Há uma máxima no Rio Grande do Sul que afirma: Grêmio e Internacional nunca estão no topo ao mesmo tempo. Em boa parte da história centenária do Gre-Nal, a afirmação faz todo sentido. No entanto, sempre é possível encontrar uma exceção. E não dá para ignorar a competitividade que se criou na virada dos anos 1970 para os anos 1980. Enquanto os colorados viam o fim do time tricampeão brasileiro, os gremistas viam nascer o futuro melhor do mundo. E a transição deixou eternizados grandes jogos e ótimas histórias.

TEMA DA SEMANA: O que acontece quando dois rivais estão no auge ao mesmo tempo

Por mais que o Internacional se encaminhasse para o seu terceiro título nacional, foi no intervalo que os tricolores conseguiram quebrar a hegemonia dos rivais no Campeonato Gaúcho. E, na época em que o Grêmio ultrapassava as fronteiras do país, os colorados aproveitavam para dominar o Rio Grande. Obviamente, a diferença na grandeza dos feitos, de ambas as partes era imensa. Mas em um clássico intenso como é o Gre-Nal, não interessa perder nem mesmo no cara ou coroa da saída de jogo.

O histórico de uma rivalidade enorme

A própria origem se tornou um pressuposto para criar a rivalidade entre Grêmio e Inter. O time da colônia alemã contra aquele que justamente não queria se restringir a uma nacionalidade. Entretanto, a estruturação gremista quando os colorados surgiram criou uma hegemonia inicial nos clássicos. A vitória dos tricolores por 10 a 0 no primeiro confronto é o sinal mais claro desta diferença, que precisou de um bom tempo para se reduzir. A primeira vitória dos colorados aconteceu em 1913, ano do primeiro título do clube. A partir de então, a disputa entre ambos pelo Campeonato Citadino de Porto Alegre se tornou intensa.

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O Gre-Nal se expandiu com o início do Campeonato Gaúcho, alternando grandes momentos dos gigantes. Nos anos 1940, o Inter tornou célebre o Rolo Compressor, que dominou o estadual por seis anos consecutivos, em uma supremacia que se manteve até a metade da década seguinte. Tempos de Tesourinha, Nena, Carlitos e outros grandes craques. Abertos a jogadores negros, os colorados conseguiam captar mais talentos e se impor sobre os rivais. Apenas quando houve uma abertura maior no Grêmio, em uma época na qual os rivais perdiam suas melhores gerações, é que houve uma inversão de papeis. O Tricolor passou à dianteira e levantou o caneco em 12 vezes de 1956 a 1968, em época estrelada por Alcindo.

Naquele momento, todavia, o cenário começava a mudar. O Gauchão não era mais o limite de sucesso, com a criação da Taça Brasil. Apesar da força local, o Grêmio não conseguia competir nacionalmente com Santos, Botafogo, Palmeiras, Cruzeiro e os outros grandes times da época. Somente depois da criação da Taça Roberto Gomes Pedrosa, em 1967, é que os gaúchos começaram a vislumbrar o topo do país. Nas duas primeiras edições, o Internacional acabou com o vice-campeonato, mesmo longe de viver um bom momento no Rio Grande. Uma prévia do que aconteceria nos anos seguintes, especialmente com a criação do Brasileirão.

O sucesso do Inter e a gana do Grêmio

A partir de 1969, os gremistas amargaram a década mais difícil do clássico. Por mais que alguns craques despontassem com a camisa tricolor, o predomínio irrefutável era do Inter. Foram oito títulos consecutivos no Campeonato Gaúcho. Oito vezes em que os gremistas acabaram com o segundo lugar. Uma fase que finalmente transcendeu os limites estaduais, para colocar os colorados como os melhores do país.

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O esquadrão de Rubens Minelli ajudou a revolucionar o futebol brasileiro. Em tempos nos quais a Holanda de Cruyff surgia como grande referência, os colorados também deram suas contribuições táticas, especialmente no meio-campo de Falcão e Carpegiani. Força convertida nos dois primeiros títulos nacionais do clube, com o bicampeonato do Brasileirão em 1975 e 1976. Enquanto isso, os gremistas não demonstravam potencial suficiente nas fases finais.

E tão ruim quanto ver o sucesso dos rivais era também sofrer contra eles no clássico. De outubro de 1971 a julho de 1975, o Internacional conseguiu estabelecer a maior sequência invicta da história do Gre-Nal. Os colorados passaram 17 partidas sem saber o que era derrota diante do Tricolor. Ao longo do octacampeonato, os gremistas venceram apenas quatro dos 40 clássicos que disputaram. Só a partir da chegada de Telê Santana no Olímpico é que a equipe passou a sonhar com um futuro diferente.

