Quando o Real Madrid quebrou a banca para contratar Gareth Bale, queria o pacote completo que via no Tottenham. As arrancadas fulminantes pela lateral, o craque que não sentia o peso da responsabilidade, a peça versátil que se encaixaria em diferentes posições do ataque. E também os seus petardos. Na Premier League 2012/13, quatro gols do galês vieram em bombas de fora da área. Já pelo Real Madrid, foram 26 jogos para que enchesse o pé e finalmente acertasse a pontaria. Um golaço, importante não apenas para a vitória por 3 a 0 sobre o Elche, que garante o time no topo da tabela, mas também para a própria afirmação do camisa 11 no Santiago Bernabéu.

Independente da fortuna que Florentino Pérez pagou por sua contratação, Bale entrou em rota de colisão com a torcida do Real Madrid. Afinal, quando Cristiano Ronaldo voltar do gancho de três jogos que pegou, será o galês ou Jesé Rodríguez na equipe titular. E os merengues não fazem questão nenhum de esconder a preferência por seu canterano – ainda mais quando a escassez de pratas da casa dura anos. O garoto é o candidato a ocupar o lugar de queridinho que foi cativo de Raúl durante tanto tempo. E Bale é um intruso nessa história.

Em uma mera chance perdida quando o jogo ainda estava 0 a 0, o camisa 11 chegou a ser vaiado pelo Bernabéu após um desarme sofrido. De novo, depois, em um chute errado. Uma impaciência que, na verdade, é puro protecionismo a Jesé. Mas, depois de 70 minutos de jogo em que nenhum dos dois foi brilhante, Bale teve seu lampejo: um chute voraz da intermediária, que lembrou um pouco aquele na última temporada, contra o West Ham. Desde que tinha chegado a Madri, até marcou gols de longe, mas sempre cobrando faltas. Desta vez, foi um tento puro, com sua marca. Isco e Illarramendi foram os outros do time a construírem a vitória.

Bale não vem tão mal assim no Real Madrid para ser vaiado. Não vive a mesma fase de novembro, quando fez oito gols e serviu seis assistências em sete jogos. Mas tem participado da criação ofensiva do time de Carlo Ancelotti, com três gols e quatro assistências em 11 jogos desde o início do ano. Enquanto isso, Jesé tem cinco gols e uma assistência nos últimos seis jogos, quando tem se destacado também por chamar a responsabilidade nos momentos decisivos. Um trunfo que Bale não tem.

É difícil cravar quem será o dono absoluto da titularidade com a volta de Cristiano Ronaldo. Pode até ser que os dois se revezem, considerando a maratona que o Real Madrid terá pela frente. E, se os dois tiverem mesmo empenhados a mostrar serviço, são os próprios merengues quem mais ganham com isso – ainda que parte da torcida insista em torcer o nariz para Bale.