Sala Anjos Barrocos do Museu do Futebol (Divulgação)

Um passeio pelas origens do futebol brasileiro no aniversário de São Paulo

Este sábado é aniversário de São Paulo. É o único dia do ano em que os paulistanos têm liberação para deixar as críticas ao caos urbano e podem falar bem da cidade. Para homenagear a capital paulista, vamos reproduzir a reportagem da edição de abril de 2010 da revista ESPN, que teve a maior metrópole brasileira como tema da seção Passaporte ESPN.

Museu a céu aberto… com o acervo escondido

São Paulo não tem tradição de preservar seu passado, mas uma vasculhada cuidadosa permite encontrar alguns rastros dos primeiros chutes do futebol no Brasil

por Marco Lourenço e Ubiratan Leal

Foram 370 mil visitantes em seu primeiro ano de vida. Rapidamente, o Museu do Futebol, inaugurado em setembro de 2008, se tornou um dos principais pontos turísticos de São Paulo. Feito justo para um projeto ousado e inovador, que tem como um de seus méritos refazer a ligação da capital paulista com a história do futebol brasileiro. Afinal, foi na maior cidade do País que o esporte chegou ao Brasil, um fato muitas vezes soterrado na infindável vocação da paisagem paulistana de se construir e reconstruir, construir e reconstruir, até que poucos traços de décadas passadas sobrevivam.

O futebol começou a ser praticado no Brasil ainda antes do retorno de Charles Miller ao Brasil, em 1894. Mas eram partidas esporádicas de marinheiros ingleses pelos portos em que atracavam. Na época, São Paulo crescia rapidamente. Imigrantes chegavam de diversas partes da Europa e enfrentavam a garoa fina que um dia fez a fama do Planalto Paulista. Nos momentos de lazer, jogava-se críquete e se praticava remo. O interesse pelo jogo de chutes se espalhou rápido, seguindo os trilhos das ferrovias paulistas, chegando aos pés dos funcionários brasileiros e escoceses da São Paulo Railway – ferrovia que ligava a capital ao litoral – e da oficina da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Mas, de fato, foi a chegada de Miller que tornou o futebol em modalidade organizada.

O estudante filho de ingleses realizou a primeira partida de futebol reconhecida em território brasileiro: um amistoso entre um combinado dos funcionários do alto escalão da São Paulo Gas Company e da São Paulo Railway. O encontro ocorreu na Várzea do Carmo, local que… não existe mais. Com a canalização do Rio Tamanduateí, o aterramento de suas margens e o adensamento do centro da cidade, não se sabe ao certo onde foi realizado o histórico jogo. Quem se dedica a uma arqueologia urbana deve saber que fica na atual Baixada do Glicério, em algum ponto perto do Parque D. Pedro II.

As margens dos rios Tamanduateí e Tietê, nos terrenos do Belém do Cambuci e do Prado da Mooca , eram alguns dos principais palcos do futebol popular. Mas nenhum deles se compara à Várzea do Carmo, que seguia na ativa depois da partida inaugural. A região recebia dezenas de times formados não somente pelos operários imigrantes, mas também de trabalhadores que tinham expediente irregular e costumavam ocupar boa parte do dia na várzea. Aliança, SC Argentino, SC Cruzeiro do Sul, Mancha de Sangue FC, São José Operário FC e Polignano a Mare FC são exemplos desses times populares.

A resistência, inclusive da imprensa da época, em aceitar o futebol popular não parecia cessar entre os representantes dos clubes da cidade. Havia de fato um movimento ostensivo contra a proliferação do futebol em meio às camadas populares. A ideia era que a ocupação irregular desses espaços transgredia a ordem pública.  Não é coincidência que tenha faltado cuidado do poder público com essas áreas, que não foram preservadas e, hoje, nem parecem ter relação com o surgimento do futebol no Brasil.

Várzea do Carmo na década de 1890

Várzea do Carmo na década de 1890

A VÁRZEA DEIXOU POUCOS rastros, mas não significa que toda a origem do futebol paulista tenha desaparecido no que as autoridades brasileiras chamaram, por décadas, de “progresso”. Alguns lugares históricos foram enterrados, mas outros podem ser encontrados. Basta um pouco de pesquisa, alguma paciência e um espírito de Indiana Jones futebolístico.

