Por Raphael Harris*

Duas reações me ocorreram quando a bola flutuada sobre a área do Southampton desviou na testa de Harry Kane e morreu dentro das redes do Wembley: um sentimento de total euforia infestou meu corpo e minha alma – afinal, além de abrir o placar da partida contra os Saints, o camisa 10 do Tottenham havia marcado seu trigésimo sétimo tento na Premier League em 2017, superando a marca de Alan Shearer de maior número de gols marcados na competição dentro de um ano solar (36).

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Incrivelmente, este não seria o único recorde quebrado por Kane naquela tarde de Boxing Day. Com a ajuda dos seus companheiros de equipe Son Heung-min e Dele Alli, o atacante de 24 anos anotou mais dois tentos e encerrou 2017 como o maior goleador das grandes ligas da Europa, com 56 gols. Interrompeu uma série de nove anos com Messi e Cristiano Ronaldo no topo da artilharia europeia. Também foi a oitava vez que o inglês marcou três vezes em um jogo só.

Em meio aos segundos hiperativos de comemoração, me veio à cabeça um breve instante de reflexão – quão sortudos somos de ter Harry Kane?

Há um consenso geral entre a torcida do Tottenham de que ninguém esperava a ascensão meteórica do rapaz de Enfield. Tal consenso não é de se surpreender, pois o início da carreira de Kane não foi dos mais promissores: nas poucas aparições que teve como titular, o garoto da base decepcionou – inclusive errando um pênalti contra o Hearts na sua estreia com a camisa dos Spurs, na Liga Europa de 2011/12, aos 19 anos.  Nessa mesma temporada, Harry foi emprestado ao Millwall, pelo qual impressionou com nove gols em 27 partidas pelo clube.

Entretanto, o jovem Kane não conseguiu dar sequência à boa forma ao retornar aos Spurs na temporada seguinte, e novamente foi mandado em empréstimo. Dessa vez no Norwich City, Harry Kane não registrou um gol sequer nas aparições com o clube, que, devido a uma lesão no pé, foram irregulares. Quatro meses antes da data de retorno, o atacante voltou ao Tottenham. Dois dias depois, o então técnico dos Spurs, André Villas-Boas, o emprestou mais uma vez – permaneceu até o fim da temporada 2012/13 no Leicester City, pelo qual fez apenas 13 aparições.

Kane passou a temporada 2013/14 inteira no Tottenham, jogando principalmente na equipe sub-21. Porém, com a má fase do atacante titular Roberto Soldado, e a eventual demissão de André Villas-Boas, teve mais uma chance de deixar sua marca na equipe principal – e dessa vez não decepcionou. Anotou seu primeiro gol com a camisa branca contra o Hull City, numa partida disputada pela Copa da Liga Inglesa. Em abril de 2014, foi titular dos Spurs pela primeira vez na vitória por 5 a 1 sobre o Sunderland, marcando nessa mesma partida o seu primeiro gol na Premier League, aos 59 minutos. Kane voltaria a aparecer na equipe principal nas duas partidas seguintes, com três gols em três jogos consecutivos.

Seria apenas na temporada 2014/15 que o jovem atacante ganharia o incontestável voto de confiança tanto de seu novo técnico, Mauricio Pochettino, quanto da torcida que havia parecido ter perdido a fé nele anteriormente. O resto é história.

No mundo futebolístico, raramente se comenta sobre o incrível progresso vivido por Kane. Sua ascensão de “perna-de-pau da categoria de base” até o posto de artilheiro da Premier League por duas temporadas consecutivas e eventualmente maior artilheiro da Europa no ano de 2017 é uma história extraordinária. Estranhamente, tanto ela quanto a representatividade que ele tem para seu clube são pouco mencionadas. Sua habilidade como artilheiro é o sujeito de muitos comentários na mídia esportiva, mas Kane é muito mais que apenas um atacante prolífico, e qualquer time do mundo faria de tudo para ter um jogador de sua espécie.

Como assim “de sua espécie”? Harry é um modelo de profissional a ser seguido. Determinado, carismático, bem-humorado, tem os pés no chão e acredita em sua equipe tanto quanto acredita em si mesmo. Com apenas 24 anos de idade, ele demonstra as qualidades de liderança e responsabilidade frequentemente associadas a veteranos do futebol, a maioria deles tendo trinta anos ou mais. Não é uma coincidência que Kane detém o posto de vice-capitão da equipe desde a temporada 2015/16.

Diferente de outros ídolos recentes da história dos Spurs como Gareth Bale ou Luka Modric, Kane sempre pertenceu ao clube. Além de ser um produto da academia, nasceu e passou boa parte de sua infância a 15 minutos do antigo estádio do Tottenham, o White Hart Lane. Também por influência familiar, o coração de Kane escolheu a equipe da região, onde ele joga desde os onze anos de idade.

Esse forte vínculo com o clube permitiu que a torcida dos Spurs rapidamente se identificasse com o atacante uma vez que Pochettino começou a utilizá-lo como titular da equipe principal. Qualquer gol marcado por ele desde então é duplamente especial para os torcedores dos Lilywhites.

Toda vez que Kane veste a manta branca e corre pelo campo, seja em casa ou fora de casa, a torcida sente algo extremamente difícil de se conseguir nos tempos futebolísticos atuais: representatividade. O clube, seu espírito, sua cultura, e sua filosofia é completamente incorporado por Harry – é possível, guardadas as devidas proporções, compará-lo a Francesco Totti e sua sinonímia à Roma.

O orgulho e a animação que os torcedores têm por Kane é quase indescritível: uma peculiaridade a ser observada em partidas do Tottenham é como os torcedores se levantam quando Harry Kane carrega a bola para frente, não importa o quão longe ele esteja do gol adversário.

Após o hat-trick e o desempenho memorável há dois dias no Boxing Day, Kane registrou 96 gols na liga inglesa. Com isso ultrapassou ícones do clube na lista de maiores artilheiros dos Spurs na Premier League – Jürgen Klinsmann, Robbie Keane, Jermain Defoe, Gareth Bale e Dimitar Berbatov são alguns deles. O único jogador à frente de Harry na lista é seu compatriota Teddy Sheringham, com 98 tentos marcados.

Maior artilheiro da Europa em 2017, vencedor da chuteira de ouro da Premier League duas vezes consecutivas e prestes a se tornar o maior artilheiro de seu clube na história da competição. É difícil deixar de imaginar qual exatamente é o limite para Harry Kane – ao que tudo indica, apenas o céu.

Como um torcedor do Tottenham, me pergunto: quão sortudo somos de ter Harry Kane? Acredito que nossa sorte seja aquela de se ter apenas uma vez na vida, e podemos apenas aproveitar cada segundo de pura emoção e glória que ele nos proporciona. Como se canta todo jogo, “he’s one of our own” (“ele é um dos nossos”), portanto é nosso dever saborear a experiência enquanto podemos.

Todo mundo quer um Harry Kane – mas apenas nós temos Harry Kane.

*Raphael Harris – inglês morando no Brasil, fã do Tottenham, 18 anos. Twitter: @rapharris_