Um erro de arbitragem para o Brasil. De novo. Em casa. Em um momento crucial do jogo, que poderia se tornar um momento crucial da Copa. Eu não gosto, me sinto mal, preferia perder o jogo – OK, pode ser que seja só porque era o primeiro jogo, e não o da classificação, mas ainda assim eu não gosto. E desconfio: não é estranho que sempre errem a nosso favor?

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Mas entendo quem não se incomoda, e acho importante fazer a distinção feita pelo Ubiratan: esse foi um erro, posso até achar estranho que sempre errem a nosso favor, mas foi um erro “errável” para um juiz ruim e caseiro. Totalmente diferente, por exemplo, dos erros que beneficiaram a Coréia do Sul em 2002, que foram graves e em uma sequência que nos faz acreditar em algo mais profundo. A vida não é justa, o futebol também não. Às vezes você perde tendo um time melhor, às vezes você ganha por um erro do juiz.

Me incomoda o erro, mas não me envergonho da maneira como ganhamos por causa disso, o erro faz parte do jogo – ainda. O que não quer dizer que não haja nenhum motivo para vergonha.

Acho pior as pessoas que disseram que ficaram com vergonha da abertura da Copa. Eu não tenho nenhuma, ninguém assiste abertura de Copa, abertura importante é a da Olimpíada. Vi gente com vergonha das vaias a Dilma. Também não tenho. Eu não vaiaria porque acho contraproducente, mas o governante que é impopular está sujeito a isso. Se Collor fosse vaiado pela Geral do Maraca alguém ia achar ruim? Ou só é democrático quando quem vaia são os descamisados?

Vi gente com vergonha quando um inglês detonou tudo desde que chegou. Eu não tenho vergonha de nada disso e é fácil entender por que: já fiquei mais de uma vez por pelo menos duas horas na fila da alfândega dos EUA e nunca vi um americano envergonhado por isso. Já perdi metade de um jogo de beisebol em Nova York para o qual paguei ingresso porque o esquema de estacionamento era uma zona, e ainda por cima cobrava 20 dólares pra parar quase em outro bairro. E já tive que andar um bom par de quilômetros depois de um jogo de playoffs da NBA porque a estação perto do ginásio estava fechada à noite. Acontece no mundo inteiro, mas o gringo quer que você pense que no país dele não acontece. Só que eu sei que acontece porque eu moro no país dele.

De tudo isso, porém, uma coisa me envergonha. Eu tenho vergonha da atitude do Fred. Porque se o juiz pode ter apenas cometido um erro, o Fred, não, o Fred tomou a iniciativa de tentar enganar o juiz. E disso eu tenho vergonha. Isso eu gostaria que fosse diferente. Vamos deixar claro: não tem nada a ver com ser brasileiro. Como sempre lembra bem o Ubiratan, os ingleses são os reis de reclamar de “trapaça”, desde que você não fale com eles sobre 66. Os americanos não são diferentes, nem os alemães, os belgas ou os espanhóis.

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Não tenho vergonha como brasileiro, tenho vergonha como torcedor do time. Porque se eu não tenho nenhum problema pra responder para qualquer um que me questione sobre um aeroporto em obras ou um trombadinha na orla do Rio, eu tenho sérios problemas quando minhas filhas querem saber porque o jogador do Brasil caiu se o outro jogador nem tinha encostado nele.

Para minha sorte, ninguém me perguntou nada. Não sei o que eu teria respondido. Sei que não tenho vergonha de nada nesta Copa do Mundo, pelo contrário, acho que o esforço que o Brasil fez para entregar esse evento é algo bem bacana – e a maneira como a população aproveitou o pré-evento para suas manifestações mas deixou a Copa em si em paz, também. Eu não me incomodo com jogador de futebol que toma saquerinha, ainda que sejam quarenta. Mas eu tenho vergonha de simulações de pênalti. Fico puto quando vejo que elas viraram uma marca do jogador brasileiro fora do Brasil, por mais que isso seja exagerado e hipócrita. E fico ainda mais puto quando um jogador faz isso numa Copa do Mundo, só pra confirmar o estereótipo.

“Fred fez o papel dele”, alguém escreveu. E eu que achei que o papel dele fosse fazer gols…