Ao ouvir o nome de Waldir Peres, o acompanhante mais fiel de futebol normalmente faz um muxoxo de reprovação. Que pode vir acompanhado de uma frase como esta: “Ih, era frangueiro, foi um dos culpados da eliminação na Copa de 1982”. Certo, Waldir inegavelmente cometeu um frango no despretensioso chute do meio-campista Andrey Bal que abriu o placar para a União Soviética, na estreia das duas seleções naquele Mundial. Ainda assim, a pecha que ficou naquele lance foi grande demais. Injusta na elogiável carreira do ex-goleiro que faleceu neste domingo, vítima de infarto, aos 66 anos, em Mogi Mirim, interior do estado de São Paulo. Afinal de contas, até chegar àquele lance (e depois dele), Waldir já tinha uma respeitável trajetória como goleiro.

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Nascido em 2 de janeiro de 1951, em Garça, e criado em Lácio – município do interior paulista, na região de Marília -, Waldir começou a atuar no time da cidade natal, em 1968. Após testes sem sucesso em Guarani e Santos, voltou ao Garça. Até a metade de 1970, quando recebeu proposta da Ponte Preta e, aí sim, deu o salto necessário em sua carreira profissional. Membro do grupo vice-campeão paulista, na reserva, o goleiro secundou o titular Wilson até 1972. Uma briga de Wilson com Cilinho, técnico ponte-pretano, abriu a chance que Waldir Peres esperava. E a titularidade veio, durante o Campeonato Paulista daquele ano.

Mais um pouco, e 1973 trouxe a grande chance: ao fazer ótima atuação contra o São Paulo, também pelo Paulista, Waldir Peres chamou a atenção justamente do clube do Morumbi – que o contratou prontamente, junto a Chicão, mais um que faria história no São Paulo durante aquela década. Não demorou muito e a sorte sorriu para Waldir mais uma vez: pouco depois de sua chegada, Sérgio Valentim, titular são-paulino, machucou-se num jogo contra o Coritiba, pelo Campeonato Brasileiro de 1973. Respaldado pelo técnico tricolor (o argentino José Poy, outro histórico ex-goleiro do São Paulo), Waldir assumiu a posição para virar sinônimo de camisa 1 tricolor pelos próximos 10 anos.

Não demorou muito para Waldir se notabilizar por mostrar em campo uma segurança invejável para alguém de 23 anos. A ponto de ser titular nas campanhas dos vices-campeonatos brasileiro de 1973 e da Copa Libertadores de 1974. Aí, foi a vez da oportunidade encontrar a capacidade que o novato garcense já apresentava defendendo o São Paulo: no último corte da lista preliminar de 40 nomes convocados por Zagallo para a Copa de 1974, o lesionado Wendell, do Botafogo, ficou fora do torneio. Observado pela comissão técnica, Waldir foi o escolhido. E discretamente, foi para sua primeira Copa, como terceiro goleiro, abaixo do flamenguista Renato (reserva imediato) e de Leão, titular absoluto.

E ao longo daquela década de 1970, sorte e segurança formaram o binômio que transformaram Valdir Peres num dos mais marcantes jogadores da história do São Paulo. Segurança, por sempre parecer tranquilo, até mesmo quando cometia falhas – e elas aconteciam, justo dizer (a ponto de causar momentâneas perdas de posição para os reservas Toinho). Mas que sempre lhe rendiam a capacidade de estar bem posicionado e calmo em momentos agudos. Como na decisão do Campeonato Paulista de 1975: após duas vitórias por 1 a 0 no Morumbi para cada finalista – São Paulo na ida, Portuguesa na volta -, o título foi para os pênaltis. Waldir Peres catimbou, enervou, deixou tensos os batedores da Portuguesa. Dicá foi bater e ele provocou: “A casa está cheia, Dicá. É claro que você vai errar”. Errou. Wilsinho para a bola, e o arqueiro: “Vai perder”. Perdeu. Tata também desperdiçou seu chute, o São Paulo converteu os seus: 3 a 0, São Paulo campeão paulista e Waldir como herói.

