O Lille projetava uma temporada de sonho. Estádio recém-inaugurado, novo dono, altos investimentos. Simbolizando isso tudo, um treinador de reputação internacional, apesar dos costumeiros atritos e do currículo sem tantos títulos. Menos de um semestre depois, contudo, os Dogues parecem prontos a viver seu pior ano neste século. A luta contra o rebaixamento é real, enquanto surgem rumores de que a falta de garantias financeiras apresentada pelo clube pode provocar a queda independentemente do que acontecer em campo. Assim, os torcedores passarão a boicotar o Lille. Nesta semana, os ultras publicaram uma carta em que declaram greve, permanecendo em silêncio durante os 15 minutos iniciais da partida contra o Nice, na próxima rodada da Ligue 1.

A conturbada demissão de Bielsa foi motivo de festejo na torcida, de maneira geral. Se o estilo do treinador encontrou milhares de adoradores em Marselha, o mesmo não aconteceu em Lille. Na realidade, houve um choque de culturas no norte da França, com o argentino visto como um “general”. Este problema, de qualquer maneira, é coisa do passado e as demandas dos ultras se concentram sobre Gerard López, magnata luxemburguês que adquiriu o clube no final de 2016. Nas últimas semanas, a imprensa local noticiou que a DNCG (a Direção Nacional de Controle de Gestão, entidade que monitora as contas dos clubes profissionais) teria avaliado como insuficientes as garantias financeiras oferecidas pelos dirigentes sobre seus balanços e suas dívidas. O embargo no mercado de inverno é apenas uma medida preventiva, que poderia se desdobrar ao rebaixamento, caso o empresário realmente não resolva as exigências.

“Através deste comunicado, todos os torcedores do Lille se unem para expressar seu sofrimento e sua angústia diante do espetáculo miserável oferecido por seus jogadores e seus dirigentes depois de seis meses. O Lille se tornou a piada do mundo do futebol em tempo recorde. Senhor López e seus acólitos estão passando por cima do nosso clube, de nossa história e de nossos valores. Como conceber que o General Bielsa pudesse se aclimatar aos valores humanos do norte? Como esperar que o time chegasse às primeiras posições com um time sub-21? Como enganar a DNCG com balanços financeiros frágeis preenchidos com vento? O Lille não é um laboratório de ciências humanas no qual o jogador é uma mercadoria que compramos e vendemos, como na escravidão de outros tempos”, afirma a carta, assinada por seis grupos de torcidas diferentes.

“Os jogadores igualmente têm uma grande parte de responsabilidade dentro do fiasco. Durante muito tempo protegidos por Bielsa, eles não mostraram nenhuma vontade, nenhum desejo. Eles têm noção da gravidade da situação? Esse 18° lugar reflete exatamente o nível das pseudo promessas, que para alguns têm talentos, algo que eles escondem bem, mas talento sem mental não serve para nada. Para coroar tudo, o rumor de bancarrota que circula com insistência. Chegou a hora de se desmascarar, Senhor López, e de trazer as respostas rápidas às acusações, nossa paciência já passou dos limites. Se assim aconteceu, quer dizer que seis meses bastaram para um impostor desonrar nosso Lille”, complementa a carta, convocando toda a torcida. “A história de um clube e de uma cidade não pode ser comprada. Ela se construiu ao longo do tempo, transmitida por gerações e fluindo nas nossas veias. Não somos apaixonados por futebol, somos apaixonados pelo Lille. Nunca tenha medo de ser lillois!”