Um estuprador condenado deveria voltar a jogar futebol? O debate está quente na Inglaterra

Os tribunais do Reino Unido falaram: Ched Evans estuprou uma garota de 19 anos em 30 de maio de 2011. O nível de álcool no sangue dela estava duas vezes e meia superior ao limite para poder dirigir. Junto com as imagens das câmeras de segurança que mostravam o seu estado quando chegou ao o hotel, o júri concluiu que ela não estava em condições de dar consentimento. Condenou o ex-jogador do Sheffield United a cinco anos de prisão. Ele cumpriu metade e saiu por bom comportamento, em liberdade condicional, no último mês de outubro. Agora, tenta voltar à vida de anteriormente, mas a busca por um emprego no futebol, apesar de até agora três clubes ingleses terem feito propostas, está complicada.

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O primeiro interessado foi o Sheffield United, cuja mera oferta para que ele usasse as instalações do clube para treinar gerou uma petição assinada por 167 mil pessoas revoltadas e patrocinadores ameaçando deixar o clube. O técnico do Hartlepool, Ronnie Moore, mencionou que gostaria de contar com o jogador apenas para ser rapidamente desmentido por uma nota oficial do clube. Agora, é o Oldham que está na dianteira para contar com os gols do atacante. O acordo está sendo tratado pela imprensa inglesa como “iminente”.

E a discussão voltou a ficar quente: se Ched Evans já pagou a sua dívida com a sociedade, não deveria poder retomar a sua vida normalmente? Mas ele não pediu desculpas à vítima, cuja vida virou um inferno depois do ocorrido, e ainda mantém a versão de que o sexo foi consensual. Mesmo que mude de discurso, como disse o primeiro ministro David Cameron, jogadores de futebol são modelos para a sociedade. O esporte, porém, já abriu os braços para outros atletas que cometeram crimes gravíssimos, como assassinato, fruto da negligência de beber exageradamente e sentar atrás do volante do carro. Por que com Evans seria diferente?

A ideia deste texto é trazer vários lados da discussão, articulados pelos especialistas e pelos jornalistas ingleses, que acompanham o caso mais de perto, e incentivar a reflexão. Não pretendemos responder à pergunta básica e crucial de toda essa história: Evans deve ou não voltar a jogar futebol?

O tribunal da opinião pública

A mesma lei que condenou Ched Evans também o liberou para voltar a jogar futebol. Deveria valer para as duas situações – e vale. Mas os torcedores dos clubes mantêm o direito de não quererem torcer por um estuprador condenado, e os dirigentes, como muitas vezes acontece, de ignorar o desejo deles. A petição online de torcedores do Oldham têm 60 mil assinaturas contra a contratação do jogador, mas parece que o acordo vai acontecer mesmo assim. O que eles podem fazer é protestar boicotando os patrocinadores do clube, por exemplo.

Por isso os dois principais não querem nem arriscar: o ZenOffice, loja de artigos de escritório, e a Verlin Rainwater Solutions, duas empresas que davam nome a arquibancadas do estádio Boundary Park, anunciaram que vão rescindir seus contratos com o clube. Uma decisão de negócios compreensível. Não querem associar seus produtos a uma pessoa que cometeu um grave crime, da mesma forma que os torcedores resistem a vê-la com a camisa do seu time. “A minha posição é que Evans tem o direito absoluto de retomar a carreira, mas eu não gostaria de vê-lo jogando pelo clube para o qual torço”, escreveu o colunista Mick Dennis, do Express.

E, na prática, como ainda está em liberdade condicional e busca a revisão da sua pena, o processo legal ainda está longe de terminar. Ainda assim, até que ponto a opinião pública deveria influenciar a decisão do clube? O colunista do Independent, Simon Kelner, argumenta que o futuro de Evans não pode ser definido em uma enquete on-line, mas pelos tribunais, e até gora ele está cumprindo o que a lei decidiu. “Em uma democracia madura, aqueles que pagam o preço pelos crimes deveriam também ter uma chance de reabilitação [nota do editor: e este é um ponto controverso, porque muitos acreditam que ele não quer se reabilitar, como mostraremos mais adiante]. Uma sociedade civilizada pode ser julgada pela forma como trata aqueles que a ofendem. A perseguição a Ched Evans reflete mal sobre todos nós”, escreveu.

