Depois de um começo ruim, o América vai se recuperando no Campeonato Carioca da Série B

[Times de capitais] Como uma parceria fracassada quase afundou o ano do America-RJ

Um clube que já foi semifinalista do Campeonato Brasileiro e sete vezes campeão estadual amarga a segunda divisão do Campeonato Carioca desde 2011. O America, o quinto maior clube do Rio de Janeiro, chegou perto de voltar à elite no ano passado, mas bateu na trave. O começo da nova temporada foi atribulado e os problemas, ao invés de serem solucionados, parecem se acumular. E o time não está na zona de classificação para as semifinais da Taça Santos Dumont (a Taça Guanabara da segundona fluminense).

A temporada começou torta. Em 16 de dezembro, o presidente Vinicius Cordeiro renunciou por motivos pessoais. Gilberto Cardeal foi interino até 6 de janeiro e assinou uma parceria, que foi orquestrada na gestão anterior, com a ODG Sports, empresa que administraria o futebol do clube. 

O dirigente falava com otimismo sobre o acesso e o título da Copa Rio, que concede vaga na Série D do Campeonato Brasileiro de 2015. Haveria aporte financeiro e a chegada de jogadores experientes para recolocar o Diabo na elite. O grande nome era Gilberto, ex-Flamengo, Vasco, Cruzeiro, Grêmio, Internazionale, Tottenham e seleção brasileira, que iniciou a carreira no clube da Tijuca. O lateral-esquerdo largou a aposentadoria para topar a proposta do America. “Ele teve outras propostas mais vantajosas, mas casou com a do America e resolveu voltar aos gramados. Ele vem para ser a referência dentro das quatro linhas”, disse o ex-diretor executivo de futebol e jornalista Bruno Voloch, na apresentação do veterano. “Nossa obrigação é profissionalizar o futebol do America.”

Mas essa união foi tão conturbada quanto breve. O contrato assinado pelas duas partes previa um depósito de R$ 140 mil até 30 de janeiro, uma quantia considerável para um clube que vive de uma mensalidade de R$ 80 dos sócios e da ajuda de ilustres torcedores mais endinheirados.

O dinheiro nunca apareceu. Nem despesas corriqueiras que a ODG Sports prometeu bancar, como a inscrição dos jogadores na Série B do Carioca, foram cumpridas. Às 15h da segunda-feira, 3 de fevereiro, último dia de inscrições, Léo Almada, presidente eleito no começo de janeiro, não tinha verba para confirmar a participação no torneio. Precisou pedir ajuda desses americanos abastados para “não envergonhar o torcedor”.

O contrato foi rescindido unilateralmente naquele mesmo dia, faltando apenas nove para a estreia na Segundona. O namoro entre clube e empresa não foi nada além de uma paixão de verão. “Como o contrato era péssimo para o clube, aproveitei e notifiquei que não interessava mais ao America continuar com a parceria”, disse o presidente Almada, que explicou em que aspecto o acordo era ruim. “Em todos. Ocupariam todas as dependências, social, esportiva, o estádio, nossa concentração. Usariam como bem entendessem, com um pequeno percentual para o America. Tudo era vantajoso para eles”.

A versão da empresa é diferente. Em entrevista ao Globo Esporte.com na época da rescisão, Voloch afirmou que o clube não dava segurança institucional para nenhum parceiro. “A ODG é uma empresa com credibilidade e o clube não tem estabilidade. Em três meses, trocou de presidente três vezes. Então já viu”, comentou.

Gilberto chegou a marcar duas reuniões com Almada para resolver a sua situação, mas nunca apareceu. Acabou aceitando uma proposta do Araxá, de Minas Gerais, para supervisionar as categorias de base e jogar de vez em quando na segunda divisão do Mineiro. Outro reforço, o atacante Marcelo Baez, 22 anos, vice-campeão da Libertadores pelo Olímpia, também foi embora. “Nós colocamos todos eles à vontade para irem embora junto com a ODG”, explicou o presidente. “Enquanto eu for presidente, não quero ninguém que não se dedique com com amor, com o coração, seja Neymar ou Messi”.

Gilberto chegou a ser apresentado no América-RJ, mas sequer entrou em campo

Gilberto chegou a ser apresentado no América-RJ, mas sequer entrou em campo

Começar de novo

Era natural que a confusão se refletiria em campo. Todo o planejamento para 2014 foi realizado pela ODG. A estreia, contra o Tigres, terminou empatada por 2 a 2. Em seguida, o time vermelho perdeu do Ceres por 2 a 1 e do Barra Mansa por 4 a 1. Era hora de mudar.

O machado acabou acertando o pescoço de Ernesto Paulo, campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Flamengo, em 1990, e do Sul-Americano sub-20 pela seleção brasileira no ano seguinte. Também em 1991, ele chegou a treinar o time principal do Brasil contra o País de Gales, no intervalo entre a era de Paulo Roberto Falcão e a de Carlos Alberto Parreira.

O escolhido foi Gílson Nunes, técnico do clube em 1984, quando Léo Almada era vice-presidente de futebol. “Resolvemos resgatá-lo e ele conseguiu dar ao futebol do America uma nova maneira de funcionar, apresentando situações técnicas diferentes. Deu ao elenco americano a motivação que estava faltando”, elogiou. 

Porque tem que ser na base da motivação mesmo. O elenco do America, segundo o vice-presidente de futebol Moreno Alves, ídolo e ex-jogador do clube, foi muito mal montado. Ele desafiou Almada no pleito de janeiro, mas foi derrotado por uma margem, digamos, considerável: 73 a 2. Ganhou o cargo como prêmio de consolação. O candidato da situação Gilberto Cardeal teve 27 votos. Também foi convidado para fazer parte da cúpula do futebol, mas não teve o mesmo espírito esportivo de Moreno. Irritou-se e decidiu permanecer como primeiro vice até o fim do mandato.

