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[Times de capitais] América-PE, Cruzeiro-RS e Galícia ressuscitaram, mas não podem bobear

Quem torce para clube grande não tem ideia do que é esse sentimento. Por pior que seja a administração de uma diretoria, por mais caótica que esteja a situação financeira, nunca vai existir uma situação que obrigue Corinthians, Grêmio, Atlético Mineiro, Flamengo ou Fluminense a fecharem o departamento de futebol profissional. O mesmo não pode ser dito de times menores.

Galícia, Cruzeiro-RS e América-PE são equipes relativamente tradicionais de capitais importantes do Brasil. Revelaram jogadores, tiveram momentos de glória e conquistaram torneios estaduais. Nada disso impediu que, em certos momentos de suas histórias, os bravos torcedores que decidiram encarar uma vida futebolística cheia de amor e escassa de glórias perdessem o objeto da sua paixão. Ficaram de coração partido quando esses clubes, por diversos problemas, afastaram-se do futebol.

Com muito esforço e a passos de formiga, eles retornaram e estão nas primeiras divisões dos seus estaduais. Parecem consolidados. O objetivo comum a todos é transformar essa impressão em certeza. Criar uma estrutura que não permita outros períodos de inatividade. E, se possível, começar a escalada das divisões inferiores do futebol nacional, a partir da quarta divisão.

Mas o torcedor, escaldado, e o dirigente, que nesses casos sempre é um apaixonado, sabem muito bem que não podem esbanjar. Qualquer erro pode ser fatal. Qualquer escorregão pode devolvê-los ao terrível limbo que é passar anos e anos acompanhando futebol sem gritar por quem se ama.

Demolidor de campeões e formador de craques

Um jogador formado pelo Galícia esteve em campo na final da última Liga dos Campeões e estará na Copa do Mundo de 2014, com a camisa amarela do Brasil. A fama de formador da equipe de Salvador não é exagerada pelos torcedores. É real. Atletas importantes chutaram as suas primeiras bolas no clube fundado por espanhóis em 1933. Além do zagueiro Dante, do Bayern de Munique, a mais recente contribuição da equipe para o futebol brasileiro, Washington (Fluminense), Servílio (Corinthians), Toninho Baiano (Flamengo e Fluminense) e Oséas (Palmeiras) são alguns exemplos de sucesso que saíram das categorias de base dos granadeiros.

Essa tradição se perdeu um pouco. Em 1999, mesmo ano em que parou de mandar suas partidas no estádio Parque Santiago, o Galícia foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Baiano. Tentou voltar duas vezes e falhou. Em 2002, licenciou-se de competições profissionais. Foram quatro anos de angústia e saudade no coração do torcedor antes que ele voltasse à ativa em 2006. O retorno bateu na trave já em 2007, com o vice-campeonato na Segundona, mas apenas o campeão ganhava vaga na elite. Apenas em 2013, o sonho do acesso foi concretizado.

Dante foi a última grande revelação do Galícia (Foto: AP)

Dante foi a última grande revelação do Galícia (Foto: AP)

Ter o primeiro tricampeão baiano (1941-43) não é importante apenas para os seus torcedores. Com a ida de Vitória e Bahia para a nova Arena Fonte Nova, o Pituaçu precisa de um dono. O Galícia está mandando suas partidas no estádio, mas não está resolvendo muita coisa. Geralmente, não chega a levar mil pessoas. O ápice – ou o fundo do poço – foi quando recebeu a Catuense, em 16 de março, pela segunda fase do Estadual. Apenas 76 pessoas pagaram ingresso. Era rodada dupla, que também teve Jacuipense e Serrano, mas, descontado o gasto operacional, o prejuízo foi de R$ 6.996,66.

“A realidade é que o custo do futebol para os clubes menores, com torcidas menores, está apresentando resultados negativos”, avaliou o presidente Dario Rego. “Ficamos 14 anos longe da primeira divisão. Os torcedores estão voltando a acreditar. Concorremos direto com os jogos da televisão. Faz parte do futebol. É um processo natural. Aos poucos as pessoas vão voltando ao estádio”.

Enquanto isso não acontece, Dario Rego tenta estruturar um pouco mais o clube. Teve dificuldades, mas conseguiu patrocinadores e investidores e ainda conta com a o repasse do investimento da Caixa Econômica Federal via Federeção Baiana. Boa parte dessa verba está sendo investida nas categorias de base, para resgatar a tradição de formar craques.

