O principal assunto da rodada final na Bundesliga será a briga contra o rebaixamento. Há uma disputa acirradíssima pelas vagas na Liga dos Campeões, com destaque ao confronto direto entre Hoffenheim e Borussia Dortmund, assim como pela classificação à Liga Europa. De qualquer maneira, a maior pergunta é: o Hamburgo cai ou não cai? Com 28 pontos, os Dinossauros precisam vencer o Borussia Mönchengladbach em casa e torcer para a derrota do Wolfsburg contra o Colônia na Volkswagen Arena. Missão quase impossível que, ainda assim, levaria os hamburgueses aos playoffs ante o Holstein Kiel, terceiro colocado na segundona. Ao que tudo indica, o famoso relógio que conta os dias do clube na Bundesliga, único a participar do torneio desde a primeira temporada, irá zerar depois de quase 55 anos.

Uma grande reviravolta no descenso da Bundesliga, todavia, não é novidade. E houve uma época em que isso foi bastante comum. Entre 1996 e 1999, aconteceram três desfechos insanos na parte inferior da tabela, condenando outros gigantes. Abaixo, recontamos estas histórias bacanas, com destaque para 1998/99, quando o número de gols marcados foi determinante. Vale lembrar que, nesta época, os três últimos colocados caíam direto na Alemanha.

Bundesliga 1995/96

Aquela temporada foi praticamente um cemitério de gigantes. O Eintracht Frankfurt despencou no segundo turno, tomando goleadas acachapantes, e sofreu o primeiro rebaixamento de sua história. Decepção enorme a um time que contava com estrelas internacionais, a exemplo do paredão Andreas Köpke (campeão da Euro logo depois) e do infernal Jay-Jay Okocha (que seria ouro nas Olimpíadas). As Águias, inclusive, chegaram à última rodada sem chances matemáticas, condenadas juntamente com o Uerdingen – que, ao perder o aporte da Bayer no ano anterior, nunca mais seria o mesmo. Entretanto, mais um time ainda cairia. E outras camisas de peso estavam ameaçadas.

O Kaiserslautern entrou na última rodada ocupando a antepenúltima posição, na zona de rebaixamento, com 35 pontos. Seu adversário na rodada final era o Bayer Leverkusen, que somava 37 pontos. Quem vencesse o confronto direto se safaria, e existia a mesmo a chance de ambos se salvarem, em caso de triunfo dos Diabos Vermelhos. Afinal, o Colônia tinha os mesmos 37 pontos do Leverkusen e iniciou a rodada com saldo de gols inferior. Os Bodes teriam um compromisso relativamente difícil, visitando o Hansa Rostock, que ocupava a quinta colocação e brigava por um lugar na Copa da Uefa. Detalhe: como o Eintracht Frankfurt, o rebaixamento seria inédito a qualquer um dos três.

Os gols nas duas partidas saíram apenas no segundo tempo. E o Kaiserslautern começou mandando o Colônia para o Z-3, ao abrir o placar contra o Leverkusen na BayArena. O tcheco Pavel Kuka balançou as redes aos 13 minutos. A dança das cadeiras continuou pouco depois. Aos 27, Holger Gaissmayer deixou o Colônia em vantagem contra o Hansa. Neste momento, o Leverkusen cairia. Já a salvação dos Aspirinas aconteceu aos 37, graças a Markus Münch, decretando o empate por 1 a 1 na BayArena. Enquanto o Colônia disparou com o triunfo salvador por 1 a 0, o Leverkusen decretou a queda inédita do Kaiserslautern com a igualdade.

Campeão da Bundesliga em 1991, o Kaiserslautern passara o segundo turno praticamente inteiro no Z-3, mas não era necessariamente um time para cair. Em seu elenco, haviam vários jogadores com nível de seleção, a exemplo de Olaf Marschall, Andreas Brehme e Miroslav Kadlec, além do próprio Kuka. Não à toa, os Diabos Vermelhos não se contentaram em conquistar apenas a segundona em 1996/97. Na volta em 1997/98, ergueram a Salva de Prata.

Bundesliga 1997/98

Mais uma vez, os gigantes estavam a perigo. O Arminia Bielefeld era o único morto antes da rodada final. Já as outras duas vagas na segundona estavam abertas, ocupadas provisoriamente por Colônia e Borussia Mönchengladbachrivais que, 20 anos antes, tinham disputado a Salva de Prata no saldo de gols e, àquela altura, tentavam evitar o primeiro rebaixamento da história. Ambos tinham 35 pontos, com oito gols de vantagem ao Gladbach no saldo (-7 a -15). A dupla estava de olho em Bochum e Karlsruher, únicos concorrentes. Os dois tinham 38 pontos e seguiam alcançáveis no saldo de gols (-9 e -10, respectivamente).