Mas esse heroísmo pareceu pequeno diante do papel que o goleiro teve na decisão do Campeonato Brasileiro de 1977. Naqueles 120 minutos de tensão e chuva no Mineirão, contra um Atlético Mineiro bem mais aquinhoado tecnicamente, a firmeza são-paulina segurou o 0 a 0 com bola rolando. Nos pênaltis, para piorar o nervosismo do São Paulo, João Leite pareceu se agigantar para ser o herói atleticano, ao pegar os chutes de Getúlio e Chicão. Mas Waldir, que já tinha visto Toninho Cerezo chutar por cima, tomou o lugar. Com a mesma tática: provocando os batedores, apontando para eles, até com maliciosas apalpadas antes. E comemorando depois: viu Joãozinho Paulista bater para fora e também viu Márcio mandar a bola por cima do gol. Correu para simbolizar a comemoração do primeiro título brasileiro são-paulino, naquele 5 de março de 1978.

Waldir Peres, do São Paulo, na decisão do Campeonato Brasileiro de 1977 (Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC)

Waldir Peres, do São Paulo, na decisão do Campeonato Brasileiro de 1977 (Foto: Arquivo Histórico do São Paulo FC)

O jovem que chegara tímido da Ponte Preta se convertera num goleiro seguro. Autoconfiante quando necessário – até a ponto de prometer (sem cumprir) que usaria uma camisa rosa, para mudar o padrão do cinza que envergava quando usava a 1 são-paulina. Se a convocação para a Copa de 1974 fora uma promessa, a “promoção” de Waldir em 1978 foi natural, sendo o reserva imediato de Leão naquela Copa do Mundo. Na virada para a década de 1980, jogadores iam e vinham, um time mediano virava a Máquina Tricolor bicampeã paulista em 1980 e 1981 – e vice-campeã brasileira em 1981 -, mas a torcida sabia como o time começava, de cor e salteado: Waldir Peres, Getúlio, Oscar, Darío Pereyra…

Até pela segurança e calma que mostrava num grande brasileiro, Waldir Peres tinha nome suficiente para ser considerado um selecionável antes da Copa de 1982. Assim como Raul, outro sinônimo de segurança no Flamengo. Ou João Leite e Carlos, de pouca idade e muita maturidade defendendo Atlético Mineiro e Ponte Preta, respectivamente. Ou Paulo Sérgio, de boas atuações no Botafogo. Ou acima de todos, Leão, então ainda o grande goleiro brasileiro, sendo um dos grandes nomes de um espetacular começo de década do Grêmio, campeão brasileiro em 1981. Eram muitos bons goleiros para apenas um técnico escolher. Telê Santana experimentou Raul nos primeiros amistosos, em 1980; levou Carlos e João Leite para o Mundialito de 1980 e deu azar com o primeiro, que fraturou o cotovelo; João Leite, reserva transformado em titular, também se lesionou, pouco antes do começo das Eliminatórias para 1982; e Telê nunca simpatizou com o estilo personalista de Leão, por mais que o visse como um grande guarda-metas.

Como sempre, Waldir Peres estava lá. Assumiu o gol brasileiro nos fáceis jogos da qualificação para a Copa, contra Venezuela e Bolívia. Mas era apenas um nome, sem titularidade garantida, cheio de dúvidas sobre si. Dúvidas que se dissiparam completamente na célebre excursão europeia da Seleção, no meio de 1981. Nem tanto pela atuação nos jogos contra França e Inglaterra, mas sim pela participação decisiva e histórica na vitória de virada do Brasil sobre a Alemanha, no Neckarstadion de Stuttgart. Com o 2 a 1 já feito pelo time verde-amarelo, Luisinho colocou a mão na bola, na área. Pênalti marcado pelo inglês Clive White. Para a cobrança, Paul Breitner, dos melhores batedores europeus: não só não perdera um pênalti em toda a carreira, como tinha até cobrança convertida em final de Copa (1974) no currículo. Bateu, e Waldir Peres voou no canto direito para pegar. Clive White julgou que o brasileiro tinha se adiantado, e ordenou a repetição. Breitner trocou de canto. Waldir Peres também: outra defesa, e colegas de time indo saudar o grande herói de uma marcante vitória – que praticamente o garantiu na Copa de 1982.

