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Um gol e a Copa fez a Bósnia voltar a explodir com ainda mais força

A Bósnia-Hezergovina sabia que dificilmente teria sua estreia com vitória em Copas do Mundo. Não era impossível, mas muito difícil. O sorteio, ao menos, já tinha sido bastante generoso com a única seleção estreante no Mundial de 2014. Teriam a chance de jogar no Maracanã, um templo do futebol. Contra a Argentina e Lionel Messi. O triunfo não veio, como era de se esperar. No entanto, isso foi o de menos. Não dá para dizer que o domingo não foi triunfante. O papel digno que a equipe fez em campo, somado com o fato histórico de estar em uma Copa, já serviu para inflar o orgulho dos bósnios.

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A comemoração da classificação à Copa, em outubro, já tinha dado a dimensão do feito para a Bósnia. As ruas do país foram tomadas por torcedores com a bandeira do país e sinalizadores. Era a prova definitiva de que um país profundamente cindido pela guerra e pelas diferenças entre as etnias estava unificado. Abraçou-se em torno do futebol, um universo pequeno, mas que simbolizava a irmandade através de seus jogadores de várias origens.

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Aquela festa, contudo, era apenas uma prévia do que viria. Afinal, os bósnios queriam a Copa. A chance de mostrar a unidade do país ao restante do mundo. A forma como as feridas deixadas pela guerra cicatrizaram e formaram um país vitorioso. Os jogadores no Mundial de 2014 eram os representantes desse momento. Mas os olhos do mundo estariam tanto no Maracanã quanto em Sarajevo, Mostar, Tuzla, Zenica e outras tantas cidades bósnias – como Brcko, de apenas 43 mil habitantes, boa parte deles na praça central para torcer pelo país. Os 11 em campo, na verdade, eram 3,8 milhões espalhados na nação encravada nos Bálcãs.

A Bósnia sentiu o baque quando o jogo começou. E deixou isso claro quando Kolasinac, uma das boas promessas da equipe, mandou a bola contra as próprias redes. Mas soube se acalmar. Colocar a cabeça no lugar. Tomar consciência do que representava. E perceber que a Copa do Mundo, ao mesmo tempo em que é um presente sem tamanho para o seu povo, também é mais um jogo.

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A Argentina era mais uma adversária. Bicampeã do mundo e a mais difícil do grupo, sim, mas só mais uma. Nada que o potente ataque da Bósnia também não pudesse amedrontar, como fez durante boa parte do primeiro tempo e o início do segundo. Quando Messi resolveu jogar tudo o que sabe, também intimidou os bósnios. Era aquele que já foi o melhor do mundo, em sua melhor inspiração, em um jogo de Copa. Mas o gol de Ibisevic tirou outra vez a sua seleção de baixo da cama. Não havia o que temer. Os argentinos são melhores e foram melhores. Porém, os bósnios também tem capacidade para superar seus adversários. Não foi neste domingo. Mas pode ser contra a Nigéria e o Irã, os outros seus outros dois rivais na fase de grupos. Para colocar a nação nas oitavas e provar que o sonho foi ainda mais real.

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O gol de Ibisevic foi, sobretudo, a confirmação que a fé dos bósnios não era em vão. Ele não garantiu a vitória. Mas foi tão comemorado por aquele povo sofrido como se já valesse a taça. Duas décadas depois, a Bósnia ouvia uma grande explosão em seu território. Não de bombas, como aquelas que deixaram seu território em escombros. E sim de alegria, pela glória maior de uma população que se transforma em uma só torcida: o gol. Os fogos e os sinalizadores não eram os sinais da destruição, e sim do orgulho. Pelo tento marcado por um compatriota, independente de sua etnia.

A Bósnia ainda tem mais duas partidas pela frente, pelo menos. E tomara que sejam mais, para que o êxtase se repita com uma frequência ainda maior, proporcionem cenas ainda mais emblemáticas diante do feito do país. É Copa do Mundo. É o maior momento de uma nação que se acostumou a sofrer e que agora pode sorrir para todo o mundo ver. O futebol é capaz dessas coisas. O campo de futebol pode ser o palco do jogo, mas também uma mera metáfora do que está muito além dele. E não havia metáfora melhor do que o Maracanã, o estádio mais célebre do mundo, para o espetáculo a milhares quilômetros de distância.

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