Durante a rodada final, o Colônia jogava em casa. Faria o “clássico” com o Bayer Leverkusen, que vinha em crescente e ocupava a terceira colocação. O Gladbach visitava o Wolfsburg, igualmente na metade inferior da tabela, em sua primeira temporada na elite. O Bochum tinha o mando contra o Munique 1860, também sem maiores ambições. Por fim, o Karlsruher visitava o Hansa Rostock, outra vez rondando a zona de classificação à Copa da Uefa, com chances remotas de classificação ao torneio continental.

Ao final do primeiro tempo, a bomba estava no colo de Colônia e Karlsruher. Os Bodes abriram vantagem com Dorinel Munteanu, mas o resultado era insuficiente por causa do saldo de gols. Já o Karlsruher tomara a virada do Hansa Rostock por 2 a 1, o que permitia a ultrapassagem do Gladbach, anotando 2 a 0 sobre o Wolfsburg – tentos de Peter Wynhoff e Stefan Effenberg. O Bochum era o mais tranquilo, batendo o Munique 1860 por 1 a 0.

Quem dependia da derrocada do Borussia Mönchengladbach se frustrou. Os Potros mantiveram os 2 a 0 no placar e se salvaram. O Karlsruher, que necessitava de ao menos um empate contra o Hansa, engoliu uma derrota por 4 a 2. Já o Colônia esteve longe do massacre que necessitava. Até assinalaram dois tentos de vantagem contra o Leverkusen, mas cederam o empate por 2 a 2, com gols aos 38 e aos 43 do segundo tempo. Com 35 pontos, o Colônia caiu. O Karlsruher morreu com 38. E o Gladbach se safou com os mesmos 38, mas sete gols de vantagem no saldo.

Detalhe é que o Colônia, após passar o primeiro turno no Z-3, tinha esboçado uma reação. O problema veio em abril, com quatro derrotas nas últimas seis rodadas, inclusive para Arminia Bielefeld e Karlsruher. Naquela campanha, os Bodes ainda contavam com o artilheiro Toni Polster, que se mudou justamente ao rival Gladbach após a queda. Foram dois anos militando na segundona, até que o retorno acontecesse.

Bundesliga 1998/99

Em termos de insanidade, nada supera o que aconteceu em 1998/99. Ironia do destino, o primeiro rebaixado foi o Borussia Mönchengladbach, em descenso inédito dos Potros. A equipe fez uma campanha fraquíssima, ocupando a lanterna desde a nona rodada. Foram míseras quatro vitórias em toda a competição, além de goleadas acachapantes de 8 a 2 para o Bayer Leverkusen e 7 a 1 para o Wolfsburg. Sem contar mais com Effenberg, entre os nomes mais tarimbados do elenco estavam Polster, Patrik Andersson (salvador ao Bayern de Munique logo depois) e Marcel Witeczek, além de promessas do porte de Robert Enke, Sebastian Deisler e Andriy Voronin. Ao lado do Gladbach, o Bochum consumou sua queda antes da rodada final.

Assim, sobrava uma vaga rumo à segundona de 1999/00. Nada menos que cinco clubes corriam riscos. O Eintracht Frankfurt, que acabara de subir, mais uma vez estava com a arma na cabeça. Tinha 34 pontos. O Hansa Rostock vinha logo acima, com 35 pontos. Stuttgart e Freiburg somavam os mesmos 36. Já o Nürnberg parecia relativamente tranquilo, com 37. E no saldo de gols, enquanto todos os outros variavam entre -8 e -10 (o Nürnberg, em particular, com -9, guarde esta informação), os riscos maiores eram mesmo do Frankfurt, com menos -14.

O único confronto direto da rodada final aconteceu no Estádio Max-Morlock. O Nürnberg era o anfitrião e não dependeria de mais nenhum resultado se empatasse com o Freiburg. O Eintracht Frankfurt também atuava em casa, mas teria uma pedreira pela frente, considerando que o Kaiserslautern brigava por Champions. O Stuttgart não teria tantos problemas na Mercedes-Benz Arena, pegando o Werder Bremen, de campanha mediana. Já o Hansa visitava o rebaixado Bochum, também dependendo apenas de si.

