Uma espanholização desejada: Real Madrid em busca da Decimotercera é cada vez mais espanhol

A busca por La Décima demorou 12 anos. De 2002 a 2014, o Real Madrid sonhou com a taça europeia, passando por times cheios de estrelas, mas que insistia em falhar. Mais do que isso: por seis temporadas seguidas, o time caiu nas oitavas de final, algo que se tornou uma maldição a cada temporada. Na última dessas já com Cristiano Ronaldo no elenco (além de Kaká, outra badalada contratação daquela temporada 2009/10). Quando o título finalmente veio, em 2013/14, a conquista se tornou histórica e a pressão diminuiu, ainda mais pela sequência dominante – desde 2010/11, os merengues são semifinalistas todos os anos. A partir da conquista, um novo objetivo, que se tornou mais importante com o passar dos anos: ser um time mais espanhol.

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Naquele ano de 2014, houve a Copa do Mundo no Brasil. A Espanha tinha sete jogadores do Barcelona, a base do time: Gerard Piqué, Andrés Iniesta, Xavi, Cesc Fàbregas, Pedro e Sergio Busquets todos jogadores importantes. Depois de Pep Guardiola ter assumido o comando do Barcelona, o time se tornou fornecedor de muitos jogadores da seleção espanhola, levando inclusive a comparação do toque de bola da Espanha campeã europeia em 2008 com o Barcelona de Guardiola (2008-2012). O estilo dos dois times por vezes se confundia, ainda que com diferenças. Por isso, havia uma demanda para que o Real Madrid tivesse mais jogadores de destaque espanhóis. E, aos poucos, o time partiu por esse caminho.

Naquela final de 2014, o Real Madrid começou com três espanhóis entre os titulares: Iker Casillas, Dani Carvajal e Sergio Ramos. Durante o jogo, entraram outros dois: Isco e Álvaro Morata. O Atlético de Madrid finalista naquele dia tinha seis espanhóis entre os titulares e outro ainda entrou durante a partida. Voltar a ser campeão europeu foi muito importante para o Real Madrid. La Décima foi um sonho de muitos anos. Mas ser mais espanhol era algo também importante, simbolicamente. Mas como equilibrar isso em um time que gosta tanto de contratações badaladas e que tem no marketing uma arma importante para ser do tamanho que é?

Só que a temporada seguinte teve contratações que não seguiram essa linha espalhafatosa que acostumamos a ver, com galácticos. Depois de boa Copa do Mundo, James Rodríguez desembarcou em Madri por € 75 milhões, acompanhado por um destaque da seleção alemã campeã do mundo, Toni Kroos, por € 25 milhões. Outro destaque da Copa, Keylor Navas, da Costa Rica, foi contratado por € 10 milhões. Ao final daquela temporada, o Real Madrid demitiu Ancelotti, depois de cair nas oitavas de final da Copa do Rei, na semifinal da Champions League e terminar a liga em segundo lugar. Tudo isso somado ao fato do Barcelona, o rival, ter conquistado a tríplice coroa, com Copa, Champions e liga. Seria mais uma dominação do rival catalão? Mais um motivo para ser mais espanhol e mais forte, ao mesmo tempo.

E quem foi contratado para o lugar de Ancelotti? Rafa Benítez, um treinador espanhol, cria do Real Madrid. De tempos em tempos, o Real Madrid aposta em um treinador espanhol justamente por esse desejo de ser um time mais nacional, mais espanhol, de ter uma identidade nesse sentido também. O projeto de espanholização ganhou traços mais fortes com Benítez. Até simbólicos. Era o sonho do treinador, que tinha trabalhado na base do clube, e ajudava no projeto de tornar o time mais nacional. A missão, porém, não é fácil.

Sergio Ramos com a bandeira da Espanha com o símbolo do Real Madrid (Photo by Aitor Alcalde/Getty Images)

As contratações foram por esse caminho. O reforço mais caro foi Danilo, lateral direito brasileiro, que chegou por € 31,5 milhões. Chegou também Mateo Kovacic, por € 31 milhões. E chegaram jovens jogadores espanhóis, como Jesús Vallejo, de 18 anos, que veio do Zaragoza por € 5 milhões; Marco Asensio, ponta de 19 anos que veio do Mallorca por € 3,5 milhões; e Lucas Vázquez, ponta que veio do Espanhol aos 24 anos por € 1 milhão. Casemiro também voltou ao clube, depois de uma temporada emprestado ao Porto. Vallejo e Asensio foram emprestados para ganhar experiência no Zaragoza e no Espanyol, respectivamente.

Com Rafa Benítez, o time não decolou. O treinador foi demitido no dia 4 de janeiro, substituído por Zinedine Zidane, que já tinha sido treinador do time Castilla e também auxiliar técnico de Carlo Ancelotti. Ele levou o time até o final da temporada ganhando o título da Champions League, batendo o Atlético de Madrid mais uma vez, assim como em 2013/14, desta vez nos pênaltis. Mais uma vez, porém, eram poucos espanhóis titulares do time. Só Dani Carvajal e Sergio Ramos começaram a partida, com Lucas Vázquez e Isco entrando no segundo tempo.

Com Zidane, a política de contratações manteve uma linha de mudanças sutis, sem grandes nomes chegando. Asensio voltou de empréstimo e foi imediatamente incorporado ao elenco principal, ganhando chances já no começo da campanha. Álvaro Morata foi trazido de volta depois da boa temporada na Juventus, reforçando o banco de reservas.

