No campo número 4 do tradicional Complexo Desportivo do Jamor, 18 jogadores trabalham sob a orientação de uma comissão técnica completa. Parece, à primeira vista, um treinamento de um time comum de futebol. Mas não é.

A “denúncia” de que há algo diferente por ali vem da própria camisa utilizada pelos atletas. Embora contenha o escudo de Portugal, nem o mais tolo dos observadores imaginaria que se trata da seleção nacional. Basta, então, descer um pouco o olhar, até a altura do peito dos jogadores, para notar as letras SJPF, sigla do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol de Portugal.

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Aquele, definitivamente, não é um time comum. Na realidade, nem é um time – embora, com o passar do tempo, naturalmente vá ganhar cada vez mais “corpo” de equipe e até disputar um campeonato. Os 18 atletas que trabalham no Jamor são, na verdade, integrantes da 15ª edição do Estágio do Jogador, uma iniciativa sindical para dar rodagem e treinamento a quem está sem contrato neste período que antecede a abertura de mais uma temporada.

Todos estão ali por vontade própria. Os associados ao sindicato se inscreveram gratuitamente, enquanto os não-sócios pagaram € 150. No comando, também um novato: o ex-meia português Silas, de 40 anos de idade, que encerrou a carreira de jogador ao final da temporada passada, defendendo o Cova da Piedade, e agora inicia o trabalho como técnico.

Dentre os jogadores, há uma mescla de juventude e experiência. O meia João Coimbra, 31, por exemplo, já teve passagem pelo Benfica e rodou por times de pequeno porte do futebol lusitano. Ele participa do programa pela terceira vez e conta que não sente vergonha alguma por isso. Na primeira oportunidade, aproveitou para aprimorar a forma física antes de ir ao futebol indiano. Na segunda, desempregado, chamou a atenção do União de Leiria, que o contratou. Na outra ponta, está o atacante Joel Tavares, que possui exatamente os requisitos mínimos para participar da iniciativa: 18 anos de idade e experiência de ao menos uma temporada no profissionalismo (no caso dele, atuando pelo Atlético).

Ambos engrossam a lista de 893 participantes ao longo da década e meia de funcionamento do programa. Segundo dados do próprio sindicato, 529 participantes foram recolocados no mercado de trabalho, o que representa 61% de empregabilidade.

Ao longo do estágio, que vai até 31 de agosto, os atletas não somente treinam normalmente, mas também participam de atividades paralelas de formação. Há palestras sobre assuntos que vão dos aspectos jurídicos da profissão de jogador ao uso de primeiros socorros, passando por gestão financeira, nutrição, uso das redes sociais, scouting e prevenção de lesões, por exemplo.

E para que haja uma motivação extra com bola rolando, o “time do sindicato” disputa jogos e até um torneio. Neste ano, a competição será realizada de 12 a 14 de julho, na República Checa, envolvendo equipes de programas semelhantes do país anfitrião e da Espanha, além dos portugueses.

Ainda que seja dever de qualquer sindicato defender os trabalhadores de sua categoria e ao menos tentar alternativas para melhorar a geração de emprego, é louvável o que o SJSP faz. Afinal, mesmo que não consigam a recolocação profissional logo de cara, os participantes do programa saem de lá, no mínimo, trabalhadores mais qualificados do que entraram.