Eles não têm títulos, tradição, dinheiro, nada. Estiveram quase sem time durante o verão europeu, já que após a segunda colocação no campeonato suíço – e a conseqüente classificação para a Liga dos Campeões -, muitos jogadores procuraram novos ares. A razão do êxodo era óbvia: a campanha na terra dos relógios havia sido suficientemente espantosa, e a volta à rotina de derrotas seria o caminho natural. Por mais que, em 2004, o time alpino tivesse realizado proezas na Copa Intertoto (derrotando o Wolfsburg e dando trabalho ao Hamburg), era mesmo impossível cogitar um avanço na Liga dos Campeões, ainda mais com o Dinamo Kiev pela frente. A solução foi procurar reforços baratos mundo afora. Sondado, o brasileiro Jardel foi um dos que não quiseram tomar o rumo das montanhas.

Afinal, que futuro aquele embleminha insignificante poderia oferecer? Um time que figura na 32a posição do ranking de um campeonato como o suíço, tendo-o disputado minguadas quatro vezes, não teria condiç… THUN!!! Soou assim, como uma martelada súbita e vigorosa, a passagem do vice-campeão suíço para a fase de grupos da LC. Após eliminar o gigante ucraniano, o Thun bateu o sueco Malmö, vice da Europa em 1979, e foi parar no grupo B, ao lado de Arsenal, Ajax e Sparta Praga. Por ter ingressado nas chaves da LC, o clube garantiu uma cota de 2,7 milhões de euros, mais que o seu orçamento anual. Outras coisas mudaram: o atacante Lustrinelli, 29 anos, foi pela primeira vez convocado para a seleção suíça; os cem pagantes da época de 3a divisão converteram-se nos milhões de fãs da LC. É claro que, apesar dos progressos, o clube ainda é um “tiny toon” perto dos papa-léguas do Ajax e dos pernalongas do Arsenal.

O velho castelo e a nova realeza

O Basel atualmente detém a supremacia do futebol suíço, mas foi eliminado pelo Thun na última copa nacional. Grasshoppers e Young Boys possuem história, e pouco além disso. Servette, Lausanne e Lugano foram à falência. O cenário, portanto, parece favorável ao surgimento de uma nova força. Inspirado pela belíssima vista de altíssimos pontos da Europa (Jungfrau, de 4.158m, Mönch, de 4.099, e outros) e pela imponência do castelo medieval Schloss Thun (foto), o time alpino quer fazer escaladas, objetivo inusitado para quem, até 2002, só havia tomado parte na elite do futebol suíço uma vez, em 1954/5. Nessa mesma temporada, o Thun teve seu mais expressivo desempenho na Copa da Suíça, perdendo para o La Chaux-de-Fonds a final realizada no Estádio Wankdorf, em Berna.

O palco dessa decisão e de outros duelos bem mais importantes (como a final do Mundial de 1954) foi demolido em 2001 e reconstruído para a próxima Eurocopa. Passou a se chamar Stade de Suisse e abrigou os jogos do Thun nas fases preliminares da LC, visto que o acanhado Lachen não comporta mais do que 7.250 pessoas e, com as enchentes que assolaram a cidade no verão, ficou em estado lastimável. Na fase de grupos, portanto, o time de uniforme vermelho prosseguirá mandando seus jogos em Berna. Quase toda a população de Thun (42.000) cabe no Stade de Suisse, mas torcedores de outras regiões, ávidos de ver o fenômeno do futebol suíço, decerto encherão as cadeiras. “Nós poderíamos vender, provavelmente, 250 mil ingressos”, calculou, deslumbrado, o presidente do Thun, Kurt Weder.

Que tal uma visita aos jogadores?

Para realçarmos a proeza do FC Thun 1898, listemos alguns interessantes pormenores: 1) antes, apenas Basel e Grasshoppers haviam conseguido pôr a Suíça na fase de grupos; 2) com a norueguesa Molde (do clube homônimo) e a belga Lier (do Lierse), Thun forma o trio das menores cidades que já entraram na rota dos grupos da LC; 3) assim como o holandês Heerenveen na temporada 2000/1, o Thun atingiu o milionário estágio da LC sem jamais ter levantado uma taça. É inquietante: uma pequena instituição que passou mais de cem anos no anonimato, sem conquistar um título sequer (nem de segunda divisão!!!), invade de supetão a maior competição clubística do planeta, paradoxalmente denominada Liga dos Campeões.

Impressiona o fato de essa façanha ter sido alcançada sem os polpudos incentivos de um mecenas como Abramovich, que transformou o Chelsea numa potência da Europa, ou Vladimir Romanov, que está fazendo o Hearts bater mais forte na Escócia. Os 150 mil euros que o patrocinador – a empresa Frutiger – investe por ano no Thun são de um recato abissal se comparados aos valores da orgia financeira que se vê em gigantes como Real Madrid e afins. Outros sinais da simplicidade do Thun podem ser encontrados em seu site oficial. A seção que apresenta os atletas traz, sobre alguns deles, detalhes que nunca apareceriam na página de um clube grande – veículo, bebida predileta, estado civil, endereço e coisas do tipo. O defensor Sehad Sinani, por exemplo, não tem carro, aprecia um bom suco de laranja, é solteiro e mora na Basel route 118.

Futebol e arte na terra dos Alpes

Em 1953/4, o Thun foi vice-campeão da segunda divisão suíça após empatar em número de pontos com o Lugano e perder o título num jogo extra. O saldo de gols do Thun era melhor, mas, como um possível desempate por esse critério não constasse dos regulamentos da época, aquele que seria o único troféu (ainda que bem modesto) da história do clube acabou não sendo erguido. De qualquer forma, o Thun foi alçado à primeira divisão e caiu no ano seguinte. Só regressaria à elite, após estadas longas nas divisões inferiores (inclusive a quarta, entre 1974 e 1983), em 2002, novamente sem vencer a Nationalliga B.

Bem, esse tempo de obscuridade ficou para trás. Os desconhecidos carrascos de outrora, do quilate de Zug e FC Olten, que na temporada 1980/1 impediram o Thun de subir para a 3a divisão, estagnaram-se e viram o ex-rival chegar ao impossível. Hoje, a equipe cheia de brasileiros treinada por Urs Schönenberger passa a ser um chamariz turístico para a cidade, equiparável aos grandiosos museus, à paisagem dos Alpes e às cristalinas águas do Lago Thun, em cuja beira o músico Johannes Brahms passou o verão de 1886 e compôs sonatas. Em 1776, o pintor Caspar Wolf produzira o quadro “Vista do Lago Thun e do Monte Nielsen”, igualmente fascinado com o lugar. Se antes essa beleza impulsionava somente as artes e desprezava o esporte, agora, pelo visto, tudo mudou.