O perfil dos treinadores escolhidos foram definidos com isso em mente. Na equipe principal está Ricardo Silva, que trabalhou com os jovens do Vitória, foi promovido e acabou vice-campeão da Copa do Brasil, em 2010. À frente dos garotos está Jorge Valença, ex-técnico da base do Atlético Mineiro. “É mais barato”, explicou. “Queremos um time inteiro com jogadores das divisões de base. Temos parcerias com escolinhas ao longo do estado. Nosso intuito é concentrar nas divisões de base”.

Em terceiro lugar no Grupo 2 da segunda fase, o Galícia joga pela classificação às semifinais. Precisa vencer o Juazeirense, fora de casa. Nada impossível para o clube que ganhou o apelido de Demolidor de Campeões por volta e meia vencer os principais times do país em excursões na primeira metade do século.

Tradição, cinzas e cemitérios

Ernani Campelo era neto de torcedor do Cruzeiro. O marido de uma das primas, também. Por essas coisas da vida, com uma família muito envolvida com o futebol, ele decidiu gostar do terceiro clube de Porto Alegre. E, com apenas dez anos, ficou órfão.

O Cruzeiro de Porto Alegre ficou de 1979 a 1991 sem futebol profissional. A venda do Estádio da Montanha, em 1970, e um período de gestões ruins foram trágicos. Nesse período, Campelo torceu para outras equipes, mas a paixão de infância nunca é superada. Há anos, é apenas cruzeirista. Por quê?

“Por três coisas, na verdade”, explicou o apresentador da Rádio Guaíba e diretor de futebol do Cruzeiro. “Por amor, teimosia e a terceira, a mais importante, é porque nosso clube é o mais maravilhoso do Rio Grande do Sul. Nada existiria no futebol gaúcho se não fosse o Cruzeiro. E não é loucura da nossa cabeça”.

O Cruzeiro de Porto Alegre conquistou apenas um título estadual, em 1929, mas a principal fase do time foi entre os anos 50 e 60. Foi o primeiro time gaúcho a excursionar pela Europa. Em 1953, comandado por Oswaldo Rolla, o Foguinho, o time chegou a empatar por 0 a 0 com o Real Madrid, que estava montando o time que dominaria a Europa na segunda metade daquela década.

Oswaldo aprendeu muito sobre preparação física na Europa e aplicou esses conhecimentos quando assumiu o Grêmio, em 1955. “O Grêmio ganhou 12 títulos em 13 campeonatos disputados. Foi ali, naquele período, que se criou o estilo gaúcho de jogar. É uma consequência do Esporte Clube Cruzeiro”, opinou Campelo.

Concordando ou não com a argumentação do jornalista, a verdade é que realmente o Cruzeiro teve resultados relevantes na Europa e era considerado a terceira força da cidade. As coisas começaram a degringolar em 1970, quando o Estádio da Montanha foi vendido para virar um cemitério.

Além de diretor do Cruzeiro, Campelo é radialista

Além de diretor do Cruzeiro, Campelo é radialista

O clube recebeu uma quantia em dinheiro, uma porcentagem das vendas das covas por aproximadamente dez anos e uma área, de cerca de 20 hectares, onde construiu o seu novo estádio, “no meio do mato”, segundo Campelo. A troca não foi muito boa. Afastou-se do centro e o dinheiro evaporou. Em 1974, abriu mão de disputar o Gaúcho por problemas financeiros. Cinco anos depois, mesmo na primeira divisão, fechou as portas. “Foi o grande erro do Cruzeiro. Perdeu o status de clube central, seu estádio histórico e se apequenou”, contou. “Eu brinquei a minha vida inteira que o Cruzeiro vendeu o estádio para o cemitério e o dinheiro virou cinzas”.

Eram cerca de 20 hectares, em 1970. Esse número caiu pela metade dez anos depois da venda. Em 2009, havia apenas cinco, que foram vendidos para pagar dívidas do clube. Hoje, o Cruzeiro deve em torno de R$ 300 mil, mas é dono de uma área em Cachoeirinha, cidade na Grande Porto Alegre onde está construíndo um Centro de Treinamento, e, por meio de permuta, conseguiu com a prefeitura local um terreno para levantar um estádio padrão Fifa para 16 mil pessoas. A nova casa está sendo toda construída com recursos próprios. Falta dinheiro.

“Está com 85%, 90% das obras concluídas. A prefeitura ajudou muito, com obras de estrutura no entorno, mas a obra em si é do clube”, afirmou. “Estamos tentando parceria com construtoras. Ela termina e explora o entorno. Outra possibilidade é a gente mesmo explorar o entorno. Estamos negociando um posto de gasolina. Se não der nenhuma das duas, fazer uma campanha forte de cimento com a comunidade de Cachoeirinha. Ano que vem temos que jogar no nosso estádio”.

