O fim de ano do futebol no Brasil foi aquilo tudo que você viu: STJD, advogados, tribunais e isso tudo aí que a gente preferia que não acontecesse. Já falamos em como o ano de 2013 foi o ano que o Bom Senso saiu de férias, e a controvérsia em relação à aplicação da lei no caso da Portuguesa, ou mesmo como a justiça comum é costumeiramente usada no Brasil, ainda que não dê muito resultado. Com tudo isso que aconteceu, o que fica de lição para todos nós, que gostamos de futebol, é o seguinte: não alimente os animais. E eu explico.

Essas confusões todas acontecem fora de campo por uma série de fatores. A CBF é uma entidade que não se preocupa com a qualidade do jogo disputado no Brasil. Se preocupa muito pouco com os campeonatos que organiza e com toda organização do futebol no Brasil. Essa culpa é dela, mas não é só dela. As Federações Estaduais fazem parte desse jogo de toma lá dá cá que elege o presidente da CBF e mantém uma cadeia de poder. Mas não são só eles que são culpados.

Os clubes são a principal razão da existência de campeonatos e de torcedores. Gostamos de futebol, é claro, mas todo mundo que gosta de futebol é apaixonado por um clube. Seja ele grande ou pequeno, não importa. Na maioria das vezes, é esse amor por seu clube que desperta uma paixão maior por esse esporte pelos quais somos fanáticos. Por isso, os clubes são o que existe de mais importante no futebol. Porque são eles que ligam os torcedores no seu dia a dia ao esporte. E quem dirige esses clubes é quem deveria usar o poder para tornar os campeonatos melhores, o que por consequência será bom para os clubes e, por tabela, para os torcedores. Só que os dirigentes dos clubes se abstém dessas grandes discussões do futebol brasileiro.

A CBF é incompetente para organizar o futebol brasileiro? As federações estaduais usam sua força política para manter um campeonato estadual longo demais? O STJD interfere demais no futebol brasileiro? Então fica a pergunta: por que não romper com tudo isso e criar algo novo? Porque os dirigentes não querem. Para a maioria deles, é conveniente que o sistema seja assim. E os clubes grandes, especialmente os 12 maiores do país, são os maiores responsáveis por isso. Se os 12 maiores clubes do país resolvem se unir para mudar essa estrutura, conseguem. Mas por que não o fazem? Há várias razões. Vamos por partes.

A possibilidade de estar no lugar do Fluminense no futuro

Por que manter o STJD com tanto poder e regulamentos e códigos controversos com leis como o Estatuto do Torcedor? É simples. Um clube grande sabe que, em geral, é beneficiado. Sabe que hoje foi o Fluminense que se beneficiou, mas sabe que amanhã pode ser ele mesmo. Como em 1993 o Grêmio foi. Como em 1999, Internacional e Botafogo foram. Como em 1997, o Vasco foi. Como o Fluminense já tinha sido em 1996 e 2000.

Hoje parece um absurdo, mas amanhã quem pode estar na boca de conseguir algo é o seu time. Sem contar que um embate como esse da Portuguesa dificilmente aconteceria se o protagonista fosse um dos 12 grandes. O Flamengo seria punido para o rebaixamento do Fluminense? É óbvio que é impossível dizer, mas é razoável deduzir que não. Como seria complicado que acontecesse com qualquer um dos 12 grandes. Então, esse ciclo infernal é mantido e corremos o risco de ver o que aconteceu em 2013. Por isso, é seguro dizer que qualquer um dos outros times grandes teria exatamente o mesmo comportamento do Fluminense se estivesse na mesma situação.

Mas há dirigentes que, ao menos no discurso, já ameaçam mudar isso. Mas ainda são só indícios tímidos.

A dependência financeira

Fazer futebol custa caro. Os presidentes dos clubes sabem disso. Para conseguir um time competitivo (ou só para fechar as contas mesmo), muitas vezes precisam adiantar dinheiro de TV. Às vezes, esse dinheiro sai de outro lugar: das federações estaduais ou mesmo a CBF. Vários times grandes têm empréstimos que os tornam muito frágeis diante de um quadro de ruptura com a entidade que dirige o futebol brasileiro. Com isso, chegamos a outro problema.

