Desde que deixou a Bombonera para trás, o discurso de Carlos Tevez, no Corinthians, na Inglaterra ou em Turim, sempre foi carregado de saudades de casa. Do seu bairro, dos seus amigos. Do Boca Juniors. Uma postura frequentemente romantizada por torcedores e jornalistas. Ele precisava deixar a Argentina para atingir seu imenso potencial, mas nunca esqueceria suas raízes. A disposição de abrir mão de títulos e contratos milionários em nome de atuar pelo seu clube do coração e de uma vida mais simples era comemorada como um contraste ao futebol moderno, robotizado e pasteurizado. A melancólica tristeza de estar longe do seu país era o obstáculo da trajetória do herói e, quando ele decidiu abandonar a Europa no auge, logo após levar a Juventus à decisão da Champions League, o retorno ao Boca foi considerado o final feliz de uma história quase hollywoodiana.

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Parasse por aí, e estava tudo condizente com um roteiro que realmente poderia dar um bom filme. Mas não foi isso que aconteceu. A volta ao Forte Apache durou menos do que se imaginava. A China o atraiu com o maior salário do futebol mundial, noticiado em torno dos U$ 40 milhões anuais. No fim das contas, a saudade e o desejo de defender o Boca Juniors, dois sentimentos que pareciam tão ardentes, tinham um preço. E Tevez se foi novamente.

Não houve arma na cabeça do jogador obrigando-o a assinar contrato com o Shanghai Shenhua, nem uma urgente necessidade econômica, se considerarmos que Tevez já colecionava pelo menos dez anos de contratos na casa das centenas de milhares de dólares. O que motivou a decisão do jogador foi a ambição de ganhar ainda mais dinheiro, o tipo de soma obscena que a China precisa bolar para convencer os craques a irem para lá.

Não cabe aqui nenhum juízo de valor em relação à decisão de Tevez. Seu primeiro retorno ao Boca Juniors foi conturbado e frustrante, como frequentemente são as tentativas de reviver as deliciosas lembranças do passado, e ele tem todo o direito de mudar de opinião. No entanto, assim que assinou o seu nome em um pedaço de papel se comprometendo a jogar bola por outro time, assume responsabilidades profissionais que exigem dedicação e foco, mas nenhum dos dois esteve presente na passagem dele pela China.

Tevez jogou apenas 20 vezes pelo Shanghai Shenhua e fez quatro gols. Criticou publicamente jogadores chineses e foi acusado por dirigentes do clube de estar fora de forma, uma denúncia que encontra evidências fortes em seu desempenho muito abaixo do esperado. Não era segredo para ninguém que seu corpo foi para a China sem a sua cabeça. Que ele não estava comprometido. Que se arrependeu de ir assim que subiu no avião. Que simplesmente não estava afim de defender o Shanghai Shenhua. Já era ruim suficiente. Vocalizar, em tom de deboche, como fez em entrevista à TyC Sports, com direito a um risinho, que passou sete meses de férias na China é um profundo desrespeito e uma falta de profissionalismo gritante.

Está neste link, aos 56min50s. “Foi normal (terem me criticado) porque eu tive sete meses de férias. É o preço de não ter estado à altura na China. Em campo, eu me perguntava o que estava fazendo ali. Você se conhece, sabia que era um ano que eu iria sofrer. Mas me sinto bem. Estou tranquilo. Estava convencido de que voltaria. Por isso, quando assinei contrato com a China, coloquei uma cláusula para o Boca. Sempre tive o instinto. Fui sabendo que voltaria”, disse.

Este é outro aspecto fascinante desta história: Tevez já foi pensando em voltar. Segundo o El Gráfico, havia uma cláusula no contrato dele com o Shanghai Shenhua que determinava multa rescisória de US$ 6 milhões caso Tevez quisesse voltar ao Boca Juniors antes do fim do seu contrato que valia até dezembro de 2018 – seriam US$ 20 milhões para outros clubes. No fim, o Boca não teve que pagar nada. Graças a Tevez, que nem nos seus últimos minutos como jogador do Shanghai Shenhua teve um pouco de consideração com o clube chinês. Em vez de tentar minimizar um pouco o prejuízo dos seus agora antigos empregadores, advogou justamente pelo contrário. “(Daniel) Angelici (presidente do Boca) foi à China e me perguntou se queria voltar. Sabia que eu me agarraria à loucura e voltaria. Disse a ele que queria voltar. E disse: ‘sairei a custo zero, não quero que o Boca pague nada’. E foi assim. Adrián (Ruocco, seu agente) trabalhou o mês inteiro”, afirmou.

São válidos os argumentos de que o futebol chinês assume esse risco quando alicia jogadores por motivos meramente financeiros, sem nenhum tipo de desafio profissional ou apego aos clubes, a maioria de baixa tradição, e que no final das contas a maior prejudicada foi uma indústria artificial, que tenta forçar seu protagonismo no cenário mundial por meio de uma bolha de valores insustentáveis e financiamento do governo. Mas os torcedores, que receberam Tevez no aeroporto com uma grande festa e compuseram uma média de público de 18.925 pessoas por partida na Superliga do ano passado – que seria a sexta do Brasileirão de 2017 -, não têm nada a ver com isso e certamente não sentiram que valeu a pena pagar ingresso para vê-lo jogar.

O problema principal, porém, não é esse. É que Tevez extrapolou os limites do personagem, carismático, que inspira simpatia, preso na encruzilhada entre os sacrifícios para ser um jogador de futebol de renome mundial e a vontade de viver uma vida mais mundana, defendendo o clube que ama, dançando cúmbia nos fins de semana e fazendo churrasco com os amigos. Descambou para um homem confuso, que não respeita os clubes que defende, não sabe o que quer e não se esforça o mínimo necessário para ser profissional. E, agora, o que inspira é desconfiança: afirmou, na mesma entrevista, que quer defender o Boca por mais dois anos e se aposentar. Mas dá para acreditar?