É estereótipo, claro, mas há aquela história do garoto mimado criado em apartamento pela avó jogando bolinha de gude no carpete. André Villas-Boas parece ser um desses casos. No Tottenham, como no Chelsea, sobrou conhecimento teórico e técnico e faltou jogo de cintura para gerir o vestiário e adaptar os conceitos dele à realidade da partida.

A moral de Villas-Boas não caiu do galho do pinheiro. Desde que importunou Bobby Robson – no estacionamento do apartamento onde os dois moravam -, fez cursos, treinou as Ilhas Virgens Britânicas, assistiu José Mourinho em três clubes de países diferentes, voou sozinho na Acadêmica e no Porto e fracassou no Chelsea. Estudou bastante, mas não aprendeu uma das lições mais importantes.

O português não tem a humildade de adaptar os seus conceitos ao seu elenco e às partidas. Por exemplo, gosta de adiantar a linha de defesa para a intermediária, mas isso é inteligente se um dos seus zagueiros é o lento John Terry? As táticas e os métodos de treinamento dele foram decisivos problemas de Villas-Boas com o já complicado vestiário do Chelsea.

A história em White Hart Lane foi parecida. Se a sua desfalcada zaga terá os pouco entrosados Michael Dawson e Étienne Capoue contra um dos melhores ataques da Inglaterra, porque deixá-la tão avançada? Ela foi presa fácil para os lançamentos, e Steven Gerrard, especialista nessa jogada, nem em campo estava. Foi também impressionante o número de vezes nas quais Luis Suárez e Philippe Coutinho avançaram no mano a mano contra os zagueiros porque não havia cobertura.

O Tottenham fez 15 gols em 16 jogos, mas o 4-2-3-1, com Roberto Soldado isolado no ataque, seguiu inexorável. Ao invés de inventar Paulinho avançado ou Nacer Chadli de titular, por que não tentar um outro esquema tático, com dois atacantes? Essa teimosia é um sinal de arrogância. Ele parece convencido de que está certo e espera que o tempo comprove isso, mas, por enquanto, o tempo trouxe apenas goleadas para o Manchester City e para o Liverpool.

Talvez o episódio mais simbólico da forma como Villas-Boas lida com adversidades foi a partida contra o Tromso, pela Liga Europa. Um torcedor do adversário passou o primeiro tempo inteiro atrás dele, gritando que o português seria “demitido pela manhã”. Na volta do intervalo, a pedido do técnico, os seguranças da Uefa transferiram o corneta para outro setor do estádio. A ironia é que a demissão do português foi realmente anunciada antes do meio-dia.

Contrariar Villas-Boas em entrevistas coletivas também não é uma boa ideia. Quando foi questionado da decisão de manter Hugo Lloris em campo, mesmo depois de o goleiro francês ter levado uma forte pancada na cabeça em dividida com Romelu Lukaku, do Everton, perdeu a paciência e começou a disparar gritos de “incompetentes” para os jornalistas. Nem admitiu que poderia ter errado.

Perder Gareth Bale seria um grande prejuízo para qualquer time, mas o aparente bom mercado do Tottenham provou-se um fracasso até agora. É indefensável gastar 120 milhões e chegar na 16ª rodada com a necessidade de escalar jogadores de qualidade questionável como Capoué, Kyle Naughton, Aaron Lenon e Lewis Holtby.

Villas-Boas deve ter aprendido muito com Mourinho, mas não conseguiu replicar uma das suas principais características. O técnico do Chelsea pode ser tão – provavelmente mais – arrogante quanto o seu ex-pupilo, mas consegue conquistar o elenco. Os jogadores derrubam sangue pelo treinador e confiam nele. Mourinho conseguiu fazer até Marco Materazzi chorar quando se despediu da Inter de Milão. Villas-Boas está longe de ter esse efeito nos jogadores. Longe de ser considerado, não apenas líder, mas parte da equipe. Por enquanto, é visto apenas como um garotinho mimado cheio de teorias.