“A ODG fez todas as contratações. Não esperávamos a saída dela, então foi uma tristeza para a gente”, disse. “Quando o contrato foi rompido, assumimos o clube e tomamos par do que estava acontecendo. Contratações erradas, dois jogadores para a mesma posição, e não podemos mais contratar. Estamos controlando isso dentro do possível. Estamos tentando dar a tranquilidade necessária, trabalhando a parte psicológica. É o que podemos fazer no momento”.

E vem dando certo. A equipe venceu o Sampaio Corrêa-RJ por 2 a 1 e o Angra dos Reis por 1 a 0. Ainda ganhou o placar de 3 a 0 sobre o Quissamã de graça porque o adversário abandonou a segundona carioca por não ter nenhuma condição financeira de continuar. O elenco chegou a ser expulso de uma pousada, segundo o capitão do time. Um bom lembrete para o America de que sempre tem alguém pior por aí. De qualquer modo, a equipe já subiu para a quarta posição no Grupo B, um ponto atrás do segundo colocado, o São João da Barra.

Gílson Nunes tenta recuperar o América-Rj na base do papo

Gílson Nunes tenta recuperar o América-Rj na base do papo

Nada de novas parcerias

Almada tem saudade do tempo em que os jogadores pertenciam aos clubes. Acredita que a relação promíscua que envolve atletas, empresários e treinadores muitas vezes impede que os melhores sejam colocados em campo. E por isso busca reestruturar o seu clube com outra estratégia. Não tem vontade de ser barriga de aluguel para fundos de investidores.

“Se vierem parceiros que não queiram abocanhar o clube e se tornarem proprietários, estamos prontos para negociar”, afirmou. “Que venham patrocínios para nossa camisa. O America é o clube mais viável do Rio de Janeiro. Tem sede, estádio, centro de treinamento, coisa que outros clubes do Rio de Janeiro não têm”.

A situação financeira é, como sempre, delicada. Os rendimentos da sede social são suficientes para pagar os compromissos do dia a dia. INSS, fundo de garantia, conta de luz e etc. O resto vem de “americanos que não querem se identificar e atenderam a um chamado”.

“O America, depois que eu assumi, não está devendo nada para jogador nenhum, para funcionário nenhum. Apenas os débitos que já existiam continuam a existir porque era um valor extraordinário, que só pode ser sanado com uma parceria saudável”, justificou o dirigente, que vai ficar apenas um ano no comando, equivalente ao que faltava no mandato de Cordeiro. “Não fico um dia além. Vou tentar deixar em uma situação que possa ser tocada (pelo sucessor)”.

E o futuro?

Mesmo que as intenções de Léo Almada sejam das melhores, em menos de dez meses não é possível realizar nenhum milagre. A Copa Rio, no segundo semestre, pode render uma vaga na quarta divisão nacional. Com muito menos dinheiro que os adversários, o mais difícil é não virar um saco de pancadas em 2015, mesmo que consiga os objetivos deste ano.

Por isso, José Trajano não está muito otimista. Um dos torcedores mais ilustres do clube e comentarista da ESPN Brasil, o carioca até acredita no acesso, mas qual o sentido de voltar para a primeira divisão? “Sobe e vai acontecer o quê? Vai conseguir se manter? Sobe para passar vexame”, afirmou.

José Trajano é comentarista e ex-diretor de jornalismo da ESPN Brasil

José Trajano é comentarista e ex-diretor de jornalismo da ESPN Brasil

Trajano culpa a história da Copa União pela derrocada do America. O Diabo havia sido semifinalista do Brasileiro de 1986, mas ficou de fora do torneio organizado pelo Clube dos 13 no ano seguinte. O clube de Campos Sales se recusou a disputar o Módulo Amarelo e o segundo semestre de 1987 foi praticamente de amistosos. A força do time se esvaiu. A equipe foi chamada para a Copa União de 1988, mas terminou em último lugar, caiu para a segunda divisão e nunca mais voltou.

A perda de identidade também seria um motivo de desmobilização da torcida. Sobretudo com a mudança do estádio do clube para Mesquita, na Baixada Fluminense, bem longe da sede, na Tijuca. “Quem mora na Tijuca hoje não é mais America como era antigamente”, acrescentou. “O clube tem pouquíssimos sócios, não tem visibilidade, não consegue levantar dinheiro. Quem vai jogar em um time como o America? Não é mais um clube da Tijuca, é um campo de futebol em um lugar inóspito, em Edson Passos”.

O ex-diretor de jornalismo da ESPN Brasil lembrou como o America é querido. Aparece em novelas e filmes e teve até um carro próprio no desfile da Imperatriz Leopoldinense no Carnaval do Rio de Janeiro que homenageou Zico – o irmão dele, Edu Coimbra, começou no clube. Infelizmente, isso não é o bastante.

“É querido por ‘n’ motivos, mas não consegue se renovar, crescer. O América, pela simpatia que há em torno dele, se conseguisse um projeto de verdade, não mesquinho, poderia até recuperar uma parte do prestígio. O América não tem torcedor, não tem ídolo recente”, lamentou. “Depois de velho, não dá para virar a casaca, então tenho que fazer que nem o hino e torcer até morrer. Eu não vou mudar de clube porque não vou desistir e cada vez mais somos menos. Vamos ver o enterro do América”, encerrou.

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