Quem ainda é espectador mais atento de tevê já notou Tite aparecendo em uma propaganda de televisão. Não que seja inédito: em 2014, ano que passou acompanhando trabalhos alheios, já acompanhara Muricy Ramalho e Oswaldo de Oliveira numa divulgação do SEBRAE. Mas agora, o status mudou: como o badalado treinador da Seleção Brasileira, o gaúcho de Caxias do Sul virou o garoto-propaganda da Samsung,e já tinha divulgado antes a Uninassau, faculdade pernambucana. Involuntária, mas compreensivelmente, Tite se afiliou à lista já tradicional de treinadores da Seleção que passam a ser garotos-propaganda às vésperas dos Mundiais. Uma lista que já é longa, pelo menos em tempo.

Zagallo, o pioneiro em 1974

Já em 1974, Zagallo despontou, estreando na divulgação dos televisores Springer Admiral. Mas só aparecia nos cartazes publicitários, sem fazer filmes – pelo menos antes daquela Copa. Após Cláudio Coutinho ser exceção à regra e passar em branco na Copa de 1978, a seara das propagandas televisivas seria aberta justamente pelo sucessor de Coutinho: Telê Santana. Na Copa de 1982, Telê vivia um momento semelhante ao atual de Tite. Aparecendo em anúncios da Topper (que produzia o uniforme da Seleção Brasileira), o treinador mineiro de Itabirito era um dos nomes mais desejados para reclames – mesmo que, assim, competisse indiretamente com os treinados por ele.

Em 1982, aparições de Telê quase igualavam as dos jogadores

Basta lembrar que Sócrates era o outro nome a aparecer nas propagandas televisivas da Topper, que Falcão era o rosto da confecção Hering e que Zico era o nome das propagandas da Coca-Cola. Tal onipresença de Telê foi até criticada pelo cartunista Henfil, num debate no programa “Esporte Espetacular”, da TV Globo, em 8 de maio de 1982: “Uma coisa engraçada que está acontecendo com essa Seleção – já aconteceu com a do Cláudio Coutinho também – é a seguinte: o povo discute jogadores, agora quem manda e é o símbolo da Seleção é o técnico. Vê um exemplo disso: assista na televisão aos comerciais. O Telê tá batendo, de longe, o próprio Zico. Atualmente o Telê tá fazendo mais publicidade, aparece mais tempo no ar do que os jogadores”.

Por mais que gente como Henfil reclamasse, era caminho sem volta. Tanto que Telê voltou a fazer comerciais, de bom grado, em 1986, para duas empresas. Por 650 mil cruzados, tornou-se o rosto das propagandas do BEMGE (Banco do Estado de Minas Gerais). Mais importante: virou o primeiro dos técnicos a divulgar os televisores da Mitsubishi – segundo o slogan da época, “o único com garantia até a próxima Copa do Mundo”.

Telê popularizou seu nome novamente nas propagandas antes da Copa de 1986

No entanto, a mais popular e lembrada aparição de um técnico de Seleção Brasileira em Copas do Mundo talvez venha com o sucessor de Telê. Nem tanto por Sebastião Lazaroni também estampar anúncios da Petrobras em revistas, antes do Mundial de 1990. Mas obviamente pela célebre propaganda do Fiat Uno “fatto in Brasile e exportato all’Italia” (feito no Brasil e exportado para a Itália), como Lazaroni tentava convencer um policial italiano que lhe multava. E que duvidava a ponto de citar a célebre frase: “Lazaroni, brasileiro, técnico da Seleção Brasileira, guiando um Uno feito no Brasil… prazer, eu sou o Papa”.

Em matéria de 2014 para o Guia dos Curiosos, do jornalista Marcelo Duarte, Lazaroni lembrou os bastidores do vídeo feito pela agência MPM: “Eu treinei meu italiano na hora. Se existe o portunhol, lá eu falei um ítalo-português. O policial era um ator italiano. A frase ‘E eu sou o papa’ não estava no script, foi improvisada. O único problema foi que o Plano Collor tomou todo o dinheiro que eu ganhei pelo comercial”. Não bastasse o dissabor monetário, uma adaptação da frase do policial italiano ainda foi flagrada pelas câmeras do estádio Delle Alpi, em Turim, tão logo terminou o Brasil x Argentina da eliminação da Seleção nas oitavas. E seu teor não era nada bem humorado: “Se Lazaroni é um técnico, eu sou o Papa”.

Curiosamente, antes da Copa de 1994, a sequência teve uma pausa. A baixa popularidade de Carlos Alberto Parreira o tirou da alça de mira das agências de propaganda, que privilegiaram os jogadores (como Romário, Zinho e Raí, com aparições nos célebres filmetes da Brahma Chopp). Mas antes que 1998 chegasse com a onipresença de Ronaldo, divulgando o que se pudesse imaginar – Pirelli, Parmalat, Guaraná Brahma, Nike -, Zagallo reapareceu por antecipação, em 1996. Tanto divulgando o veículo especial da Volkswagen para os Jogos Olímpicos de Atlanta (“Sai do gol, Dida!”) quanto sendo mais um a divulgar os televisores Mitsubishi – com garantia ampliada para duas Copas. E ainda havia a volta de Telê Santana.

Em 1998, houve até uma propaganda de técnicos “pós-Copa”: imediatamente após a derrota na final, o Guaraná Brahma divulgou um filmete com crianças jogando, tendo um discurso de otimismo (“A gente não perdeu, só deixou para depois”) e trazendo como “técnicos” dos infantes Joel Santana, Emerson Leão… e o sucessor de Zagallo, Vanderlei Luxemburgo. Que não emplacou 2002. Quem chegou para ser mais um rosto a estampar anúncios antes da Copa foi Luiz Felipe Scolari, que promoveu o Guaraná Antarctica – e ainda recebeu de “brinde” um reclame final, com cumprimentos bem humorados pela conquista do pentacampeonato.

Já na década de 2000, Carlos Alberto Parreira até apareceu numa propaganda – mas esta tinha caráter preventivo, numa campanha do Ministério dos Transportes pedindo a diminuição da velocidade nas estradas. Mas quando chegou a véspera da Copa de 2006, o treinador retornado novamente passou em branco nas aparições, deixando a publicidade para os jogadores (a mais lembrada delas, o “Maradona brasileiro”). Mas quatro anos depois, Dunga retomou a tradição. Com a campanha dos “guerreiros” insuflada pela AmBev/Brahma. Ou até zombando do ar sempre exigente e, no mínimo, sisudo, para a campanha da Oi:

Em 2014, Scolari voltou. E apareceu mais do que fizera em 2002: Gillette, Sadia, Walmart, Ambev (novamente a Brahma Chopp), Peugeot e Vivo. Foram ao todo 318 aparições em intervalos comerciais televisivos – naquela convocação, só previsivelmente abaixo de Neymar, com 578. Tal solicitude do gaúcho de Passo Fundo poderia ter sido aumentada com o título. Virou mais um motivo de críticas, com a Copa terminando como terminou para a Seleção.

Agora, Tite dá sequência antecipada a essa longa história publicitária. E o resultado em campo decidirá se as incursões publicitárias serão perdoadas ou fornecerão calibre para as críticas.