A cambalhota inesquecível

É difícil chegar ao topo, e pior ainda se manter nele. O ano de 1977 marcou uma transição no Beira-Rio, com parte dos bicampeões brasileiros deixando o clube. Temporada de intensa no Gre-Nal. Os arqui-inimigos se cruzaram sete vezes pelo Campeonato Gaúcho, além de outra no Brasileirão. Embora tivesse encerrado o jejum, o Grêmio ainda apresentava muitas dificuldades nos clássicos até então. Foi quando a sorte começou a mudar para os tricolores. Os bons sinais surgiram logo em abril, quando Alcindo retornou ao time e o Tricolor enfiou 3 a 0 em cima dos rivais. Já na sequência do estadual foram duas derrotas, um empate e três vitórias, que aconteceram justamente às vésperas do jogo-desempate que decidira o título. A chance de não amargar o vice pela nona vez.

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Aquela partida entrou para o folclore. O gol de André Catimba é visto e revisto pelos gremistas como um momento enorme, a maior libertação que o clube já havia vivido. Tornou-se um rito de passagem. Não que o Inter entraria em declínio a partir daquela derrota. O Grêmio, no entanto, estava pronto para ascender. Em meio à comemoração do título, o Tricolor emendou a maior sequência de vitórias do Gre-Nal, batendo seis vezes seguidas nos rivais. A maior surra aconteceu no confronto pelo Brasileirão de 1977, quando Iúra e Tarciso comandaram a goleada por 4 a 0. Naquele dia, o Inter havia estreado uma combinação de uniforme toda vermelha. Que acabou aposentada logo após o apito final.

As mudanças no Inter e a ascensão do Grêmio tornaram os clássicos mais parelhos a partir daquele momento. Os colorados recuperaram a taça estadual em 1978, com Valdomiro brilhando no Gre-Nal decisivo, enquanto o Grêmio buscou o bicampeonato nos dois anos seguintes. A resposta no Beira-Rio, contudo, não poderia ser melhor: o time levantou a taça do Brasileiro pela terceira vez em 1979, e de maneira invicta. Para no ano seguinte não conquistar a Libertadores por muito pouco, caindo no Estádio Centenário para o Nacional, no segundo jogo da finalíssima.

O adeus de Falcão e a explosão de Renato

A venda de Falcão à Roma aconteceu justamente depois daquele vice-campeonato. E simbolizou mais um rompimento na história dos rivais. Por mais que o Inter seguisse montando times competitivos, só tinha forças o suficiente para conquistar o Rio Grande. Enquanto o Grêmio, que apanhava dentro do estado, ganhou força para conquistar o Brasil, as Américas e o Mundo logo na sequência.

O domínio do clássico no início da década de 1980 era do Internacional. O que pouco importava aos gremistas, que só cruzavam com os rivais no Gauchão. Ênio Andrade mudou de cores e, em 1981, levou o time de Tarciso, Baltazar, Paulo Isidoro, De León e Leão ao título brasileiro. Na decisão, duas vitórias incontestáveis sobre o São Paulo. E o bicampeonato escaparia pelo meio dos dedos no ano seguinte, com o Tricolor derrotado pelo Flamengo apenas no terceiro jogo das finais. De qualquer forma, o vice garantia um lugar na Libertadores do ano seguinte. A passagem para a felicidade.

Líder do grupo que reunia Flamengo, Bolívar e Blooming, o Grêmio superou Estudiantes e América de Cali no triangular semifinal. Para cruzar com a pesada camisa do Peñarol na decisão. O empate por 1 a 1 no Centenário foi fundamental, abrindo o caminho para a conquista. Dentro do Olímpico, 73 mil pessoas viram Caio e César garantirem a vitória por 2 a 1, suficiente para a celebração. A grande conquista que os rivais não tinha conseguido, complementada em dezembro, no Japão.

O Hamburgo sustentava um momento sensacional na Alemanha, estabelecendo o recorde de invencibilidade no país, e tinha desbancado a Champions sobre a poderosa Juventus de Platini. Só não tinha conhecimento da qualidade do garoto Renato (que, depois virou Gaúcho ou Portaluppi, dependendo da região do país). O atacante abriu o placar e, apesar do empate de Schröder no fim do tempo normal, brilhou na prorrogação. Os gremistas se intitulavam os melhores do mundo, na mesma época em que os colorados precisavam se contentar com o tricampeonato estadual. A imponência sobre os rivais dentro do estado, naquele momento, significava pouco.

O jogo das faixas e a quebra do momento

Para elevar o moral, restou ao Internacional desafiar o Grêmio para um amistoso em janeiro de 1984. O Gre-Nal das faixas, em que os tricolores receberiam as honras pelo mundial e os colorados seriam parabenizados pelo estadual. Uma chance também do Inter dizer que mandava mesmo dentro de Porto Alegre, com declarações do zagueiro Mauro Galvão minimizando os rivais.

A atitude, porém, não foi das mais sábias, ainda mais com a fase vivida por Renato. O atacante respondeu dentro de campo e comandou a vitória por 4 a 2, em que os gremistas chegaram a abrir quatro gols de vantagem. Mário Sérgio, que havia se transferido do Olímpico para o Beira-Rio às vésperas daquele amistoso, amargou a derrota. Mas não ficou na bronca, como Mauro Galvão, que ainda precisou aturar as provocações de Renato.

