A Uefa, entidade que dirige o futebol europeu, está estudando a possibilidade de ter médicos com acesso a vídeo (seja por notebooks, seja por tablets) para revisar lances com potencial de lesão, como concussões, segundo informa a BBC. A arbitragem e os médicos não viram o choque entre Loris Karius e o capitão do Real Madrid, Sergio Ramos, na final da Champions League. O lance é apontado como potencialmente causador de uma concussão no goleiro, diagnosticada pelo Hospital Geral de Massachusetts e divulgada na segunda-feira.

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Segundo a proposta, uma equipe médica ficaria na beira do campo ou nas arquibancadas com acesso a vídeo para revisar os lances. O protocolo é parecido com o processo de lesões na cabeça do rúgbi. Em 2016, a liga inglesa de rúgbi se tornou a primeira do mundo a permitir tablets para que médicos pudessem rever lances potencialmente preocupantes de lesão. O rúgbi é um dos esportes que tem tratado com um pouco mais de seriedade a questão de concussões de atletas.

Desde 2014, as diretrizes da Uefa permitem que árbitros podem parar o jogo por três minutos para análise de lesões na cabeça e apenas um médico pode decidir se o jogador pode ou não voltar a campo. Há um questionamento sobre o tempo ser curto demais para determinar se uma concussão acontece. Além disso, há casos, como o de Karius na final da Champions League, que a arbitragem não vê o lance e não permite, portanto, o atendimento ao jogador.

O diagnóstico de Karius, goleiro de 24 anos do Liverpool, colocou um holofote sobre a questão das concussões no futebol. O jogador teve duas falhas graves na final da Champions League, reforçando as desconfianças sobre o goleiro. O fato de Karius ser um goleiro que comete falhas e que, por isso, seus erros não terem sido exatamente uma surpresa no jogo contra o Real Madrid, não tira o peso do fato de que concussões são graves e podem, sim, interferir no desempenho do jogador. Karius ser um jogador pouco confiável não impede que suas falhas tenham sido ocasionadas em decorrência de concussões. O diagnóstico de um hospital importante dos Estados Unidos, de uma equipe que trabalha com estudo de concussões de jogadores da NFL precisa ser levados a sério. Parece improvável que tanto a instituição quanto os profissionais envolvidos colocassem o seu nome em um diagnóstico desse se não fosse um fato. Não há razão para arriscar a reputação à toa.

O doutor Willie Stewart, neurocirurgião britânico que é um dos que tenta melhorar a avaliação de lesões cerebrais no futebol e no rúgbi, afirmou que as equipes médicas ficaram “de mãos atadas” por falta de uma ajuda adequada para a questão. “O futebol não permite que um jogador seja trocado para avaliar se ele teve lesão cerebral; não permite um tempo significativo para os médicos para avaliar o jogador; não têm uma revisão de vídeos para eventos de forma a ser capaz de dizer se houve um golpe na cabeça do meu goleiro que eu não notei”, afirmou o médico. “É inaceitável que em 2018 seja dessa forma”.

O futebol tem vários episódios em que jogadores recebem permissão para voltar a campo, mesmo depois de choques horríveis na cabeça e suspeitas de concussão. Aconteceu na Copa do Mundo de 2014, com Álvaro Pereira, que voltou a acontecer quando o jogador estava no São Paulo. Na Premier League, Hugo Lloris chegou a voltar a campo depois de perder a consciência após um choque na cabeça, o que foi alvo de sérias críticas. O episódio fez a Premier League mudar o seu protocolo para ter um atendimento melhor, mas ainda há uma pressa muito grande para manter a continuidade do jogo, acima mesmo da saúde dos atletas e dos riscos envolvidos em jogadores voltarem a campo sem uma análise detalhada sobre a sua situação clínica.

Mesmo com a Premier League sendo uma das poucas ligas com um protocolo de concussão, ele ainda está distante do que acontece, por exemplo, na NFL – não sem antes sofrer muito com diversos casos de problemas de saúde, durante e depois da carreira, de jogadores. Algo que o futebol parece ainda ignorar, mas que parece cada vez mais difícil jogar para baixo do tapete. Que a Uefa realmente analise a questão a sério, porque independente do caso Karius, há muitos casos todos os anos de jogadores que deveriam ser analisados com muito mais cuidado.