Desta vez, Zidane conseguiu um título que era muito esperado: a liga espanhola. E fez isso usando muito o seu bom banco de reservas, repleto de espanhóis. Jogadores como Kiko Casilla, o goleiro reserva, Nacho, Asensio e Morata foram essenciais para o time chegar à conquista. Na final da Champions League, mais uma vitória, desta vez contra a Juventus. Três espanhóis foram titulares: Dani Carvajal e Sergio Ramos, como nos anos anteriores, e Isco, outro presente em todas as conquistas, mas desta vez como titular.

Em 2017/18, a campanha na liga espanhola não foi grande coisa, tanto que o Real Madrid terminou em terceiro lugar na tabela, algo raro de acontecer. A eliminação na Copa do Rei doeu e balançou Zidane, que teve na Champions League a sua linha de salvação. As atuações nem sempre brilhantes, mas sempre enormes, levaram o time mais uma vez à decisão. E os espanhóis do elenco ganharam importância na campanha. O clube venceu uma disputa acirrada com o Barcelona para trazer um destaque da seleção espanhola sub-21, Dani Ceballos, que brilhava como camisa 10 do Betis e chegou a Chamartín por € 16,5 milhões. E chegou cercado de expectativas.

Bandeira do Real Madrid com a bandeira espanhola (Photo by Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images)

Curiosamente, uma das cobranças que se faz a Zidane é sobre a pouca utilização de Dani Ceballos, que nunca teve tantos minutos do time principal do Real Madrid. Com apenas 20 anos de idade, é uma promessa do futebol espanhol e capaz de ser um destaque nos anos que virão. O meia parece ter paciência de saber que precisa esperar o seu lugar, tal qual fizeram Lucas Vázquez e, de outra forma, Asensio, que foi até emprestado antes de ser um jogador mais constantemente utilizado.

Na reserva, o atacante Borja Mayoral se tornou uma peça eventualmente escalada, mas longe de ter o papel que exercia Morata. Mesmo assim, foi mais um espanhol no elenco, assim como o volante Marcos Llorente, trazido de volta de empréstimo e, assim como Mayoral, entrando apenas em jogos menores quando o técnico rodou o elenco. O atacante, inclusive, parece inclinado a deixar o clube para voltar a ganhar minutos, vendo que, diferente de Morata, ele não é uma peça realmente importante do time. Mas outros espanhóis se tornaram as primeiras opções de Zidane para transformar o time taticamente.

No primeiro jogo do mata-mata contra o Paris Saint-Germain, nas oitavas de final, a vitória por 3 a 1 conquistada no final do jogo teve muitos espanhóis em campo: Nacho na lateral, Sergio Ramos na zaga, Isco como meia, e Asensio e Lucas Vázquez entrando para serem absolutamente decisivos no jogo. Tanto foram bem que no jogo de volta Asensio e Vázquez foram titulares, assim como os compatriotas Carvajal e Sergio Ramos. Na semifinal contra o Bayern, quatro espanhóis como titulares (Carvajal, Ramos, Vázquez e Isco). Asensio entrou no segundo tempo e foi decisivo: marcou o segundo gol na vitória por 2 a 1. Na volta, Asensio foi o titular, ao lado de Vázzquez e Ramos. Nacho entrou no segundo tempo.

Uma das dúvidas para a final contra o Liverpool em Kiev neste sábado é justamente quem começa jogando. Dani Carvajal e Sergio Ramos serão titulares, certamente. Isco é muito provável que comece jogando, mais uma vez. Asensio e Lucas Vázquez correm por fora por uma vaga no time titular. Os dois, porém, são boas apostas para entrar na segunda etapa da partida.

Depois de quatro anos da conquista de La Décima e que semanas depois a Espanha foi para a Copa do Mundo no Brasil com a base do Barcelona, desta vez será diferente. O Real Madrid finalista é a base da Espanha com seis jogadores nos 23 de Julen Lopetegui: Sergio Ramos, Dani Carvajal, Nacho, Isco, Marco Asensio e Lucas Vázquez. O Barcelona tem quatro jogadores no elenco.

Se esperava que Dani Ceballos tivesse mais espaço no Real Madrid, que é um jogador com potencial para seleção espanhola nos próximos anos, mas mesmo sem ele, há muitos jogadores espanhóis relevantes. Lucas Vázquez é um jogador que chegou sem nenhum alarde e se tornou uma peça bastante útil e importante de Zidane. Asensio era uma promessa e se tornou uma realidade, a ponto de brigar por titularidade até na seleção espanhola pelas capacidades que mostrou. Isco tem sido brilhante na seleção espanhol e tem tudo para ser o titular.

Seja ou não campeão, o Real Madrid finalista da Champions League ganhou mais espanhóis relevantes no seu elenco, equilibrando o banco de reservas e com jogadores que começam a pedir passagem. No elenco atual, Asensio é um jogador mais em alta que Gareth Bale, por exemplo, ainda que o galês chegue a esse último jogo da temporada em alta. Lucas Vázquez ganhou moral, foi versátil e muito importante.

O Real Madrid tem sempre a pressão de ser o maior clube do mundo e, por isso, contratar craques internacionais é uma política muito utilizada por Florentino Pérez. Ter muitos jogadores espanhóis relevantes, e não só que componham elenco, é também simbolicamente importante. Em um momento que a Espanha vive o separatismo catalão, ser um time espanhol com importantes jogadores espanhóis importa também. Vejamos se o resultado contra o Liverpool irá aumentar essa política ou interrompê-la. O que podemos dizer é que O Real Madrid de 2018 tem mais espanhóis relevantes que o Real Madrid de 2014. E isso já é um avanço para quem queria ter mais identidade espanhola.

Jogadores do Real Madrid comemoram conquista da champions com bandeira da Espanha (Photo by Denis Doyle/Getty Images)