Entre os muitos traumas vividos pela seleção inglesa, é difícil encontrar alguém que se esqueça da decepção ocorrida em outubro de 1973. A Polônia já tinha imposto aos Three Lions sua primeira derrota na história das Eliminatórias, com os 2 a 0 em Chorzów. Ainda assim, nenhum inglês em sã consciência esperava um resultado diferente da vitória no reencontro das seleções em Wembley, pela rodada final. O time de Sir Alf Ramsey vinha de uma goleada por 7 a 0 sobre a Áustria, em amistoso, e precisava apenas de um triunfo simples contra os poloneses. Aquela noite decisiva, no entanto, acabou marcada por um goleiro. “Um palhaço de circo usando luvas”, como definiu Brian Clough, em comentário à TV local, antes da partida. Um monstro chamado Jan Tomaszewski, que protagonizou uma das atuações mais célebres de um goleiro no futebol internacional, e confirmou a Polônia na Copa de 1974.

Tomaszewski estava longe de ser um palhaço de luvas, como o então técnico do Derby County pontuou. Já era um goleiro experimentado, de 25 anos, que se firmava como o melhor da Polônia. Nascido em Wroclaw, filho de refugiados que vieram da região de Vilnius durante a Segunda Guerra Mundial, profissionalizou-se no Gwardia local, antes de se transferir ao Slask, principal clube da cidade. O sucesso na equipe de pretensões modestas o levou ao poderoso Legia, mas o jovem não se encaixou em Varsóvia, por mais que tenha feito sua estreia na seleção. O salto de qualidade viria a partir de 1972, quando se transferiu ao LKS Lódz.

Se não tinha as mesmas perspectivas de título em Lódz, Tomaszewski ganhou uma sequência que o permitiu se estabelecer na seleção. Virou titular no início de 1973 e participou das primeiras rodadas das Eliminatórias, além de uma série de amistosos. Era um arqueiro de muita potência física e dinamismo, que, no universo circense, poderia ser melhor comparado com um contorcionista do que com um palhaço. E a tal menção de Brian Clough chegou aos ouvidos do polonês. Ele estava motivado para encarar a Inglaterra em pleno Wembley. Para fazer história ao seu país e também escrever seu nome no livro de ouro das Copas.

“Clough pisou na minha honra. Mas o que ele me deu foi uma força extra e energia”, afirmou Tomaszewski, 40 anos depois, em entrevista à FourFourTwo. Ainda assim, a pressão em Wembley foi sentida pelo goleiro. A multidão nas arquibancadas vaiou o hino polonês, além de chamar os adversários de ‘animais’ e atirar garrafas. “Caminhando em campo, minhas pernas pareciam gelatina. Eu estava pedindo para que não tomássemos outro 7 a 0. Eu não queria ser lembrado por tomar um monte de gols em Wembley. Ficaria feliz em perder 10 anos da minha vida para conseguir o empate, porque sentíamos que era uma chance em cem, talvez uma em mil”.

Enquanto os ingleses estavam prontos a cumprir a missão, muitos dos poloneses pareciam intimidados – como relataria o atacante Allan Clarke. Por mais que Alf Ramsey empreendesse uma renovação nos Three Lions, com Martin Peters permanecendo como o grande medalhão, era um grupo experimentado nos principais clubes do país. Do outro lado, adversários que ainda buscavam sua afirmação no maior dos cenários, depois da conquista do ouro olímpico nos Jogos de 1972. Kazimierz Deyna, Grzegorz Lato, Antoni Szymanowski e Robert Gadocha estavam entre os remanescentes de Munique. Já o “goleiro-palhaço” era um dos novatos.

Tomaszewski, de fato, parecia se perder naquela atmosfera – diante de 100 mil presentes nas arquibancadas, fazendo muito barulho. Logo aos três minutos, após encaixar uma bola, tentou sair jogando dentro da área e quase entregou o ouro nos pés de Clarke. O goleiro se recuperou rápido e salvou o perigo a tempo. Mas acabou tomando um chute do atacante inglês. Quebrou um osso da mão e precisou jogar assim no restante do tempo. A adrenalina foi seu melhor analgésico. “Não houve malícia, foi um lance limpo, mas isso me acordou. Sem esse lance, eu poderia ter continuado me desleixando e quem sabe o que aconteceria”, avaliou.

A partir de então, começou o show de Tomaszewski. O goleiro demonstrou uma qualidade extraordinária, ao colecionar grandes defesas. Combinava elasticidade e um ótimo tempo de reação, além de sair para interceptar os cruzamentos de maneira bastante arrojada. E, como todo grande arqueiro, contou com uma pitada de sorte em alguns lances. Os poloneses se defendiam como podiam, enquanto tentavam valorizar a posse quando recuperavam a bola. E a confiança aumentou quando, a despeito da pressão inglesa, os visitantes conseguiram fechar o primeiro tempo com o placar zerado.

O sinal da noite histórica à Polônia aconteceu aos 10 minutos da etapa complementar. Em um ataque rápido, Jan Domarski chutou rasteiro e o jovem Peter Shilton aceitou, dando vantagem aos azarões. Como era de se esperar, a Inglaterra partiu com tudo. E conseguiu empatar oito minutos depois, em cobrança de pênalti de Allan Clarke. Restava quase meia hora para ondas e mais ondas ofensivas dos ingleses. Caberia aos poloneses resistirem. Algo que eles conseguiram, graças à estrela de Tomaszewski.

O goleiro chegou a ter duas bolas salvas em cima da linha por companheiros. Mas nada se compara ao milagre que operou em uma bomba à queima-roupa de Clarke, quase da risca da pequena área. “Eu sequer conseguia ver o goleiro, de tanta gente na minha frente. Eu me lembro de pensar que aquele era o momento. Girei meu corpo para comemorar quando eu vi um braço amarelo surgir. Ele não pode ter visto o chute, deve ter colocado o braço instintivamente. Depois disso, pensei que não ia acontecer”, relembra o inglês. Já Tomaszewski confessa que fez o impossível: “Eu não sei se Deus quis que eu fizesse aquilo ou se foi sorte mesmo. Mas eu sabia que eles não marcariam novamente”.

Quando o apito final soou em Wembley, o júbilo dos poloneses era inegável. Com a igualdade por 1 a 1, eles recolocavam seu país na Copa do Mundo após 36 anos. E de uma maneira como pouquíssimos esperavam, derrubando a Inglaterra pela primeira vez desde que o país passou a disputar o torneio – culminando também na demissão de Alf Ramsey. “Na Polônia, a vitória foi saudada como um milagre tão grande quanto a vez em que o país parou o avanço bolchevique em 1920. Foi uma recepção eufórica”, relembra o já veterano Tomaszewski. “Normalmente as torcidas e as comemorações eram orquestradas pelos comunistas, mas naquela vez elas aconteciam aonde íamos. Mesmo as crianças de hoje sabem os nossos nomes de coração. O dinheiro vai e vem, assim como a fama, mas o que experimentamos e o efeito daquilo no nosso povo não tem preço”.

A experiência em Wembley moldou ainda mais o caráter da seleção polonesa na Copa do Mundo de 1974. E os alvirrubros foram capazes de protagonizar uma campanha memorável, com o protagonismo de Tomaszewski. O goleiro se tornou o primeiro da história a defender dois pênaltis num mesmo Mundial. O time passou por cima de Argentina e Itália na primeira fase. Já na segunda, em quadrangular que decidiria um dos classificados à final, os poloneses bateram Suécia e Iugoslávia. Sucumbiram apenas à anfitriã Alemanha Ocidental, em jogo decidido por um gol solitário de Gerd Müller – e no qual o “palhaço” parou Uli Hoeness na marca da cal. Na decisão do terceiro lugar, o artilheiro Lato garantiu o triunfo sobre o Brasil.

Tomaszewski seguiu como um personagem central na Polônia. Defendia a meta do LKS Lódz, enquanto auxiliava a seleção. Em 1976, brilhou nos Jogos Olímpicos ao participar da conquista da prata, eliminando o Brasil na semifinal, antes da derrota para a Alemanha Oriental na decisão – quando, após tomar dois gols precoces sem muita culpa, pediu para ser substituído com apenas 17 minutos. E pouco depois o arqueiro teve uma proposta para jogar na Inglaterra, substituindo Pat Jennings no Tottenham, em transação que acabou barrada pelo regulamento do regime em seu país. Em 1978, o palhaço de luvas disputou o seu segundo Mundial. Começou como titular, mas foi para o banco na segunda fase. Naquele mesmo ano, ganhou carta branca para seguir ao exterior, ao completar 30 anos. Defendeu o Beerschot, antes de jogar também pelo Hércules, em sequência irregular da carreira.

Ausente das convocações depois da Copa por divergências com o técnico, Tomaszewski teve a chance de uma despedida em 1981, disputando mais duas partidas pela equipe nacional. Foram 63 jogos em uma década de serviços prestados, colocando-se como o segundo goleiro com mais atuações pelos alvirrubros – ultrapassado apenas recentemente por Artur Boruc. Presente em duas listas de finalistas à Bola de Ouro, o veterano é lembrado ainda hoje como um dos melhores goleiros da história da Europa Oriental. Enquanto isso, seu nome continua citado como um fantasma na Inglaterra. Uma lenda que completou 70 anos nesta terça.