Como se não bastasse, Waldir Peres também começou 1982 em plena forma. Em outro amistoso contra a Alemanha (1 a 0 no Maracanã, em março), o camisa 1 da Seleção fez duas excepcionais defesas, espalmando por cima cabeceio de Horst Hrubesch à queima-roupa e pegando um arremate de Karlheinz Förster, ambos no fim da partida. Por atuações assim, seguras na hora certa, o goleiro são-paulino se credenciou justamente para ser, na ausência de Leão, o titular na Copa. Até aquele frango infeliz em 14 de junho de 1982, no Ramón Sánchez Pizjuan, em Sevilha, contra a União Soviética.

Na Copa, a torcida se esqueceu de tudo que ocorrera até ali. Nem mesmo duas ótimas defesas de Waldir Peres contra a Argentina – uma delas num cabeceio de Juan Barbas, aos três minutos da etapa inicial – tiraram a pressão do camisa 1. Até hoje há quem considere que sua saída de gol podia ter sido melhor no primeiro gol de Paolo Rossi, nos 3 a 2 da Itália. Enfim: mesmo que a única falha inegável do goleiro brasileiro na Copa de 1982 tenha sido contra a União Soviética, ficou a pecha de “frangueiro”, que os torcedores do interior paulista não o deixavam esquecer, na volta do Mundial, nos jogos do Campeonato Paulista. Ao mesmo tempo, Waldir Peres também via seu reinado no São Paulo esmorecer. Não por falhas (seguiu titular absoluto), apenas pelo desgaste natural de 11 anos de clube. E no início de 1984, enfim ele abriu espaço para o reserva Barbiroto e deixou o Morumbi, com 617 partidas oficiais – até hoje, o segundo jogador com mais partidas na história tricolor, obviamente só superado por Rogério Ceni. Enquanto o São Paulo, após tentativas com Barbiroto, Abelha e Tonho, só ganhou outro goleiro confiável para chamar de seu após Gilmar Rinaldi chegar, já no meio de 1985.

Dali por diante, o já experiente Waldir seguiu uma trajetória de andarilho. Passou pelo experiente time que o América-RJ armara para 1984; esteve até no Guarani, arquirrival pontepretano, em 1985; e entre 1986 e 1987, viveu outra experiência marcante. Chegou ao Corinthians para ser reserva de Carlos, que fora seu suplente em 1982, mas ali era titular tanto corintiano quanto da Seleção Brasileira. Os dois nomes marcantes passaram a se alternar no gol alvinegro – mas Waldir saiu ganhando, ao ser titular absoluto numa marcante campanha no Campeonato Paulista, em 1987, quando o Corinthians saiu da vice-lanterna no primeiro turno para reagir incrivelmente e chegar à decisão que perdeu para o São Paulo. Continuou titular na Copa União daquele ano, mas ao final dela, sem renovar contrato com o Corinthians, Waldir seguiu seu caminho: Portuguesa, Santa Cruz e, finalmente, Ponte Preta, em 1989, onde encerrou a carreira no campo.

Entre 1991 e 2013, Waldir Peres fez carreira esporádica como técnico, que nunca saiu dos clubes do interior paulista (com passagens por Paraná e Tocantins). Para sempre foi gozado pelo infeliz frango contra a União Soviética, na Copa de 1982 – até mesmo numa propaganda de cerveja que evocava seu azar. No entanto, num momento em que se reavalia a Seleção Brasileira daquele torneio, talvez fosse justo dar àquela falha o peso que ela tem. E que não pode apagar a respeitável carreira que Waldir Peres de Arruda construiu, sendo um símbolo de um grande clube brasileiro e um dos goleiros mais marcantes de sua época no país.

Waldir Peres faleceu neste dia 23 de julho, vítima de um infarto, aos 66 anos. Deixa a vida, mas estará para sempre na história do futebol brasileiro.

Waldir Peres também ficou eternizado no Futebol Cards, do chiclete Ping Pong

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