Não é apenas sob as traves que Gianluigi Buffon se faz especial. A lenda italiana construiu uma carreira sólida que fala por si. Mas que chegou a um patamar tão alto por sua personalidade, tanto quanto por seu talento. A seriedade do trabalho no dia a dia e a paixão com que disputa cada partida são visíveis, mesmo através da televisão. E o veterano continua sereno naquele que deve ser o último ano de sua carreira, ambicionando mais títulos com a Juventus e a sexta participação em uma Copa do Mundo, o grand finale para uma trajetória memorável.

Nesta semana, Buffon concedeu uma longa entrevista ao jornal Marca, após a derrota contra a Espanha nas Eliminatórias. Até falou sobre a seleção e a Juventus, mas o bate-papo conseguiu ir muito além. Trouxe um pouco das perspectivas do ídolo, evidenciando os seus valores pelo futebol e o apreço pela vida. As projeções de Gigi sobre o seu futuro, sobretudo, ressaltam bem o seu caráter. Abaixo, destacamos alguns dos principais trechos:

– Como se tornou goleiro

Quando era pequeno, tinha um mito: Thomas N’Kono, o goleiro de Camarões. Eu o vi jogar na Copa de 1990 e, depois da Itália, Camarões era o meu time de coração, ainda que também existissem muitos jogadores naquela Itália que me encantavam.

– Por que passou tanto tempo na Juventus

Eu gosto do sentimento de pertencimento, por isso fiquei 10 anos no Parma e depois 17 na Juve. Gosto de trabalhar em um grupo de pessoas afinado, com quem me encontro bem e convivo. Ao final, você se sente parte integrante desse contexto e eu decidi permanecer nele para sempre. Certamente que se perdeu este senso de pertencimento. O futebol partiu para o lado do negócio. Ele pode ser mais bonito para quem vê ou para quem pratica. Para mim, estar todos estes anos no Parma e na Juventus é gratificante, belíssimo, porque nesses momentos você pode sentir-se próximo do mundo inteiro.

– Os atacantes que mais causaram problemas

Digamos que não existiram tantos nestes anos… Mas o que mais problemas me causou foi Ronaldo, o brasileiro. Ele é o protótipo do jogador perfeito: tinha potência, velocidade, intuição, técnica, rapidez, era um jogador que te deixava com a boca aberta. Parecia criado em um laboratório. Não podias pensar que um ser humano tivesse todos esses dons.

– As perspectivas da seleção italiana

A Itália mudou tudo ultimamente. Está fazendo um projeto novo, estamos crescendo com outros futebolistas. E está dando bons resultados. Dos últimos dez encontros, perdemos apenas para França e Espanha. Nos outros, fizemos sempre um bom jogo. Mostramos que a Itália pode propor coisas distintas além do que é nossa tradição.

Gianluigi Buffon, da Juventus

– Como encara o último ano da carreira

Não tenho um sentimento especial, o intuito é continuar fazendo bem o trabalho, cumprir os objetivos que me surgirão neste ano. Minha determinação, minhas convicções e o modo de viver o profissionalismo permanecem intactos.

– Se pensa em ser técnico

Não, não me atrai porque é um trabalho muito complicado e estressante. Somo 23 anos jogando praticamente a cada semana. Em 1997, comecei com a seleção, na Champions… levo 20 anos nestes campeonatos. Recomeçar uma vida como treinador é complicado de pensar agora.

– Os sonhos que ainda restam

Falar de sonhos com o tipo de vida que tenho vivido, a gratidão… O único que espero é contar com muita saúde para viver uma vida familiar bonita, acompanhar a criação de meus filhos, com o amor da minha companheira e ter interesses para despertar-me a cada manhã.

– Sobre o futuro após o futebol

Não me dá medo a vida sem o futebol porque amo a vida. Em consequência, não posso ter medo de fechar um parênteses. Devo muito ao futebol, porque me permitiu viver emoções incríveis e penso que esse é o único valor inestimável que te dá esta vida: sentir determinadas vibrações em certas partidas, em certos estádios. O meu futuro sei que será bonito. Eu não sei como será, porque estou muito concentrado no presente. Se você quer fazer bem uma coisa, não pode pensar demais em outra e no que vai fazer. Ao final, quando terminar, pensarei no que virá.

– O primeiro dia após a aposentadoria

O bom é que será verão, tirarei umas boas férias.

Buffon, da Itália

– Cinco momentos especiais na vida

Não devemos nunca nos esquecer de como crescemos, a beleza das lembranças de quando éramos pequenos. As pessoas que te acompanharam, a experiência que teve. Quando eu era pequeno, precisava de pouco para ser o garoto mais feliz do mundo. O modo como eu me divertia, levo sempre comigo, é um patrimônio muito importante. Depois, me recordo do momento em que decidi ser goleiro, na Copa de 1990, quando Camarões ganhou da Argentina na abertura. Também me recordo de quando cheguei ao Parma. Tinha que sair de casa, estar na escola com garotos de toda a Itália… Eu me recordo da minha felicidade, porque estava fazendo o que queria. Queria fazer bem e aproveitar a oportunidade, porque era uma questão de orgulho. Minha ideia era sair para não voltar. Tomei como algo muito pessoal.

Depois, a ida para a Juventus foi incrível. Aqui passei de menino a homem. Existiam muitas expectativas sobre mim, porque pagaram muito para me contratar. A Juve havia contratado Zidane, Nedved, Thuram… Na minha trajetória de vida, se passaram coisas muito bonitas, como o nascimento dos meus filhos. Agora eles têm nove anos, sete e um e meio. Com os dois maiores vejo como muda a relação e o bonito que é instaurar a confiança, mas na base de tudo há um respeito. Gosto de brincar com eles, mas sempre sabendo que sou um papai amigo, não sou um amigo. Sou o pai.