Lilian Thuram passou dez anos no futebol italiano acompanhado de diversas manifestações de racismo. Não que seja exclusividade desse país. Afirma que é um problema profundamente enraizado na sociedade europeia, tanto que sua função de aposentado está longe do futebol. Escreve livros e viaja a França para conversar com crianças sobre discriminação racial. Fundou a Fundação Lilian Thuram, cuja missão é educar contra o racismo. “O que é inacreditável é que, 21 anos depois, eu ainda vejo e ouço racismo”, afirmou o ex-jogador de Monaco, Parma, Juventus e Barcelona, ao jornal inglês Independent.

LEIA MAIS: Boateng quer punições mais rígidas contra racistas e o uso de câmeras para identificá-los

Para Thuram, o racismo é uma construção intelectual. “Então, desaprendemos e aprendemos. Desaprendemos e ensinamos”, disse. Mas, além disso, ele acredita que as mudanças dificilmente virão se apenas os que sofrem discriminação – “pessoas com pele negra, de uma particular religião ou homossexuais” – tomarem uma posição contra ela.

“As pessoas que podem ajudar a mudar essa mentalidade são pessoas – e jogadores – que não são vítimas de racismo e discriminação”, explicou. “A questão, portanto, é se jogadores que não são negros, ou de certa religião, ou homossexuais, estão dispostos a agir e tomar posições contra esse problema. O problema com todo tipo de discriminação é que, quando você não é vítima, tende a pensar que ela não existe. Mas é muito fácil pará-la. Por exemplo, se um jogador de futebol branco saísse do gramado quando um ato racista fosse feito contra um jogador negro, as coisas seriam resolvidas mais rapidamente. Porque futebol é um negócio – as pessoas buscam soluções muito rápidas nessas situações. Mas o problema é que sempre pensamos que é a vítima do racismo que precisa se posicionar”.

Thuram ficou muito incomodado quando a Fifa desmantelou sua força-tarefa anti-racismo, alegando que a sua “missão temporária” havia sido cumprida. Ele acredita que a entidade máxima do futebol tem a capacidade de ser um forte símbolo contra a discriminação.

“Quando a Fifa dissolveu o grupo, enviou uma mensagem completamente negativa à sociedade. Apesar de a Fifa continuar a propagandear contra o racismo – e apesar de a Fifa ter o poder e a força para alcançar milhões – precisa enviar uma mensagem mais forte denunciando o racismo. Precisamos de um símbolo forte para passar a mensagem da luta contra a discriminação e o racismo contra pessoas que gostam de futebol. A Fifa pode fazer isso. Seria ótimo se, um dia, quando as pessoas ouvissem o nome da Fifa, imediatamente pensassem na luta contra a discriminação. Imagine que mensagem poderosa isso seria”, afirmou.

Thuram não está otimista. Considera-se um realista. “Vivemos em uma sociedade que aceita milhares de pessoas morrendo no Mediterrâneo simplesmente por buscarem uma vida melhor. Temos que observar que, ao redor da Europa, há um crescimento da extrema-direita e que, cada vez mais, as pessoas não querem falar sobre racismo. Ninguém parece pensar que lutar contra o racismo é prioridade – nem a Fifa, nem a União Europeia”, disse.

“No fim das contas, quando falamos sobre racismo, falamos sobre certos tipos de pessoas que pensam que o mundo pertence a elas. E, na verdade, temos que aceitar que, por mais que estejam erradas, o mundo certamente não pertence a todo mundo, como deveria”, completou.