Imagine chegar ao estádio do seu clube quase cinco horas antes de um grande clássico. Não, a ideia não é ficar tomando cerveja nos arredores e nem procurar a melhor barraquinha de sanduíche de pernil. O motivo de estar por lá com tanta antecedência é participar de um ato, promovido pela própria torcida, para protestar diante do que ela considera abuso no número de erros de arbitragem contra sua equipe.

A inusitada cena vai acontecer neste domingo (16), nos arredores do estádio Alvalade (mais precisamente junto à entrada conhecida como porta da maratona), antes do duelo entre Sporting e Porto. Um jogo que representa muito na briga pelo segundo lugar do Campeonato Português (os leões têm 48 pontos e os dragões, 46), mas que poderá entrar para a história como o dia em que a torcida sportinguista soltou seu grito de revolta.

A ação de domingo é a primeira do Movimento Basta!, que foi lançado nesta semana. Ele reúne membros de torcidas organizadas, sócios, pessoas que fazem parte de grupos de apoio no Facebook e blogueiros, todos sportinguistas — uma união, aliás, que raramente é vista dentro do clube. A ideia é montar um palco, onde os torcedores poderão discursar por alguns minutos para mostrar sua indignação contra os árbitros, a Liga ou a Federação Portuguesa.

Esta ação orquestrada e amplamente divulgada (houve até uma entrevista coletiva para anunciá-la) é algo que merece ser visto e analisado com atenção. Independente do mérito da questão, trata-se de uma rara união entre torcedores de um mesmo time dispostos a lutar, civilizadamente, pelo que eles consideram ser seu direito. No caso, o direito de não ser prejudicado constantemente pela arbitragem.

O mérito da questão, nesse caso, é algo bastante subjetivo. Nas contas do Sporting, os constantes erros de arbitragem já lhe custaram nove pontos – que, em tese, dariam ao time a liderança do campeonato. Numa recente edição do seu jornal oficial, o clube afirmou que as partidas têm sido arbitradas por “juízes que não escondem a sua preferência, beneficiam sistematicamente os clubes do coração e prejudicam os rivais”. Obviamente, os adversários dos leões não pensam da mesma maneira, o que torna a discussão eterna. Como garantir que, num lance interpretativo, o árbitro efetivamente “roubou” para este ou aquele lado? Como garantir que um pênalti não marcado realmente resultaria em gol? São alguns questionamentos que mostram como o Sporting exagera na sua saraivada de reclamações.

Isso à parte, porém, a criação do movimento é louvável. Afinal, trata-se de um grupo de torcedores que, acreditando que seu time é prejudicado, foi buscar maneiras pacíficas de protestar e, quem sabe, ter o problema diminuído ou finalizado no futuro. No comunicado oficial divulgado quando do seu lançamento, o Basta! afirma que “só unindo esforços será possível mostrar ao país e ao mundo o quanto os adeptos e sócios do Sporting estão cansados de ver o seu clube maltratado”.

O documento ressalta que o movimento “não é uma convocatória à violência física, verbal ou psicológica”. E conclama a torcida a mostrar nas ruas o quanto está desgostosa. “Basta de guardarmos a nossa indignação para nós mesmos ou para nosso círculo de amigos; basta de guardarmos o que sentimos para desabafos nas redes sociais, para textos nos blogues ou para manifestações esporádicas nas arquibancadas. Já percebemos que, dessa forma, nada mudará.”

Mas, se é louvável a união da torcida em prol de uma causa na qual ela acredita, uma ressalva há de ser feita: o Basta! não é um movimento completamente desvinculado da direção do clube. Afinal, seu lançamento e a entrevista coletiva ocorreram na sede do Sporting, que ainda deu ampla publicidade a isso em seu site oficial. O próprio nome do movimento teve origem na entrevista concedida dias antes pelo presidente Bruno de Carvalho, ao reclamar da arbitragem no empate por 2 a 2 com o Vitória de Setúbal. “É fundamental os sportinguistas dizerem basta. Neste momento, o 12º jogador é mais necessário do que nunca. Têm de estar alertas e vigilantes, falar e agir”, declarou.

Num primeiro momento, essa relação próxima com a diretoria pode não representar muita coisa, mas é inevitável pensar como os dirigentes podem querer usar o movimento, politicamente, no futuro.

De qualquer forma, os torcedores estão conseguindo fazer um grande barulho. A notícia ganhou as primeiras páginas dos principais jornais portugueses e foi assunto corrente nos programas esportivos do país ao longo desta semana. Até o final da manhã desta sexta-feira (14), a página do movimento no Facebook tinha mais de 23 mil curtidas. E o zagueiro Marcos Rojo publicou o logotipo do Basta! em sua conta no Instagram.

Se tudo realmente ocorrer de maneira pacífica, como prometido, os torcedores poderão estar iniciando um momento histórico no futebol português. E, ainda que haja mais uma teoria da conspiração do que algo premeditado para prejudicar o Sporting, a tendência é que a partir de agora qualquer árbitro, ainda que inconscientemente, pense duas vezes antes de apitar um lance duvidoso contra os leões.