Campelo dedica-se ao Cruzeiro desde 2001 – recentemente virou conselheiro vitalício – e faz um apelo. Gostaria que o Cruzeiro aparecesse mais na mídia e ganhasse apoio dos empresários gaúchos. Citou o caso do banco Banrisul, que patrocina Grêmio e Internacional.

“Como querem que tenha público no jogo do Cruzeiro se a cidade tem 10 jornais diários e nenhum escreve todo dia sobre o Cruzeiro?”, criticou. “A gente não pode errar, mas poderia haver um apoio externo, um pensamento mais amplo. O banco do Estado investe trocentos milhões por ano em Grêmio e Inter. Às vezes, o clube do interior não quer jogar a Série D porque não querem pagar as despesas. Por que o Banrisul não dá uma ajuda para esses clubes?”.

O jornalista fez parte do grupo de torcedores apaixonados que ressuscitou o Cruzeiro. Sem nenhuma fórmula mágica. Pagou as dívidas e tenta usar a imaginação para levantar recursos para construir uma estrutura. Não precisa de muito mais do que isso. “Independente de ser profissional ou amador, o futebol pode ser viável, apesar de toda a dificuldade, se tiver duas coisas: responsabilidade e amor”, encerrou.

Um pouco de Bom Senso, por favor

Os clubes pequenos do interior têm uma vantagem em relação aos da capital. Os empresários locais e as prefeituras vez ou outra apoiam as equipes da cidade. A população torce para outro time, mas todos os jogos são um evento. Coisas que o América de Recife, campeão pernambucano seis vezes entre as décadas de 1910 e 40 e que teve como torcedor ilustre o escritor João Cabral de Melo Neto, não tem como contar.

A quarta força da capital pernambucana teve também os seus períodos de inatividade, na década de 1960 e de 1990, mas subiu em 2010, após 15 anos longe da primeira divisão do Estadual. Passou por apuros na atual edição. Ficou em último na primeira fase e caiu para o hexagonal do rebaixamento. Precisa de um empate na última rodada para se salvar.

Como no caso do Galícia, a aposta para tentar voltar às glórias  também é o investimento nas categorias de base. O clube está disputando categorias inferiores do Estadual (sub-15, sub-17 e sub-20) e tenta entrar na Copa do Nordeste sub-20.

“Já temos quatro, cinco, seis atletas com menos de 20 anos que são revelações, dignas de potencial”, disse o presidente Celso Muniz Filho. O problema é que, se são realmente jogadores de talento, vai ser difícil segurá-los. A partir de segunda-feira, o calendário do futebol profissional do América para 2014 termina. Por isso, Muniz Filho apoia a iniciativa do Bom Senso FC de organizar uma Série E do Campeonato Brasileiro para que os clubes pequenos tenham partidas para jogar o ano inteiro.

O América-PE aposta na base para reerguer o clube (Foto: Blog do Mequinha)

O América-PE aposta na base para reerguer o clube (Foto: Blog do Mequinha)

Ele está buscando times de São Paulo e do Rio de Janeiro para vender parte dos direitos federativos. Não quer revelar e vender imediatamente, mas também não planeja impedir o futuro de ninguém. Jogadores de cerca de 25 anos vão ter os contratos renovados e serão emprestados. Os mais experientes vão ficar sem emprego.

“Queremos ter disputa o ano inteiro. Esse é um problema do futebol do Brasil, das equipes que mantêm o futebol aceso. É importante ter o Flamengo, mas, se contarmos 20 clubes, com 20 atletas cada, dá 400. E o Brasil tem mais de 10 mil atletas”, justificou.

Muniz Filho contou a história de um atleta do sub-20 que tinha vergonha de mostrar a sua casa. A irmã “vivia no mundo da prostituição” e o irmão, “no do tráfico”. Na opinião dele, o América afastou-o desse caminho. Se os clubes pequenos não conseguem ganhar dos grandes com frequência, podem pelo menos ganhar das drogas e proporcionar uma alternativa para os jovens da cidade. “Eu acho que a gente resgata muita gente que potencialmente poderia ir para um caminho errado”, disse.

Reza a lenda que Arnaldo Niskier, no velório de João Cabral de Melo Neto, ilustre torcedor do Ameriquinha, em 1999, disse que os “olhos do poeta João fecharam-se sem que o seu sonho fosse realizado: ver o América Futebol Clube voltar aos seus diás de glória”. Quinze anos depois, isso ainda não aconteceu, mas já melhorou bastante.

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