Cada um por si

Alguns clubes dependem financeiramente da CBF, outros das suas federações estaduais, outros da TV que transmite o campeonato, a Globo. Tudo isso torna a situação desses clubes frágeis diante de uma ruptura. Mas além disso, há um outro problema que impede a união dos clubes.

A implosão do Clube dos 13 mostrou que os clubes estão mais preocupados consigo mesmos, em ganhar mais da TV, mas não se preocupam com a liga. Em um primeiro momento, isso parece ótimo para o clube, mas a longo prazo, confusões como a que vimos em 2013 torna o Brasileiro um campeonato menos confiável, menos valorizado em relação aos patrocinadores e menos atraente para a venda de direitos internacionais. Ou seja: no longo prazo, o dinheiro diminui, ao invés de aumentar.

A criação de uma liga daria trabalho para conciliar os interesses dos clubes, mas é uma forma de tentar uma distribuição mais justa do dinheiro, conseguir melhorias importantes para o campeonato não só em sua divisão mais alta, mas especialmente na sua estrutura mais básica, os campeonatos menores, que farão o futebol se tornar mais pronto a dar condições a clubes menores para jogarem e formarem jogadores. Mas pensar a longo prazo significa abrir mão de benefícios a curto prazo. Negociar direitos de TV deixaria de ser algo individual, mas coletivo. E esse é um passo que parece ainda difícil de os clubes grandes aceitarem.

Só seria possível a criação de uma liga de clubes com o apoio massivo dos principais clubes do país. Porque é claro que a CBF não ia gostar de ver seu campeonato escapar por entre os dedos, mesmo que ela não dê o devido tratamento a ele. Seria preciso apoiar medidas que transformassem os clubes os dirigentes em responsáveis por dívidas dos clubes, para que não criem um buraco negro financeiro para ter resultados imediatos e destruam as finanças no longo prazo.

Benefícios fiscais do governo

Várias ideias boas do Bom Senso fariam tudo isso caminhar bastante no sentido de melhorar o futebol brasileiro. O Fair Play Financeiro seria importante para manter os clubes no lugar. Os clubes recebem benefícios e mais benefícios do governo para o pagamento de impostos atrasados. Dívidas milionárias que, se fossem de uma empresa comum, fariam essas empresas fecharem. No futebol, como os clubes não são empresas e possuem muita força política graças aos próprios políticos, recebem mais e mais parcelamentos, juros baixos e até perdão em alguns casos.

Esses são apenas alguns dos muitos fatores que impedem que diversas melhorias aconteçam no futebol brasileiro. O pensamento clubista que vemos nas redes sociais de alguns torcedores é refletido em seus dirigentes, que agem só pensando em si e, se para melhorar podem destruir todos os outros, o fazem – sem perceber que o tiro sai pela culatra.

Os dirigentes dos clubes permitem que o circo do futebol brasileiro aconteça. São eles que dão poder para que essas situações ridículas como essa do STJD, que poderia ser facilmente evitada com uma organização melhor do campeonato que informasse bem e publicamente sobre suspensões e tivesse um sistema de punições mais rápido e claro. São os dirigentes que permitem que erros como esse aconteçam, por incompetência, como foi o caso da Portuguesa, e por omissão, no caso dos demais, que acha normal que exista o STJD nesses moldes.

São os dirigentes que tornam tudo isso aí um circo. São eles que fomentam os dirigentes que criam os regulamentos, códigos desportivos e exercem influência nos políticos para que não deixem passar leis que tornem tudo mais transparente e seguro. O Estatuto do Torcedor mesmo foi tão mexido que é difícil dizer que é a mesma lei que foi originalmente proposta.

São os dirigentes que fazem tudo isso. Não fiquem corroborando com os discursos hipócritas dos dirigentes do seu clube, que muda de acordo com o lado que eles estão. Passou da hora de exigir mudanças maiores, mais profundas no futebol brasileiro. Não fique por aí repetindo o que o dirigente do seu clube disse só porque é do seu clube. Aproveite o clima de ano novo para isso. Não alimente esses animais. E feliz ano novo para todos nós.