Estupro, certamente, reflete pior, principalmente se o criminoso for um cidadão que aparece todos os finais de semana na televisão, é considerado um profissional de sucesso e se exige que se comporte como uma influência positiva para as crianças e os jovens.

Mas tem que ser no futebol?

Um criminoso sexual, mesmo depois de cumprir a sua pena, tem limitações para procurar emprego. Não pode ser professor ou profissional de saúde porque crianças e pessoas vulneráveis estariam expostas a ele. Não existe nenhuma restrição para o futebol. Mas não são poucos que se perguntam, neste momento, se não deveria. É inevitável que um jogador, ainda mais de alguma visibilidade, como Evans, torne-se um modelo para jovens.

Kelner, do Independent, argumenta que não é culpa de Evans que “qualquer um que calça um par de chuteiras seja instantaneamente visto como um exemplo”. Porém, também não é difícil rebater que esse é o fardo de todos que decidem jogar futebol em alto nível, da mesma forma que algumas queimaduras fazem parte do dia a dia dos bombeiros. O assédio quando tudo que você mais deseja é um jantar tranquilo em algum restaurante, as dores no corpo e a responsabilidade, justa ou não, de ser um cidadão modelo existem como contrapartida para o dinheiro e a fama.

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Trabalhar é parte importante da reabilitação de um criminoso e da sua reinserção à vida corriqueira, principalmente em liberdade condicional. Por causa da possibilidade de voltar a contribuir com a sociedade, para evitar que haja tempo ócio exagerado e recuperar a auto-estima, mas raramente a vida é a mesma depois de um tempo considerável atrás das grades. Um alto executivo reassumiria o mesmo cargo depois de uma condenação pública e amplamente difundida de estupro? O futebol, como sabemos, tem a sua própria lógica. Mas tudo isso quando o criminoso quer ser reabilitado e este não parece ser o caso de Evans, que não acha que fez nada errado.

“Evans tem algum nível de talento para chutar uma bola. Isso significa que em vários clubes de futebol, os administradores pensam: ‘Calma. Podemos contratar Evans por pouco dinheiro? E tudo que temos que fazer é aguentar as feministas, os esquerdistas e alguns colunistas de jornais choramingando sobre estupro, algumas petições on-line e o politicamente correto?’ Dane-se. Não nos importamos. O cara consegue chutar uma bola. Vamos começar a negociar'”, criticou a colunista Grace Dent, do Independent.

Ela também menciona o caso parecido de um taxista de West Yorkshire e três amigos condenados a 68 anos de prisão no total pelo estupro de uma mulher vulnerável e muito bêbada em Bradford. Não houve nenhum clamor para que ele recuperasse o direito de dirigir o seu carro ao redor da cidade quando for solto. Não é a mesma coisa, nem deveria ser. Se os jogos de Chad Evans não fossem transmitidos e assistidos por centenas de pessoas, ele não precisaria ser um cidadão modelo. Também não ganharia tanto dinheiro e suas habilidades não seriam tão valorizadas. Talvez não valesse nem a avaliação de risco e benefício que está sendo realizada no momento.

Ele pediu desculpas, mas…

Atualizada às 11h26 de quinta-feira, 8 de janeiro: Ched Evans, em nota oficial, pediu desculpas pelos efeitos de todo esse caso na mulher envolvida e repudiou os seus defensores que a atacam nas redes sociais. Porém, manteve a sua inocência, nem mencionou o site da sua família, e portanto, o texto abaixo segue válido.

Antes de enviar uma nota oficial pedindo desculpas pelos “efeitos do caso na mulher envolvida”, Ched Evans havia se desculpado com apenas uma pessoa: a sua namorada Natasha Massey, por tê-la traído. Como ainda busca limpar o seu nome junto à Comissão de Revisão de Casos Criminais, sabe que qualquer outra postura teria o poder de uma confissão. A crença de que não fez nada de errado e a incapacidade de se arrepender complicam a situação. Por que não faria o mesmo novamente?

