Foi uma bonita jogada de Senegal. Mané recebeu pela direita e encontrou um espaço improvável para mandar a bola para Sabaly, que girou dentro da área e cruzou rasteiro. Niang tentou completar de calcanhar, mas furou. Na segunda trave, Moussa Wagué encheu o pé para estufar as redes. Os africanos venciam o Japão por 2 a 1 naquele momento (a partida terminaria 2 a 2), na segunda rodada da Copa do Mundo da Rússia, com um gol viabilizado pelo Catar.

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O lateral direito de 19 anos é fruto de um programa de futebol catariano chamado Aspire Football Dreams (em tradução livre: Aspire a Sonhos de Futebol), um projeto da família real do pequeno país do golfo que observa e reúne jovens talentos de países em desenvolvimento, principalmente na África. Wagué fez parte do programa, na academia satélite de Saly, no Senegal, entre 2014 e 2016, quando foi para o Eupen, clube belga comprado pelo Catar para ajudar a posicionar os jogadores que desenvolve no futebol europeu.

O projeto começou em 2007, tocado pelo alemão Andreas Bleicher e com o apoio do olheiro Josep Colomer, a quem a descoberta de Lionel Messi é creditada. Já observou mais de 3,5 milhões de interessados. Os melhores são levados para conhecer a academia do Catar ou passam a viver nas instalações do Senegal, com direito a moradia, educação, treino, ajuda de custo, passagens para voltar para casa de vez em quando e salário de US$ 5 mil para as famílias – o que para a maioria dos jovens carentes da África é muita, muita coisa.

A parte humanitária do programa é inegável. Mas também há controvérsias, muito bem exploradas neste artigo do New York Times, de 2014. O histórico do Catar pagando atletas de outras nacionalidades para representá-lo em grandes eventos produziu a suspeita de que o plano por trás do projeto fosse prospectar talentos para reforçar a seleção anfitriã da Copa do Mundo de 2022. “Pode acontecer? Imagino que alguns jogadores possam querer representar o Catar porque o Catar os ajudou, e os seus países de origem, não”, afirma Bleicher, ao New York Times, ao mesmo tempo em que afirma que este não é o principal objetivo do Aspire.

Até porque as regras da Fifa dificultam que isso aconteça. Sem nascer no país, ou ter pais dessa nacionalidade, estrangeiros precisariam passar cinco anos contínuos no Catar, depois dos 18, para poderem defender a seleção. Nesse período, jogadores com qualidade para fazerem a diferença no Mundial já receberiam propostas de outros clubes e provavelmente se desenvolveriam melhor em ligas mais competitivas. Segundo Bleicher, o objetivo é melhorar os próprios catarianos colocando-os para competir com atletas melhores. “Se naturalizarmos alguns jogadores, o que aconteceria? Todos nos matariam. Todos veriam. Não somos estúpidos”, afirmou o diretor alemão.

O Catar foi alvo de diversas acusações de compra de votos para se tornar sede da Copa do Mundo de 2022, como foram outros países que ganharam esse direito antes da explosão do Fifagate, investigação conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra dirigentes da entidade internacional. De acordo com documentos vistos pelo New York Times, um dos objetivos do projeto Aspire foi ajudar a convencer membros do Comitê Executivo da Fifa, que naquela época eram as pessoas que decidiam as sedes do Mundial, a apoiar o Catar. Cinco dos 24 integrantes eram de países onde o projeto estava operando.

Além disso, o futebol europeu, principalmente de países que colonizaram a África, lida com acusações de aliciar jovens talentos para defenderem seus clubes e seleções. A Fifa tem regras para impedir que isso aconteça. Proíbe transferências internacionais de menores de idade, com algumas exceções (por exemplo: se a família se mudar para a cidade por motivos não relacionados ao futebol). Essas regras, porém, não se aplicam a uma academia como a Aspire Football Dreams, que não é um clube de futebol. Jean-Claude Mbvoumin, ex-jogador camaronês, fundou uma ONG, em 2000, para dar a apoio a crianças africanas que eram enganadas por agentes que ofereciam testes na Europa e para combater o tráfico de pessoas por meio do futebol.

De acordo com o livro The Away Game, obra publicada no último mês de março e que mergulha no projeto catariano, Mbvoumin ficou escandalizado quando visitou Camarões, em 2007, e descobriu que crianças de 13 anos estavam sendo recrutadas “em escalas sem precedentes”. Com a ajuda de membros do Parlamento Europeu, escreveu uma carta para o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, exigindo que o programa fosse interrompido. A resposta institucional da entidade foi de apoio, mas, pessoalmente, Blatter respondeu, em carta vazada na imprensa, que considerava o projeto um “bom exemplo de exploração”.

Blatter visitou o Catar em fevereiro de 2008 e conheceu de perto as instalações do projeto. Surpreendentemente (ou não), depois da viagem, mudou de ideia em relação à Aspire Football Dreams. “A visita me deu a oportunidade de aprender mais sobre o programa africano da Aspire em primeira mão, e eu tenho que dizer que estou muito tranquilo em relação ao projeto agora que entendo como ele funciona”, disse. Em junho daquele ano, quando Mbvoumin conseguiu uma reunião com Blatter, o dirigente já havia sido completamente convertido.

Independente de potenciais motivos escusos, espalhar dinheiro ao redor da África é condizente com o projeto do Catar de transformar o dinheiro do seu petróleo em relevância na economia, na cultura, na educação e, claro, também no esporte. E pelo menos um autor de gol de Copa do Mundo, o do africano mais jovem a marcar em Mundiais, ele já conseguiu produzir.