A lesão de Daniel Carvajal na decisão da Liga dos Campeões não causava preocupação apenas nos torcedores do Real Madrid. Os próprios compatriotas espanhóis sentiam por aquilo que poderia vir, às vésperas da Copa do Mundo. E as lágrimas do lateral também evidenciavam um turbilhão de emoções que envolviam a Rússia. No final das contas, os temores eram menores do que se previa. Carvajal poderá disputar a Copa. Só que a Espanha também ganha a consciência de que, se precisar, tem um reserva de ótimo nível para substituí-lo. Álvaro Odriozola despontou à Roja apenas nos últimos meses, logo cavando seu lugar entre os 23 convocados. Jovem talento que vive seu conto de fadas e que, na despedida da torcida antes da viagem a oriente, terminou como grande destaque no empate por 1 a 1 contra a Suíça, no Estádio de la Cerámica.

A Espanha jogou com o controle da partida sob os seus pés. Julen Lopetegui escalou um time mais agressivo no ataque, com Diego Costa como centroavante e Iago Aspas na ponta direita. Ainda assim, pesava a cadência de Andrés Iniesta, David Silva, Koke e Thiago Alcântara – ante as ausências de Isco e Sergio Busquets, além de Sergio Ramos na zaga. Diante de uma Suíça que adiantava a sua marcação, mas penava com a velocidade dos passes, os espanhóis tinham paciência para atacar. Criavam mais ocasiões de gol, embora não demonstrassem a precisão devida nas conclusõe. Até que Odriozola começasse a aparecer.

Mesmo com Jordi Alba pela esquerda, a lateral direita era uma válvula de escape. O lateral da Real Sociedad chegava à linha de fundo e aproveitava os espaços deixados por Aspas. Aos 29 minutos, coube a ele abrir o placar. A primeira tentativa de jogada não deu certo, com os suíços travando dentro da área. No entanto, a sorte sorriu ao novato. David Silva cruzou uma bola alta, na medida para Odriozola na entrada da área. O camisa 12 acertou um belíssimo chute de primeira, sem chances de defesa para Yann Sommer. Em sua terceira partida com a camisa vermelha, anotou o seu primeiro gol.

Imagine só o que se passava pela cabeça de Odriozola. Aos 22 anos, o lateral nascido em San Sebastián militou desde a pré-adolescência nas categorias de base da Real Sociedad. Ganhou rodagem com o time B, até despontar no elenco principal a partir de janeiro de 2017. Em sete meses como titular, o nível de suas atuações foi tão bom que ele já ganhou a primeira convocação à seleção principal. Em outubro, fez sua estreia, com uma assistência nas Eliminatórias. E, intocável nas listas de Lopetegui desde então, teve a alegria de ser chamado à Copa do Mundo. Preencheu uma lacuna com todos os méritos e mostrou serviço quando pôde.

Acumulando suas jogadas pelo lado direito (alô, Brasil!), a Suíça teve uma boa oportunidade gerada por Stephan Lichtsteiner. Mas a noite era mesmo da Espanha, que voltaria a arriscar contra a meta de Sommer. E a confiança de Odriozola se renovou depois de seu gol. Parecia ainda mais solto para se aproximar do ataque e a servir os companheiros, o que logo se viu no segundo tempo. Neste momento, a Roja poderia muito bem ter ampliado. Iniesta coçou a cabeça ao emendar um chute que lambeu a trave, enquanto Alba acertou o lado de fora da rede – em serviço de Odriozola. Foi quando a Suíça, em rara chance, puniu os anfitriões.

O gol de empate saiu aos 17 minutos. Infelicidade imensa de David De Gea, em uma rara falha. Lichtsteiner acertou o chute cruzado, mas não pegou em cheio na bola. O arremate mascado deveria ter sido agarrado pelo goleiro, que acabou deixando a pelota passar, pingando na pequena área. Sobrou limpa para Ricardo Rodríguez apenas escorar às redes, com enorme facilidade. Um vacilo custava o resultado aos ibéricos. Lopetegui, que já tinha feito quatro alterações, todas do meio para frente, logo tiraria Odriozola.

A Espanha seguiu melhor, especialmente com a participação de Marco Asensio e de Thiago Alcântara. Nos dez minutos finais, começou a acuar a Suíça e a buscar o gol da vitória. Faltou um pouco mais de competência nos arremates, entre as criações do meio-campista e as bolas alçadas na área. O resultado não é o fim do mundo para os espanhóis, até pela maneira como o time atuou. Porém, o ataque não conseguiu ser tão letal quanto em outras ocasiões recentes. As apostas não foram tão funcionais. Já entre os pontos positivos, menção especial a Iniesta. O veterano permaneceu como vértice do time, ditando o ritmo de jogo e auxiliando na criação. Era ovacionado em vários momentos, naquele que pode ter sido seu último jogo oficial em território espanhol. Uma pena que o gol não tenha vindo por centímetros.

O duelo também deixa as suas lições ao Brasil. A marcação alta da Suíça durante parte do jogo é algo a se observar, com a velocidade nos passes ajudando a quebrá-la. Há uma clara preponderância dos laterais e uma carga de jogo grande pelo lado direito, a partir de Xherdan Shaqiri. Marcelo talvez tenha trabalho redobrado por ali. O domingo, aliás, acabou sendo positivo aos times do Grupo E. Enquanto os suíços saíram com o empate de Villarreal, a Costa Rica conquistou uma vitória maiúscula na despedida ante sua torcida, contra a Irlanda do Norte, em San José. Johan Venegas, Joel Campbell e Francisco Calvo anotaram os gols nos 3 a 0.

Odriozola, por fim, poderá colocar a cabeça no travesseiro e sonhar com a Copa do Mundo. A quem disputava a terceira divisão há um ano e meio, estar na Rússia é uma reviravolta e tanto. Poderá se encontrar no torneio, inclusive, com um adversário em seu último jogo pela Real Sociedad B: Achraf Hakimi, então lateral do Real Madrid Castilla, que está entre os 23 de Marrocos. O Mundial é feito destas histórias incríveis. O espanhol, no entanto, tem o direito a desejar mais. Por aquilo que jogou em suas aparições e pela força de sua seleção, este é só o começo.