A torcida do Celtic é conhecida por suas manifestações que vão além do trivial. A desta terça-feira em Glasgow, na derrota por 3 a para o Milan na Liga dos Campeões, teve pouco a ver com futebol, mas muito a ver com a Escócia. A região tenta se tornar independente do Reino Unido e será feito um plebiscito com a população do país no dia 18 de setembro de 2014. Os torcedores mostraram a imagem de William Wallace, líder da guerra de independência da Escócia, e de Bobby Sands, revolucionário e líder do IRA, que morreu em uma greve de fome em 1981.

Além da imagem dos dois personagens, um escocês e um irlandês, uma mensagem: “O terrorista ou o sonhador. O selvagem ou o bravo? Depende do voto de quem você está tentando conseguir ou a cara de quem você está tentando salvar”. A mensagem é um claro apoio à independência escocesa. Uma das estratégias de campanha a favor do plebiscito é justamente falar sobre deixar as decisões do país nas mãos de escoceses. “O futuro da Escócia ficará nas mão da Escócia”, diz o material de campanha divulgado pela BBC. “As decisões sobre a Escócia serão tomadas pelas pessoas que mais se impo0rtam com a Escócia – aqueles que trabalham e vivem aqui”.

A Uefa abriu procedimento disciplinar para julgar o caso e o Celtic pode receber punição por isso. O caso será analisado no dia 11 de dezembro. O executivo-chefe do Celtic, Peter Lawwel, condenou o grupo chamado de “Green Brigade”, grupo organizado de torcedores do Celtic que é quem normalmente leva esse tipo de mensagem ao estádio. Foram os responsáveis pela faixa desta terça-feira. Em nota, o dirigente afirma que as faixas “são um claro desrespeito com o clube”.

Não é a primeira vez que o clube é indiciado por incidentes da sua torcida. Em 2011, o time foi punido pela Uefa por “cantos ilícitos” e por uma faixa considerada ofensiva. Durante a fase preliminar da Liga dos Campeões desta temporada, o Celtic acabou punido por usar fogos de artifício dentro do estádio. Os “ultras” da Green Brigade foram alertados pelo clube que só faixas relacionadas a futebol seriam aceitas.

“Há um bom número de indiciamentos da Uefa contra o clube nos últimos três anos relativos a comportamento, faixas e pirotecnia. Isso não pode continuar”, diz Lawwel em comunicado. “Vamos ser muito claros. Depois dessas ações de uma pequena minoria, essas acusações foram feitas contra o clube. É a reputação do Celtic, nosso grande clube e nossos grandes torcedores, que está sendo prejudicada, enquanto outros continuam com esse comportamento indulgente. Nossos torcedores não querem mais isso. Nós somos uma organização não-política, um clube de futebol de alto nível em ótima fase, que buscamos fazer a nossa parte como grande clube de futebol em um palco europeu”, continua a nota divulgada pelo clube.

“Independente da visão política que as pessoas tenham, o estádio de futebol, seja o Celtic Park ou qualquer outro, não deveria ser usado para promover isso. Isso é algo que todas as autoridades do futebol, incluindo a Uefa, tem falado há algum tempo e é algo bem conhecido por todos os torcedores. O clube não quer isso, nosso técnico não quer isso, nosso time não quer isso e nossos torcedores não querem isso e as autoridades do futebol não querem isso. Isso tem que parar”, afirma ainda Lowwel no comunicado.

Será mesmo, mister Lowwel? É claro que somos contra comportamento violento, faixas e cantos ofensivos, contra homofobia, xenofobia e racismo. Esses são comportamentos criminosos, não só no estádio, mas em qualquer lugar. Mas por que o estádio não é um lugar de manifestação política? Ainda mais em um momento de tanto debate na Escócia sobre a independência.

Será impossível impedir que torcedores se manifestem, se assim quiserem, como foi impossível que o general Franco controlasse as manifestações dos torcedores do Barcelona em catalão na época da ditadura franquista na Espanha. Lowwel tenta fazer um discurso que irá proteger o clube em relação às punições da Uefa. É compreensível que ele tente fazer isso. Mas exagerou na dose. Ainda que a Green Brigate tenha comportamentos contestáveis em diversos momentos, não é impedimento a manifestação política que isso irá mudar. É só punir quem cometer crimes. É bom a Uefa começar a prender os racistas e xenófobos que vira e mexe aparecem nos estádios europeus. Melhor do que se preocupar com faixas de manifestação política.