Uma das cenas mais legais da Copa do Mundo aconteceu neste domingo, em Nizhny Novgorod. Kasper Schmeichel encarou Luka Modric a 11 metros de distância e realizou um milagre durante o final do segundo tempo da prorrogação, ao pegar um pênalti e dar sobrevida à Dinamarca no duelo contra a Croácia. Seu maior torcedor estava nas arquibancadas e logo foi exibido pela transmissão oficial da Fifa. Seu pai, Peter Schmeichel, vibrou demais. Não escondia o orgulho e a euforia por ver o herdeiro triunfando na Copa do Mundo. Depois, comemoraria ainda mais duas defesas do rebento na disputa por pênaltis. Só não teria a satisfação de vê-lo avançar no Mundial, com Danijel Subasic pegando três chutes e permitindo que os croatas dessem um passo adiante.

Peter e Kasper nunca esconderam o carinho entre pai e filho. As imagens são muitas, desde os tempos em que o garotinho servia de mascote ao craque de luvas. O amor permanece claro na Copa do Mundo, em outros momentos também antes do jogo em Nizhny Novgorod, com o veterano escancarando o prazer de ver o “seu garoto” seguindo os passos no mais alto nível. No entanto, isso não significa que ambos permitam as comparações.

Apesar das similaridades no estilo e na qualidade, Peter e Kasper preferem distanciar suas histórias dentro de campo. Durante a caminhada histórica do Leicester rumo ao título da Premier League, pai e filho jantavam quando um fã chegou e disse ao veterano: “Você é uma lenda, amigo. Seu filho está se saindo bem, mas nunca será tão bom quanto você”. Peter respondeu: “Só vai embora. Você vem aqui, insulta meu filho e acha que vai ficar por isso mesmo?”. Kasper, por sua vez, não esconde a irritação quando é perguntado sobre o pai – e isso acontece com frequência, principalmente em sua primeira Copa. Às vésperas do jogo contra a Croácia, por exemplo, um jornalista insistiu em perguntar sobre o golaço que Davor Suker anotou em Peter durante a Euro 1996. O camisa 1 escandinavo se recusou a falar sobre o assunto.

Não quer dizer que ambos não se admirem. Quando era criança, Kasper costumava acompanhar Peter nos treinos com o Manchester United e com a seleção dinamarquesa. Caminhava pelos corredores de Old Trafford e participava dos desfiles em carro aberto nas diversas vezes em que o pai se sagrava campeão. Enquanto os jogos aconteciam no Teatro dos Sonhos, o menino costumava ficar atrás do gol, tentando salvar as bolas que iam para fora, imaginando que decidia o título aos Red Devils. A idolatria de Peter, entretanto, não foi apenas benéfica ao menino. Em certo momento, por sequer poder sair na rua com seu velho, Kasper pegou raiva do futebol. Só reencontrou prazer quando a família se mudou a Portugal. Enquanto o veterano defendia o Sporting, o adolescente dava seus primeiros passos no Estoril. Vivendo o ambiente do esporte por dentro, retomou o gosto. Em casa, recebia dicas valiosas.

Peter e Kasper foram juntos para o Manchester City, onde o velho ídolo encerrou sua carreira e a promessa se tornou profissional – mas só aceito depois de um rigoroso teste aos 15 anos. A partir de então, o pai deixou o filho seguir seu próprio caminho e, segundo já confessaram em entrevistas, mal falam de futebol quando se encontram. Ainda assim, cada um sabe o que o outro representa. Os dois têm os seus títulos nacionais, os dois têm suas grandes temporadas na Champions, os dois são protagonistas de epopeias inimagináveis – espetaculares na Euro 1992 e na Premier League 2015/16. Agora, os dois têm uma Copa do Mundo para ser recontada à família. Kasper, ainda mais brilhante do que Peter em 1998. Mas por que comparar? Ambos são heróis da seleção. É a felicidade que compartilham.

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