Principalmente criminosos sexuais precisam admitir as suas falhas, como aponta o criminologista David Wilson, ex-chefe de prisão, à BBC. “Seria totalmente correto que Evans retornasse ao futebol se ele tivesse reconhecido sua culpa, se tivesse completado um programa de tratamento para criminosos sexuais, se tivesse desenvolvido uma compreensão sobre as razões de que o que fez foi errado. A menos que um criminoso sexual condenado admita sua culpa, não há absolutamente nada que possa ser feito com ele em termos de tratamento”, afirmou.

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Jill Saward, entrevistada para a mesma matéria da BBC, não dá a menor importância para um pedido de desculpas. Ela faz campanha contra o estupro desde 1986, quando foi violentada na sua própria casa. Para ela, seria “pouco e tarde demais”, e Evans voltar a jogar traumatizaria todas as vítimas de violência sexual. Principalmente a moça que ele estuprou.

A cultura do estupro e culpar a vítima

Porque ao invés de pedir desculpas, a família de Evans criou um site para que os seus fãs pudessem apoiá-lo. E uma das formas que eles encontraram foi assediando a mulher que foi estuprada pelo jogador, cuja identidade não foi revelada ao público. O seu pai disse em entrevista ao Daily Mail que ela teve que se mudar cinco vezes em três anos, está vivendo fugindo e não pode nem lhe enviar um presente de Natal porque não sabe onde a filha está morando. Reunir-se para a ceia estava fora de cogitação, por motivos de segurança.

O seu perfil no Twitter foi encontrado pelos fãs de Evans e inundado com mensagens agressivas e sexistas, como “prostituta mercenária” e “coitadinha da vítima”. Nove pessoas foram multadas em mais de R$ 2 mil por terem revelado o nome dela nas redes sociais. A família do jogador também colocou imagens das câmeras de segurança do dia do estupro em seu site pedindo para o público “fazer o seu próprio julgamento” e foi investigada pela polícia. Um comentarista da BCC afirmou que a vítima não tinha credibilidade porque estava “tão bêbada que não conseguia ficar de pé”. A emissora pediu desculpas.

Tudo isso faz parte da cultura do estupro, enraizada na sociedade inglesa (e em quase todas), dentro da qual a culpa pela violência sexual muitas vezes recai sobre a mulher, “bêbada demais”, “provocante” ou com um “vestido muito curto”. É o que contribui para os seguintes números: em 2008, a polícia registrou 13.093 casos de estupro contra 2.855, vinte anos antes. De acordo com a última Pesquisa de Crimes Britânicos, uma em cada 24 mulheres acima dos 16 anos sofrerão uma tentativa de estupro no país, ou um de fato durante a sua vida.

Dentro desse contexto, qual é a mensagem que o mais valioso bem da cultura popular britânica passaria aos seus cidadãos se permitisse que um estuprador condenado voltasse a colher as glórias da profissão, enquanto sua vítima teve que mudar a sua vida? Para a colunista do The Guardian, Suzane Moore, seria reforçar essa cultura do estupro, o que ela já vê em andamento nas redes sociais com o uso do nome do jogador como verbo em referência ao que os homens gostariam de fazer com certas mulheres.

“O que isso (o assédio dos fãs de Evans) diz para outras mulheres que querem denunciar um estupro? O fato de que Evans não repudiou o que os seus fãs estão fazendo, nem fechou o site financiado pelo pai da sua noiva, é espantoso. A cultura do estupro depende da humilhação das mulheres e da compreensão implícita de que todos os homens seriam estupradores se tivessem a chance. Essa visão está clara nas mídias sociais neste momento”, escreveu.

Tirando todas as nuances e olhando apenas para os fatos, a conclusão do caso, até o momento, é horripilante e mostra como a cultura do estupro é séria no Reino Unido. O estuprador, condenado pela Justiça britânica, está prestes a retomar a sua vida normal e tem vários defensores, nas redes sociais e nas ruas. Enquanto isso, a vítima precisa se esconder. Não pode informar o seu paradeiro para a família, sequer trocar presentes de Natal, e precisa se mudar constantemente. Na prática, o estuprador está livre, e a vítima, presa. O questionamento das feministas, e na verdade, de qualquer pessoa de bom senso, é se o futebol deveria reforçar essa lógica.