Fred, capitão do Fluminense: qual é a do Fluminense em 2014? (Foto: Jorge Rodriguezs/Trivela)

Título ou rebaixamento? O Fluminense nunca sabe o que vem pela frente

É possível ser campeão brasileiro um ano depois de escapar do rebaixamento em uma situação tão improvável que chega a ser milagrosa? E fugir da segunda divisão por uma mera tecnicalidade apenas 12 meses após levantar o mais cobiçado troféu nacional? É tão possível que o Fluminense conseguiu passar pelas duas situações. Com um patrocinador rico, estrelas milionárias mescladas a revelações, efervescência política nos bastidores e troca constante de treinadores, o clube carioca exercita a tática da roleta russa. O tambor do revólver gira e na maioria das vezes o gatilho é apertado sem nenhuma bala no cano, mas uma hora não tem mais escapatória.

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O Fluminense foi ferido mortalmente duas vezes e se salvou de alguma forma. O período entre a final da Libertadores de 2008 e a 27ª rodada do Campeonato Brasileiro do ano seguinte foi bastante curioso. Renato Gaúcho decidiu brincar no Brasileirão, foi demitido e substituído por Cuca, que ficou menos de dois meses. Sucederam-no René Simões e Carlos Alberto Parreira, antes de Renato Gaúcho retornar, e depois Cuca também voltar. A bala que mais machucou o clube naquela temporada foi esse círculo sem fim de treinadores.

Cuca reassumiu o Fluminense na 23ª rodada, na lanterna da competição com 17 pontos, a oito do Náutico, o primeiro clube que se salvava naquele momento, com uma campanha patética de três vitórias, oito empates e 12 derrotas. Fred não jogava desde julho, e mesmo antes disso entrava e saia do time, dependendo das condições físicas dos seus músculos. O ataque, sem a grande estrela cujos salários eram pagos pela patrocinadora, tinha Kieza e Roni, eventualmente Alan e Adeílson. Queda brusca de qualidade.

Os matemáticos chegaram a apontar que havia 99% de chances de o Fluminense ser rebaixado. De cem times em condições idênticas, apenas um poderia escapar, ou algo parecido. A arrancada começou na 27ª rodada com o empate contra o Corinthians. Fred voltou ao time no jogo seguinte, até marcou no Santo André, e começou a lenda do time de “guerreiros”. O Flu não perdeu mais até o fim do Campeonato Brasileiro, o atacante emendou oito gols e o milagre se concretizou: um empate contra o Coritiba no Couto Pereira rebaixou os paranaenses e terminou em quebra-quebra. Mas o tricolor estava salvo.

Mesmo tão próximo da tragédia, o elenco já contava com alguns jogadores que seriam comandados por Muricy Ramalho rumo ao título brasileiro do ano seguinte. Além de Fred, Gum, Diguinho, Mariano e Darío Conca. Uma boa base, que ainda precisava de alguns ajustes. Começou com os destaques daquele Campeonato Brasileiro. Trouxe Leandro Euzébio e Júlio César do Goiás e Valencia do Atlético Paranaense para ajudar a formar a base do bolo, enfeitado com as cerejas da Unimed: o meia Deco e o atacante Emerson, especialista em ser campeão brasileiro.

Cuca foi demitido em abril e o título veio nas mãos de Muricy Ramalho, outro que possuía o manual para vencer esse tipo de torneio, depois de fazer isso três vezes com o São Paulo. O curioso da passagem do treinador foi como ele escancarou a estrutura precária do Fluminense. O clube investia bastante em jogadores, por meio da Unimed, mas não tinha um Centro de Treinamentos decente. O presidente Peter Siemsen venceu as eleições durante a reta final da conquista e prometeu a construção de um, mas Muricy não aguentou esperar. Quase eliminado na primeira fase da Libertadores, disse que havia ratos nas Laranjeiras, pediu o boné e foi treinar o Santos.

O seu sucessor demorou três meses para chegar. Abel Braga assumiu apenas em junho e o time ficou nas mãos de Enderson Moreira. O maior reforço foi Rafael Sóbis, acompanhado de alguns coadjuvantes, como Ciro, os estrangeiros Lanzini e Martinuccio e o volante Edinho, pedido especial de Muricy Ramalho. Novamente, um rock star à frente de vários jogadores cumpridores. Não foi mal no Campeonato Brasileiro e terminou na terceira posição, com vaga para a Libertadores.

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Foi um período de rara estabilidade para o Fluminense. Abel Braga ficou dois anos no cargo e foi ganhando os seus presentes: Wágner foi contratado por R$ 12 milhões, e Thiago Neves, por R$ 16 milhões. Maior parte desse dinheiro saiu dos cofres da Unimed, que detinha 80% dos direitos econômicos de ambos. O clube cada vez mais era dependente da patrocinadora e não passava por um momento muito bom financeiramente. Por conta de dívidas, por exemplo, a verba da venda de Wellington Nem foi bloqueada pela Procuradoria Geral da Fazenda. O clube sempre teve que se equilibrar entre os investimentos da parceira e os seus próprios recursos. Muitas vezes houve relatos de que apenas as estrelas estavam recebendo os salários. Não preciso dizer o que isso pode fazer com um grupo.

Em 2012, não teve nada disso, e Abel Braga conquistou o Campeonato Brasileiro com certa folga. Mas a maior prova de como os bastidores atrapalham o andamento do clube e a volatilidade dessa estratégia de ter duas linhas de formação de time tão distintas veio no ano seguinte. Porque com praticamente os mesmos jogadores, exceto Thiago Neves, que voltou para Arábia Saudita, e Deco, aposentado, o Fluminense foi rebaixado. Fazem falta, e é verdade também que Fred perdeu partidas críticas da reta final por causa de lesão, mas esses problemas não podem ser a diferença entre um time campeão e outro que ficou atrás de Criciúma, Coritiba, Bahia e, teoricamente, Portuguesa. A salvação veio com o erro da Lusa na escalação de Héverton, que acabou desencadeando uma batalha jurídica, vencida pelos cariocas, que jogou os paulistas para a Série B.

O que houve de diferente naquela temporada foi muito barulho nos bastidores. Foi ano de eleições presidenciais nas Laranjeiras, e houve uma crise entre Unimed e clube por causa do vice-presidente de futebol Sandro Lima, que recebia salários da empresa de planos de saúde. O próprio Peter Siemsen admitiu que a confiança com Celso Barros, presidente da patrocinadora, ficou desgastada. Também confirmou que foi voto vencido na demissão de Abel Braga, e o sucessor Vanderlei Luxemburgo foi muito mais um homem da parceira do que propriamente de Siemsen. Mas como dizer não, se os salários dos principais jogadores do time são pagos por ela?

Estruturando o clube e tentando construir as bases para a independência, se o presidente achar que esse é o melhor caminho em longo prazo. Só que a operação não pode ser executada em pouco tempo, mesmo que já tenha começado. Enquanto isso, o começo do ano é o dedo no gatilho, e o torcedor passa alguns meses preocupado até ficar claro que o ano é de glórias e não de tristezas. Em terceiro lugar no Brasileiro, 2014 parece que ao menos será tranquilo. Mas e 2015?

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