O primeiro gol aconteceu na Mercedes-Benz Arena, onde o Stuttgart encaminhou o sossego com o gol de Fredi Bobic, que acabaria determinando a vitória por 1 a 0. Assim, salvos os suábios, vamos nos concentrar na loucura tripla da jornada. Os primeiros tempos foram mornos. O Eintracht Frankfurt caía, ao empatar sem gols com o Kaiserslautern. O Hansa respirava ao abrir a contagem contra o Bochum, tento de Oliver Neuville. E o Freiburg fazia sua parte ao anotar 2 a 0 sobre o Nürnberg, gols de Ali Günes, em resultado que servia para ambos.

A insanidade começou a partir das etapas finais. O Eintracht Frankfurt saiu na frente do Kaiserslautern com Chen Yang, aos dois minutos. Pelo saldo de gols, aquele resultado ainda não servia. E seguiu sem adiantar quando Michael Schjönberg igualou a peleja, aos 23. Só que a sorte das Águias logo se transformou: no momento em que Thomas Sobotzik fez 2 a 1 para a equipe, o Bochum iniciou uma reação relâmpago contra o Hansa Rostock, virando a partida aos 29. Com a derrota, os hanseáticos passaram a ocupar o Z-3, com 35 pontos, e tinham pouco mais de 15 minutos para reagir – só a vitória interessava, naquela configuração.

Diante da ameaça, o Hansa empatou com Victor Agali, aos 32 do segundo tempo. Ainda não adiantava. Já aos 37, Slawomir Mayak determinou nova reviravolta no marcador. O triunfo por 3 a 2 se manteria até o apito final e salvou os orientais. Assim, a bomba ficou no colo de outros três. Simultaneamente, a correira desatava em Frankfurt e Nurembergue, com o cenário relativamente aberto.

O minuto 37, aliás, é capital. Neste momento, o Eintracht Frankfurt marcou o seu segundo gol em cerca de três minutos, assinalados por Bernd Schneider e Marco Gebhardt. Neste instante, as Águias anotavam 4 a 1 no placar e saíam do Z-3. Igualavam os 37 pontos do Nürnberg, assim como os -11 no saldo, se dando melhor pelo número de gols marcados. No entanto, ainda havia tempo. E os grenás voltaram a respirar quando Marek Nikl reduziu a diferença contra o Freiburg, agora em 2 a 1. Com isso, pelo saldo, o Frankfurt voltava ao Z-3.

O problema é que, enquanto o Nürnberg encarava a retranca do Freiburg, o Eintracht Frankfurt pegava um adversário desesperado. Mesmo tomando de 4 a 1, o Kaiserslautern buscava o ataque, já que o empate poderia o garantir na Champions – deixando a zona de classificação no saldo de gols, em disputa com o Borussia Dortmund, que vencia o Gladbach. Desta maneira, aos 44 do segundo tempo, aconteceu o lance decisivo. Em um contragolpe imparável, Jan Aage Fjörtoft pegou a defesa dos Diabos Vermelhos aberta e anotou mais um para as Águias. Com os 5 a 1 no placar, voltavam a ultrapassar o Nürnberg pelo número de gols marcados, 44 a 40.

Vale lembrar, todavia, que um empate bastaria ao Nürnberg. Caso os grenás arrancassem o 2 a 2 contra o Freiburg, o Eintracht Frankfurt voltaria ao Z-3 – neste cenário, com os mesmos 37 pontos do Freiburg, mas um tento a menos que o Freiburg no saldo. O gol sonhado nunca veio. Nos acréscimos do segundo tempo, aconteceu o lance cruel. Nikl arriscou um chute de fora da área. A bomba explodiu na trave, resvalou nas costas do goleiro Richard Golz e sobrou na área. Dois jogadores do Nürnberg apareceram sozinhos na risca da pequena área. Mas quando o zagueiro Frank Baumann arrematou, Golz conseguiu salvar em cima da linha. O lance que rebaixou os anfitriões, para a incredulidade dos torcedores presentes no Estádio Max-Morlock.

O Nürnberg, que começou a rodada no 12° lugar, terminou em 16°. Não era um rebaixamento inesperado, considerando que o clube acabara de voltar à elite e passara sete rodadas na virada dos turnos dentro da zona vermelha. Ainda assim, a forma como tudo aconteceu doeu mais. Detalhe é que as duas maiores referências daquele time vinham de descensos recentes na Bundesliga: o goleiro Andreas Köpke e o atacante Pavel Kuka. Pela segunda vez, os medalhões amargavam a decepção.