Eliminatórias da Copa do Mundo de 1998. Última rodada. Naquela edição, o Brasil não participava como atual campeão. Portanto, eram quatro vagas para nove times. Foi em um 16 de novembro de 1997 que o time treinado por Nelson Acosta venceu a Bolívia por 3 a 0, gols de Barrera, Salas e Carreño, para garantir a volta à Copa do Mundo. A Roja, como é chamada a seleção chilena, não ia a um Mundial desde 1982. Por aquele feito, Don Nelson ganharia um lugar no coração dos chilenos. Quase 19 anos depois, Don Nelson se aposentou, silenciosamente, depois de momentos muito duros. Em setembro de 2015, há exatos dois anos, se demitiu do Deportes Iquique, depois de maus resultados que levaram à tristeza de ouvir a torcida o xingando, pedindo a sua saída. Cansado, Don Nelson desistiu.

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A importância de Don Nelson para o futebol chileno é imensa. Uruguaio de nascimento e chileno de coração, foi responsável por formar o time com o famoso ataque de Ivan Zamorano e Marcelo Salas e que deu a primeira oportunidade a nomes fundamentais à geração dourada, como Gary Medel, Claudio Bravo e Arturo Vidal. Foi também o técnico que lançou Alexis Sánchez como profissional, em 2005, quando era técnico do Cobreloa.

Depois de mais de 30 anos como técnico, não era assim que se imaginaria que acabaria a carreira de Nelson Acosta. Atualmente com 73 anos, o técnico, então com 71, parecia mais lento. Alguns problemas tinham surgido e foi se tornando incompatível com a função que exercia. Sua cabeça e sua memória já não eram as mesmas. Ainda não se sabia a causa na época. Agora se sabe. O treinador se exilou, em silêncio.

O temor da sua família se tornou uma realidade há pouco mais de um ano, segundo conta o jornal La Tercera, do Chile. Foi diagnosticado com Alzheimer, uma doença silenciosa, mas avassaladora. Como quase sempre acontece com quem é acometido por este mal, não se sabe exatamente quando começou a afetar quem era Nelson Acosta. Os sinais, porém, começaram a acontecer há algum tempo. O treinador enérgico foi dando lugar a alguém cansado.

Um jogador relatou que ainda no Iquique, que comandou de 2014 a 2015, já dava sinais do problema. “Quando estava no Iquique, se esquecia de muita coisa. Ele dava uma instrução e pouco depois, dava de novo. Ninguém vai te dizer que foi assim, porque há uma promessa que fizemos por ele, mas foi assim. Uma vez, inclusive, ele esqueceu que havia marcado um treino e não foi. Nós achávamos que eram os típicos problemas de idade, mas vimos que não”, disse um jogador do Iquique da época ao La Tercera.

Não só os jogadores perceberam que havia algo errado. Os dirigentes também começaram a ver que o velho Don Nelson começava a perder aquilo que foi. Em junho de 2015, durante a pré-temporada da equipe, chegou a se perder por dois dias. “Nós ficamos todos preocupados. Já sabíamos que vinha mal, notamos o problema, por isso perguntamos à família o que acontecia com ele, onde estava. Depois, chegou como se nada tivesse acontecido”, contou um dirigente ao jornal chileno.

A família quer privacidade. O ex-técnico descansa, mergulhado em suas memórias, ao menos as que restam. O treinador não mais faz aparições públicas. A última vez foi quando participou de programas esportivos, em junho, para falar sobre a Copa das Confederações, que o Chile participava pela primeira vez. Não tinha mais a mesma energia, mas mantinha sua paixão. Os sinais dos problemas estavam ali.

Don Nelson deixou a carreira profissional. Descansa, merecidamente, com a família. Deixou um legado histórico para o futebol chileno e a sua seleção. Será sempre lembrado pelo que fez. Mesmo que ele, aos poucos, não se lembre mais.