começou a se tornar o Divino, fazendo sucesso principalmente a partir de 1932, depois de grandes atuações com a seleção brasileira no Uruguai.

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Depois do Bangu, Kanela voltaria a trabalhar com os juvenis do Botafogo, treinando também a equipe principal em algumas excursões. Ao mesmo tempo, acumulava funções no basquete e no polo aquático, se sagrando campeão carioca nas duas modalidades. O técnico seguiu em General Severiano até 1947, quando uma briga com dirigentes o afastou do clube.

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Rumou ao Flamengo e assumiu o time de futebol em um período difícil, em que os rubro-negros ainda tentavam renovar o elenco que havia sido tricampeão carioca entre 1942 e 1944. Dirigiu a equipe entre novembro de 1948 e setembro de 1949, com aproveitamento de 71,4% – o segundo melhor da história entre técnicos com mais de 40 jogos no clube. A derrota contra os três rivais no início do Carioca, no entanto, minou seu espaço.

A partir de então, Kanela passou a se dedicar exclusivamente ao basquete, com o qual já trabalhava na Gávea. Entre 1948 e 1960, só perdeu um Campeonato Carioca com o Fla, sucesso que o levou à seleção. Famoso pela ótima leitura de jogo, pelos métodos de treinamento e pelo estilo motivador, o técnico teve em mãos a melhor geração do basquete brasileiro. Estrelado por Wlamir Marques, Amaury Passos, Rosa Branca e Édson Bispo, o Brasil conquistou os Mundiais de 1959 e 1963. Para eternizar de vez a mente brilhante de Kanela, que também deixou sua história no futebol.