Por exemplo, os cinco clubes que fundaram a Liga Paulista de Futebol e disputaram o primeiro estadual do Brasil, em 1902, não estão mais na ativa. Uma busca mais cuidadosa, porém, mostra que quatro ainda existem de alguma forma. O São Paulo Athletic Club (Spac), primeiro clube brasileiro a ter departamento de futebol (1895, cinco anos antes de Rio Grande e Ponte Preta, os mais antigos que ainda disputam competições oficiais), ainda vive, com futebol amador e esportes ingleses como rúgbi e críquete. Club Athletic Paulistano e Sport Club Germania (atual Pinheiros) são referências em esportes olímpicos, e a instituição que mantinha a Associação Atlético Mackenzie toca o colégio e a universidade de mesmo nome. Apenas o Sport Club Internacional desapareceu completamente. Mesmo assim, deixou algum legado: deu origem ao Clube Atlético Paulista – posteriormente incorporado ao São Paulo Futebol Clube – e seu nome serviu de inspiração aos fundadores do Internacional gaúcho.

Uma situação parecida é vista nos estádios. O gigantismo da cidade engoliu alguns. O Velódromo, principal estádio do Brasil nos primeiros anos do século passado, desapareceu em 1915. Em seu lugar está o Teatro Cultura Artística. Gasômetro (bairro do Brás), Chácara Dulley e Chácara Witte (ambas no Bom Retiro) também sumiram. Mas alguns sobreviveram, e um arqueólogo urbano consegue reencontrá-los.

A Chácara da Floresta, casa da Associação Atlética das Palmeiras e responsável pelo apelido do São Paulo Futebol Clube “da Floresta”, foi o principal da cidade após a desativação do Velódromo. Há mais de meio século não se fala em partidas oficiais no local, mas ele ainda existe, sim. É um gramado com pista de atletismo em volta, próximo à Marginal Tietê, dentro do Clube de Regatas Tietê, que adquiriu o patrimônio do São Paulo da Floresta em 1935 (antes de o clube ser refundado como o São Paulo atual). O estádio Jardim América, onde o Paulistano mandava seus jogos, foi demolido em 1950, mas o terreno faz parte da sede social do clube, que preserva sua história. O Parque da Antarctica (isso mesmo, ainda com “da” no meio,), que abrigou o primeiro jogo do primeiro campeonato oficial do Brasil (Germânia 1×2 Mackenzie pelo Paulista de 1902), foi comprado pelo Palestra Itália em 1917 e é a atual casa do Palmeiras, ainda que o local do gramado original não seja o mesmo do campo moderno.

Foto de um Palmeiras x Corinthians no Parque Antarctica na década de 1920

Foto de um Palmeiras x Corinthians no Parque Antarctica na década de 1920

O DESENVOLVIMENTO DA CAPITAL PAULISTA não deixou muito espaço para dezenas de clubes, fato comum em outras metrópoles sul-americanas como Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro, Santiago e Lima. Diversos times de bairros ou de colônias de imigrantes fecharam as portas (Americano, Comercial, São Bento, Ítalo, Minas Gerais, Estudantes) ou deixaram o profissionalismo (Ypiranga, Guapira, Sírio). Os atuais representantes de São Paulo deixaram de lado seus grupos tradicionais para se espalhar pela cidade.

Considerar que toda a torcida do Corinthians é popular, e que todo paulistano das classes D e E são corintianos não é verdadeiro. Do mesmo modo que estereotipar os ítalo-brasileiros de palmeirenses e a elite de são-paulina. Tais rótulos servem para brincadeiras nas mesas de bar, mas o fato é que os grandes clubes estão presentes em todos os grupos sociais. E isso inclui o Santos, que tem a maior parte de sua torcida a mais de 50 km da Baixada Santista. E há algo mais paulistano que ter times fortes e vencedores, mas aceitar um de fora entre seus preferidos, deixando para trás até um outro local, a Portuguesa?

É ingênuo achar que o cenário do futebol paulistano já está estabelecido, como se a cidade perdoasse quem não se atualiza. O futebol amador – que ficou conhecido como “de várzea” justamente pelos jogos iniciais, lá nas margens dos rios paulistanos – voltou a dar sinal de vida, com torneios de times de bairro que juntam, somados, mais de 50 mil torcedores por fim de semana, em parte buscando uma experiência futebolística mais lúdica e segura. Um novato no profissionalismo, o Pão de Açúcar, faz boa campanha na Série A2 e pode aparecer na elite estadual em 2011.

Curiosamente, é essa cidade que sempre está disposta a olhar para a frente que se volta ao passado. Os grandes clubes paulistas já inauguraram seus memoriais – alguns com investimento pesado – e o Museu do Futebol teve grande aceitação. Talvez São Paulo esteja percebendo que não se pode deixar para trás sua história de gente que veio de diversas partes do mundo trazendo suas experiências para criar algo novo. Algo novo como o futebol brasileiro.