Não se pode dizer que o 33º título holandês do Ajax, enfim conquistado no domingo passado, fosse surpreendente. Muito ao contrário: já estava para ser confirmado havia, pelo menos, três rodadas. E também foi merecido, é preciso que se reconheça. Das 34 rodadas que o Campeonato Holandês da temporada 2013/14 terá (a última neste final de semana), o clube de Amsterdã passou 21 entre as quatro primeiras posições – 16 delas na liderança. E a opinião na Holanda é unânime: mesmo quando não era brilhante, a equipe soube garantir os resultados de que precisava.

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Este pensamento, que considerava possibilidades mais pragmáticas de garantir a conquista, já era previsível nas palavras de Frank de Boer antes do jogo decisivo, contra o Heracles Almelo: “A princípio, não quero garantir o título com empate. Mas se estiver empatado a quinze minutos do fim, bem…” Pois foi exatamente o que se viu no estádio Polman, de grama sintética, em Almelo: Schöne abriu o placar em falta muito bem cobrada, Simon Cziommer empatou em tiro livre tão bom quanto o primeiro, e à medida que o final da partida foi se aproximando, nada mais aconteceu.

Chegou até a enervar o final de jogo extremamente chato, quando os defensores do Heracles, que ia afastando de vez o já pequeno perigo de rebaixamento, começaram a fazer uma espécie de “dois toques de luxo” até que Pieter Vink apitasse o final, decretando o primeiro tetracampeonato nacional da história Ajacied. Jogadores festejando, a salva de prata levantada no gramado, a viagem até Amsterdã, as várias fotos tiradas com a salva (batizadas com o trocadilho “schaalfie”, envolvendo “schaal” – em holandês, “salva” – e “selfie”), a festa na Arenapark com todo o elenco… a comemoração foi como manda o figurino.

Só que nem mesmo a justa festa pelo tetracampeonato escondeu uma certa melancolia. Está forte até agora a impressão de que o Ajax conquistou o quarto título seguido de um modo menos exuberante, menos alegre, menos vibrante do que nas três temporadas anteriores. Tome-se Siem de Jong como exemplo. Em 2010/11, o primeiro título do tetra, o camisa 10 Ajacied viveu sua apoteose na última rodada: em confronto direto contra o Twente, líder até ali, fez dois gols na vitória por 3 a 1 que devolveu o título após sete anos de jejum, explodindo a Amsterdam Arena.

No domingo passado, De Jong sequer estava relacionado. Como em grande parte da temporada, sofria com lesão – a de agora, na coxa, embora até problemas pulmonares o tenham vitimado na temporada. Assistiu ao jogo na arquibancada do estádio de Almelo, e só desceu nos minutos finais, para se trocar, colocar um agasalho esportivo, uma camisa com o número 33 e ir ao gramado para erguer a taça, junto de outros desfalques em campo, como Fischer e Moisander. Comemorou com alegria, mas não era uma alegria tão esfuziante quanto a vista há três anos.

Taça erguida, o que fica é uma sensação de que o Ajax anda meio enfastiado. De que todos no clube já sabem que ele domina o futebol holandês. E talvez até por isso, os Godenzonen tenham sido mais discretos na temporada atual. A tal ponto que Lasse Schöne, que provavelmente será eleito o melhor jogador da temporada holandesa (com toda justiça, diga-se de passagem), nem ganha tanto destaque quanto Frank de Boer.

Exatamente por esse destaque do treinador Ajacied é que a imprensa holandesa repercutiu bem a notícia do interesse oficializado do Tottenham por Frank. Embora ele não tenha falado nada a respeito (“Só depois da temporada ouvirei a oferta e verei o que sinto”, desconversou à emissora de tevê NOS) e até tenha sido enfático (“Não tenho intenção de deixar o Ajax”), a reação negativa de Tim Sherwood, técnico do clube inglês (“Fico triste ao saber que alguém veio a público dizer que o Tottenham lhe sondou. Não sei qual, mas uma das partes está mentindo”) faz crer que pode haver gato na tuba.

E talvez não seja tão ruim assim para o Ajax ver o técnico que lhe comanda desde 2010 ir para White Hart Lane. Frank até já falou que a ideia de ser “o Alex Ferguson” do Ajax não lhe parece má, só que já demonstrou ter capacidade para desafios maiores. E estar num clube como o de White Hart Lane, que é de um centro maior do futebol europeu e tem um potencial razoável, é algo plenamente cabível para o irmão de Ronald. Sem contar que há gente que poderia substituí-lo. Como Michael Laudrup, de bom trabalho no Swansea, que conhece o Ajax – e cujo estilo tático ofensivo tem a ver com o do clube. Ou quem sabe, Frank poderia até passar a bola para o auxiliar Dennis Bergkamp.

De todo modo, perdendo o técnico ou não, fica a sensação de que o Ajax precisa de um chacoalhão. Precisa mudar de nível. O diretor de futebol Marc Overmars disse que “será difícil estruturarmo-nos para voltar ao topo europeu”, mas deu esperanças: “Mesmo os grandes clubes vivem de ciclos. Vejamos o Ajax: nos anos 1970 e 1990 vivemos tempos áureos. De acordo com o que vai e vem, pode vir coisa boa por aí”.

Paralelamente, em sua coluna no diário “De Telegraaf”, Johan Cruyff também pediu mais: “O Ajax foi campeão com 27 pontos perdidos. O Feyenoord perdeu 33, e o Twente, 37. Cerca de um terço dos pontos disputados. Acho que nunca aconteceu. Por isso, as coisas só podem melhorar. Precisam melhorar”. E o futebol holandês pode fazê-lo, como Cruyff escreveu, de modo exemplar: “Não só o Ajax, mas toda a Eredivisie viveu uma temporada de aprendizado, na qual muitas promessas puderam fazer escolhas. Por isso, esperamos que no ano que vem todos possam avançar”. Tomara que aconteça.

P.S.: Na próxima semana, a coluna falará dos 40 jogadores que serão chamados na próxima segunda, por Louis van Gaal, para os treinamentos rumo à Copa do Mundo. Depois, as duas colunas posteriores farão a análise da Eredivisie.

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