A relação entre Nagoia e o Brasil vai muito além do futebol. Há uma comunidade brasileira expressiva na província de Aichi, da qual a cidade é a capital. Segundo o Ministério da Justiça do Japão, o estado concentra a maior quantidade de imigrantes brasileiros do país, com cerca de 50 mil residentes – quase o dobro de Shizuoka, na segunda posição da lista. Há um grande número de indústrias no local, sobretudo montadoras, o que ajuda a explicar o movimento migratório. A presença é tão notável que, em espaços públicos como o metrô, existem placas informativas em português, em uma região na qual mesmo indicações em inglês são escassas.

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E, dentro deste contexto, os laços acabam se expandindo aos gramados. O Nagoya Grampus possui uma certa tradição em contar com brasileiros em seu elenco, desde os anos 1990. Nada, porém, comparado ao investimento feito pelo clube da Toyota ao contratar o atacante Jô. O artilheiro do último Brasileirão faz parte de um projeto esportivo, diante do retorno da equipe à elite do Campeonato Japonês nesta temporada. Mas a influência também se desdobra de outras maneiras.

Neste mês de março, o Grampus realizou suas duas primeiras partidas em casa pela J-League na temporada, contra Jubilo Iwata e Kawasaki Frontale. Aproveitou para convidar a comunidade brasileira ao seu “carnaval” no Estádio Toyota. Curiosamente, os dois adversários são de Shizuoka e Kanagawa, províncias que, junto com Aichi, totalizam quase metade dos brasileiros residentes no Japão. Enquanto o Jubilo possui sua referência em português no próprio nome, o Frontale usa as mesmas cores do Grêmio, com quem manteve um projeto de cooperação nos anos 1990.

Os chamados “Dia dos Brasileiros” tiveram descontos especiais aos imigrantes do país que fossem aos jogos do Nagoya Grampus. Com a apresentação do Zairyu Card (o documento para estrangeiros com visto de residência no Japão) os torcedores brasileiros pagariam apenas 500 ienes pelo ingresso, o equivalente a R$15,50 – enquanto o preço normal da cadeira saía por 2300 ienes. Além disso, o clube criou uma ala comunitária nas arquibancadas, com direito a um café grátis para cada espectador.

Para divulgar a ação, o Nagoya Grampus usou as redes sociais, com os próprios grupos de brasileiros no Japão servindo de canal de comunicação. O clube ainda distribuiu cartazes e panfletos em locais públicos, como escolas e restaurantes. E há uma aproximação com o Corinthians neste sentido. Existem movimentos e materiais voltados aos torcedores corintianos na região. No final de fevereiro, a diretoria do próprio Grampus convidou representantes da subsede da Gaviões da Fiel no Japão para visitarem Jô no CT. Assim, fica clara a intenção de levar um novo público para as arquibancadas. Fato é que, seja pela relação com ídolo ou pelo número de paulistas entre os residentes, várias camisas alvinegras eram vistas neste domingo no Estádio Toyota – local onde o clube escreveu também um capítulo importante de sua história, derrotando o Al Ahly na semifinal do Mundial de Clubes de 2012.

O preço promocional dos ingressos, no fim das contas, era um atrativo aos brasileiros, em meio ao evento organizado pelo Nagoya Grampus. Na vitória sobre o Jubilo Iwata, no início do mês, sambistas e passistas ocuparam a entrada do Estádio Toyota, enquanto os ultras do clube agitaram bandeiras do Brasil no setor atrás de um dos gols. Mais de mil brasileiros estiveram presentes na partida. Já neste domingo, o Grampus realizou um mosaico com a bandeira do Brasil e também do Japão para homenagear os laços, enquanto se ouvia um pagode nas tribunas. Nos espaços de alimentação do estádio, eram vendidas comidas típicas brasileiras, como espetos de churrasco e açaí. Ainda foram distribuídos adesivos com caricaturas dos jogadores compatriotas – além de Jô, compõem o atual elenco Gabriel Xavier, William Rocha e Washington. Também ocorreram referências à Austrália, em tributo ao atacante Joshua Kennedy, antigo ídolo do clube e campeão japonês em 2010.

Contudo, os convidados especiais não puderam comemorar a vitória do Nagoya Grampus neste final de semana. A equipe perdeu para o Kawasaki Frontale por 1 a 0, gol de Yoshito Okubo aos 20 minutos do segundo tempo. O início de campanha no retorno à primeira divisão é satisfatório, com o clube ocupando a quinta colocação, com sete pontos conquistados em quatro rodadas. E as expectativas são de que o projeto se consolide. Quem sabe, também com um novo grupo de torcedores vestindo costumeiramente o verde e o amarelo nas arquibancadas.

Abaixo, algumas imagens do jogo deste domingo no Estádio Toyota, bem como do encontro com o Jubilo Iwata no início do mês. Agradecimentos especiais aos amigos Aline e Cainã, que contribuíram com as informações e as mídias desta rodada: