As autoridades investigaram, a imprensa informou, Sandro Rosell se demitiu e o pai de Neymar não consegue se explicar. Rapidamente, o Barcelona como instituição tomou algumas pancadas fortes, e agora se vê com um presidente temporário tendo de gerenciar as sérias dúvidas sobre a lisura da operação com o craque brasileiro. O torcedor não gosta da notícia, mas não precisa se preocupar tanto. O impacto da troca de Rosell por Josep Maria Bartomeu deve ser pequeno no futebol, pelo menos em curto prazo.

Em geral, a presença do presidente é bastante sentida em um clube, mais ainda em clubes sociais como o Barcelona, o Real Madrid e os clubes brasileiros. Na Espanha, é comum um candidato à presidência colocar em suas promessas de campanha a contratação do jogador X e do técnico Y. As políticas de governo costumam ser bastante nítidas. Menos no maior clube catalão.

O trabalho de Joan Laporta, antecessor de Rosell, pode ser criticado por várias questões. Por exemplo, ele usou o Barcelona para projetar sua carreira política e ainda teve uma gestão marcada pela falta de democracia interna. No entanto, um mérito inegável foi ter consolidado um sistema de trabalho do departamento de futebol e permitir que ele trabalhasse por conta própria, sem depender da mão do presidente.

Mais do que estabelecer qual o “estilo Barcelona de jogar”, que sofreu mudanças de Rijkaard para cá, o importante é o “estilo Barcelona de trabalhar”. As figuras que comandam o futebol profissional e as categorias de base não estão vinculadas umbilicalmente a uma ou outra liderança política. Tanto que Guardiola, grande amigo de Laporta, seguiu como técnico quando Rosell foi eleito. Depois o treinador se demitiu, e houve informações de que teria a ver com o novo presidente, mas a sucessão era imediata e natural.

Até o modo de atuar no mercado muda pouco. O Barça compra poucos jogadores a cada ano, mesmo que pagando uma fortuna por cada um. Para preencher o elenco, a base funciona muito bem. Por isso, uma eventual proibição de contratar jogadores por uma temporada (uma punição possível da Fifa pela infração na negociação de Neymar) nem atrapalharia tanto.

Os resultados têm sido tão bons desde a chegada de Rijkaard – três Ligas dos Campeões, dois Mundiais de Clubes e seis Campeonatos Espanhóis – que não há uma demanda para mudar esse modo de funcionar. Rosell é um sujeito que merece várias considerações negativas, a começar por sua grande ligação com Ricardo Teixeira, mas não é bobo. Manteve a estrutura deixada por Laporta, a quem fazia oposição, e ganhou uma Liga dos Campeões, um Mundial e dois Espanhóis. Bartomeu fica no comando até 2016, e não deve promover grandes mudanças.

Sempre é possível um novo mandatário ser meio maluco e tomar atitudes inesperadas ou impulsivas que tenham efeito imediato. Mas a tendência é que o impacto da entrada de Bartomeu seja pouco sentido em campo, pelo menos nesta temporada e na próxima. Apenas com o tempo a soma de pequenas decisões certas ou erradas mudaria o rumo desse trabalho que, hoje, funciona organicamente e independente de quem é o presidente do clube. No Camp Nou, esse virou um cargo basicamente político e institucional.