Apesar de seu potencial, o Grêmio não conseguiu o bicampeonato da Libertadores, parando na decisão contra o Independiente. O Internacional, por sua vez, faturou o tetracampeonato gaúcho. Mas os meados da década de 1980 limitaram outra vez a dupla Gre-Nal às fronteiras do Rio Grande do Sul. Renato se contentou com um bicampeonato gaúcho antes de partir, enquanto o Inter só voltaria a brigar pelo Brasileirão com uma nova geração, estrelada por Taffarel, em 1987. A pausa para o Gre-Nal do Século e novos capítulos de uma rivalidade acirradíssima, mas sem a mesma quantidade de glórias.

Os títulos da dupla entre 1977-84

Títulos do Grêmio: Mundial Interclubes 1983; Libertadores 1983; Campeonato Brasileiro 1981; Campeonato Gaúcho 1977, 1979, 1980
Títulos do Internacional: Campeonato Brasileiro 1979; Campeonato Gaúcho 1978, 1981, 1982, 1983, 1984

O grande momento do Grêmio

A cena é emblemática. Hugo De León, com a cabeça ensanguentada, ergue a taça da Libertadores. A vitória sobre o Peñarol na decisão tornou o Grêmio o primeiro clube gaúcho a conquistar as Américas. E o Tricolor foi muito além, ao se consagrar também no Japão, com Renato anotando os dois gols na vitória sobre o forte Hamburgo. Ainda hoje, a maior conquista vivida pelos gremistas. E que por anos serviu para se tirar sarro dos colorados, que só ultrapassariam as fronteiras nacionais em 2006.

O grande momento do Internacional

O time de 1979 pode não ter sido o melhor do Inter. Mesmo assim, ela marcou o tricampeonato nacional do colorado. Um feito que nenhum time havia conquistado até então (ao menos no torneio iniciado em 1971) e que sequer conseguiu ser repetido no Beira-Rio desde então. A equipe treinada por Ênio Andrade bateu o Vasco nos dois jogos da decisão, completando a excelente campanha que já tinha deixado para trás Grêmio, Cruzeiro, Atlético Mineiro e Palmeiras – em jogos marcantes nas semifinais. Ainda hoje, o único campeão invicto do Brasileirão, acumulando 16 vitórias e sete empates.

O craque gremista

O Grêmio já contava com uma equipe muito forte nos anos 1980 quando o futuro astro começou a despontar. Renato foi trazido do Esportivo para as categorias de base, mas a pouca idade não o impediu de assumir o protagonismo no time principal. E precisou de pouco tempo para se consagrar como um dos maiores ídolos da história do Olímpico. Aos 21 anos, o atacante que combinava muita técnica e capacidade física brilhou na conquista da Libertadores e do Mundial Interclubes. Por mais que os anos seguintes não tenham contado com outros títulos tão expressivos, a sua importância já havia sido dimensionada em 1983.

O craque colorado

Os títulos mais importantes do Internacional não foram conquistados por Falcão. Não é isso que faz questionar a década de 1970 como período áureo dos colorados, quando o craque ditou o ritmo do meio-campo e impulsionou o time na conquista de três Brasileiros, além de participar de boa parte do octacampeonato gaúcho. Sua venda para a Roma marcou o fim de uma era no Beira-Rio, e em muito explica a falta de melhores resultados nas competições nacionais durante o início dos anos 1980. A despedida foi justamente com a perda daquela que passaria a ser obsessão nos anos seguintes: a Libertadores, com a derrota para o Nacional na decisão de 1980.

O carrasco gremista

O gol de André Catimba não decidiu o Mundial Interclubes ou a Libertadores. Entretanto, a conquista do Gauchão de 1977 tem o peso de um dos maiores títulos do Grêmio, por lavar a alma tricolor após oito anos consecutivos de domínio do Inter no estadual. O tiro certeiro após o passe de Iúra terminou em comemoração desastrada, mas garantiu a vitória por 1 a 0, suficiente para encerrar o jejum dos gremistas. E, embora tenha passado apenas dois anos no Olímpico, marcou outros três gols no clássico.

O carrasco colorado

Geraldão pode não ser lembrado por todos os torcedores do Internacional, principalmente os mais jovens. No entanto, o centroavante deixou sua marca na breve passagem pelo Beira-Rio. Afinal, o veterano tinha sido dispensado pelo Grêmio e fez questão de acabar com o ex-clube na decisão do Gauchão de 1982, que deu o bicampeonato aos colorados. Prometendo muitos gols com a camisa alvirrubra, o atacante trombador acabou como artilheiro da equipe na campanha e anotou os cinco tentos do Inter nas finais. Vitórias por 3 a 1 e 2 a 0, que o colocaram como grande nome daquela campanha.

Os números de 1977-84

10 vitórias do Grêmio
19 empates
15 vitórias do Internacional