Os recentes problemas envolvendo clubes italianos em dívidas e escândalos de suborno realmente sacudiram o calcio no início desta temporada. Para muitos times, foi um inferno com a perda de pontos e rebaixamentos decretados, mas para outros foi uma espécie de redenção. O Treviso que o diga.

Depois de perder a semifinal do play-off de promoção para o Perugia, o time se contentaria em mais uma disputa da Segundona italiana. Porém, não contava que o próprio Perugia fosse rebaixado por problemas financeiros e que o vencedor do play-off (o Torino) ficasse na Série B também pelo mesmo motivo. E muito menos que o Genoa fosse rebaixado por arrumar o resultado de uma partida. Por causa de tudo isso, o Treviso acabou sendo beneficiado (positivamente, claro) e fará sua estréia na primeira divisão italiana.

O Treviso antes do Treviso

O Treviso é um clube jovem (12 anos de idade), mas nem tanto quanto parece. A primeira equipe a receber este nome foi o Foot Ball Club Treviso, fundado em 1909. Ele teve uma vida curta e “renasceu” pela primeira vez em 1913 com o mesmo nome.

A equipe estréia no campeonato italiano na temporada 1920/1, na lanterna do grupo da região do Veneto, e na mesma temporada passou a jogar no campo de S.Maria Del Rovere. O time estrearia na primeira divisão (a segunda, pois a primeira divisão se chamava Divisione Nazionale) na temporada 1926/7, onde permaneceu até a reestruração do futebol italiano, na qual o Treviso foi rebaixado para a Terceira Divisão.

O ano de 1933 traz novidades ao clube. O Treviso inaugura seu estádio, o Comunale, e muda de razão social (passa-se a chamar Associazione Calcio Treviso) e, três anos depois, estréia na Copa da Itália e na Série C. Na temporada 1938/9, o clube quase chega à promoção para a Série B, mas fica atrás da Udinese. O time vislumbraria a oportunidade de subir outras vezes.

No pós-guerra, a equipe finalmente toma parte na Série B, então dividida em grupos. Termina em terceiro na sua chave em 1946/7 mas, com a decisão de se voltar a ter grupo único na segunda divisão italiana, é rebaixado na temporada seguinte. Retorna em 1950/1, mas volta à Série C em 1954/5 (poderia ter caído na temporada anterior se o Fanfulla não tivesse perdido 5 pontos).

Pior ainda foi 1956/7, quando o Treviso desce para a quarta divisão e só retorna a terceirona do Calcio em 1959/60. A década de 60 veria tempos menos duros, com o time biancoceleste se firmando na intermediária da Série C. O estádio da equipe receberia o nome do desaparecido campeão de motociclismo Ombonno Tenni em 1963. O Treviso volta para a Série D em 1970/1

Dívidas e o fim… de novo

O time se torna sociedade anônima em 1980 e sofre com problemas financeiros. Acaba caindo pra Série C2 em 1984/5. Apesar dos problemas e das ameaças de falência, o Treviso alternava campanhas razoáveis com outras medíocres. Resiste por um bom tempo até o rebaixamento da Série C2 na temporada 1990/1, e ir para o Interregionale (na época equivalente à Quarta Divisão).

Na temporada seguinte, o clube seria campeão de Inverno da Dilettanti (novo nome da Interregionale), mas as finanças chegam ao colapso. Em fevereiro de 1993, o time é liquidado e quase vai a falência, mas uma nova associação chamada Foot Ball Club adquire o espólio do antigo clube. O “novo” Treviso quase volta pra Série C2, mas em compensação ganha a Supercopa da Dilettanti vencendo o Imola.

Três anos, três promoções

Chega à temporada 1994/5 e parece que tudo muda para o Treviso. O biancoceleste disputa a promoção acirradamente com o Triestina e consegue a primeira das três promoções consecutivas que viria a obter, subido da Dilettanti para a Série C2. Jogando a temporada seguinte no grupo B, faz uma campanha irretocável e obtém a segunda promoção da sua nova fase, com oito pontos de vantagem sobre o Fermana, segundo colocado.

Melhor ainda seria a temporada 1995/6, com o título do grupo A da Série C1. Outra vez, com mais uma campanha brilhante, com seis pontos à frente do Monza, vice-campeão da chave.

Nos primeiros anos, o clube se manteria nas posições intermediárias, tendo bons jogadores com o russo Talalev e o italiano Beghetto. O Treviso volta para a C1 em 2000/1, mas não fica muito tempo. Após não conseguir se classificar no play-off na temporada seguinte, em 2002/3 o time é de novo campeão do grupo A da Série C1, numa temporada ainda abrilhantada pelo título da Supercopa da Série C, batendo o Avellino (vencedor do outro grupo) nos pênaltis.

Finalmente, os grandes!

A temporada de retorno a Série B (03/4) não foi muito boa, mas o Treviso seria mais bem-sucedido em 2004/5. O biancoceleste, contando com os gols do brasileiro Reginaldo Ferreira, chegou ao play-off de promoção. O time perdeu para o Perugia e permaneceria na Serie B.Seria assim se o Genoa não tivesse arrumado o resultado da partida da última rodada do campeonato contra o Venezia, além da recusa da subida de Perugia e Torino por problemas financeiros. O Treviso se tornou um dos beneficiados e, assim, fará sua estréia na primeira divisão italiana.

A subida seria mais deliciosa se não fosse uma coisa: o clube não poderá mandar os jogos no Ombonno Tenni, por este ser inadequado para jogos da Série A. O clube resolveu então mandar suas partidas no Euganeo, em Padova. Mas isso não deve dificultar a sua apaixonada torcida a empurrar o time nos seus futuros embates diante dos gigantes Milan, Juventus, Inter, Roma e Lazio.

E para os que gostam de torcer por brasileiros, o Treviso tem quatro deles: Gustavo, defensor, ex-Botafogo e Udinese; os meio-campistas Robert e Pinga (ex-Torino) e o atacante Reginaldo Ferreira.