Thiago Silva não olhou para o pênalti cobrado contra a Croácia

Thiago Silva é craque, mas não tem sido o líder que o Brasil precisa para ser campeão

Thiago Silva é um dos melhores zagueiros do mundo, senão o melhor, e não é de hoje. Justifica o rótulo com uma ótima Copa do Mundo. É o mais talentoso do único setor em que o Brasil realmente tem certeza, no triângulo ao lado de David Luiz e Luiz Gustavo. Sabe sair jogando, possui ótimo tempo de bola, combina força e habilidade na medida certa. É titular absoluto da Seleção, e seus méritos são inegáveis. No entanto, não tem se mostrado o cara certo para carregar a braçadeira de capitão. Ser a liderança técnica não significa também liderar a personalidade do time. E, neste ponto, Thiago Silva decepciona.

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Os deslizes têm sido frequentes, e ficaram claríssimos no jogo contra o Chile. O capitão não se reuniu com o resto dos jogadores na corrente entre o fim do tempo normal e a prorrogação. Preferiu orar sozinho. Nada contra a fé de cada um, mas é nessa hora que a liderança precisa levantar o moral do time. O mesmo aconteceu antes dos pênaltis. Thiago Silva, sentado na bola, alheio a todos. Quem erguia a voz para pedir raça e transmitir confiança era Paulinho, Fred, Júlio César, Neymar. Com o rosto na grama, Thiago sequer viu as cobranças – como já tinha acontecido na estreia, virando-se de costas ao pênalti de Neymar contra a Croácia. Ainda pediu para ser o último a bater o penal (depois até de Julio Cesar), de tanto que vacilava sobre sua cobrança. Tem todo o direito, ainda mais se for para não prejudicar o time. Mas esse temor excessivo do capitão, quem deveria estar puxando o coro, acaba também contaminando o resto do elenco.

O capitão não precisa ser necessariamente um Dunga, que faz as veias saltarem de tanto gritar e dar lição de moral nos companheiros. Ao invés de motivar pela ira, pode usar o empenho e o exemplo, como era Cafu. Ou a inteligência e o debate, a exemplo de Sócrates. A vontade e a seriedade, que marcaram Carlos Alberto. A serenidade e a consciência de Bellini. Há vários tipos de liderança, e diferentes formas de influenciar a equipe psicologicamente. Ela só não pode ser omissa, como tem sido a de Thiago Silva. Assim, apenas passa a impressão de medo, da preocupação de ficar marcado pela eliminação no Mundial em casa, como aconteceu com Augusto, taxado de “traidor da pátria”.

thiago silva

Chorar não é necessariamente o problema. Júlio César chorou antes da disputa de pênaltis contra o Chile, mas bateu no peito e disse “É minha”. Já Thiago Silva parecia mais preocupado com o final do que com o meio. Ainda que a tensão visível em seu rosto não o tenha atrapalhado dentro de campo, nem de longe, ele deixa uma lacuna na Seleção. Quando o time precisa se chacoalhar e acordar em campo, não pode contar com a voz de seu capitão. E isso pesou nas oitavas de final. Em diversos momentos, faltou alguém que fizesse o Brasil acordar dentro de campo. E quando a confiança precisava ser colocada acima de tudo, Thiago faltou.

Talento é fundamental no futebol. Thiago Silva possui de sobra. Muitas vezes, porém, só isso não é suficiente. E ainda mais em uma Copa do Mundo, na qual o Brasil está longe de seu esplendor técnico. Em uma equipe que não se acerta, raça também é essencial. Algo que não tem sido demonstrado pelo capitão. Os times de Felipão costumam se utilizar e se impulsionar por essa vontade, essa confiança na capacidade.  E o próprio treinador precisa se impor mais nessa cobrança. Quando ninguém dentro de campo exige, seu papel do lado de fora é exatamente esse. Até porque motivar e dar confiança ao grupo sempre foi sua grande virtude na beira do gramado.

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Tirar a braçadeira de Thiago Silva pode abalá-lo ainda mais. De qualquer forma, é necessário encontrar uma solução. Felipão precisa saber como mudar a atitude do time. Dar mais respaldo a David Luiz, Júlio César e Neymar, os três que mais chamam a responsabilidade. Ou saber até que ponto confiar em Thiago Silva. Afinal, se ele é o escolhido para ser o capitão, e há tanto tempo, a comissão técnica sabe de suas qualidades para liderar. As características que demonstrou na Copa das Confederações, mas que sumiram na Copa do Mundo. Em um torneio, onde a emoção e a pressão estão muito mais expostas, o controle emocional é chave.

A vitória sobre o Chile, da forma como aconteceu, botou o Brasil sob provação. E é uma chance de virada também para Thiago Silva perceber que não é a liderança ascendente na Seleção. Aquele que se esgoela, que passa firmeza, que dá o exemplo. Enfim, o capitão cuja forma como influencia não é o mais importante, mas que precisa influenciar, ter personalidade. A braçadeira representa uma responsabilidade. Thiago precisa ter consciência disso, refletir sobre tudo o que ocorreu neste sábado, buscar o espírito de comandante dentro de seu âmago e assumir esse papel definitivamente. Ele pode ser o diferencial na motivação para arrancar uma vitória ou se resignar a uma derrota. E o ‘Monstro’ sabe que é vencendo que se eternizará como os outros capitães brasileiros que ergueram a taça. Cinco líderes, cada qual com sua virtude.