*Por Joana Bueno, jornalista e dona do Camisa 14

Hoje em dia é difícil acreditar que uma pequena nação de cerca de oito milhões de habitantes encravada entre montanhas no centro da Europa já foi um dia o Império Austro-Húngaro. Da mesma forma que é difícil crer que o país que não se classifica para uma Copa há 20 anos já teve a melhor seleção do mundo. O futebol da Áustria, que nos proporcionou o Wunderteam nos anos de 1930, hoje agoniza na periferia da Europa. Mas ainda consegue, vez ou outra, presentear os torcedores austríacos com um bonito espetáculo, dentro e fora de campo.

Na última quarta-feira Sturm Graz e Red Bull Salzburg se encontraram no Wörtherseestadion, em Klagenfurt, para decidir a Copa da Áustria, e a torcida alvinegra deu um show na arquibancada, empurrando seu time rumo à sofrida vitória por 1 a 0, na prorrogação, sobre o recém-consagrado pentacampeão nacional.

Desde a manhã a pacata Klagenfurt, cidade de pouco menos de 100 mil habitantes no Sul da Áustria, se viu invadida pela torcida do Sturm Graz. À noite, os Sturmistas eram esmagadora maioria dos 27.100 torcedores que quase lotaram o belo e subaproveitado Wörtherseestadion. Reconstruído para a Euro 2008, o complexo esportivo que leva o nome do lago protagonista de Klagenfurt, Wörthersee, está acostumado a receber um máximo de 10 mil pessoas por partida do time local, SK Austria Klagenfurt, atualmente na Liga Regional Central, equivalente à terceira divisão austríaca. Com o show dos ultras do Sturm Graz no setor Sul, o estádio literalmente tremeu.

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E a empolgação na arquibancada contagiou o time. Ou então foi a sede de vingança da goleada de 4 a 1 sofrida três dias antes, em Salzburgo, que garantiu o título da Bundesliga ao Red Bull – e o vice-campeonato ao Sturm. Ou ainda a ressaca dos campeões. Fato é que o Sturm foi muito superior ao rival, mesmo que, apesar de ter sobrado vontade e velocidade, o forte do jogo não tenha sido a qualidade técnica.

A vitória, porém, só veio na prorrogação. Se no tempo regulamentar duas grandes chances de bola aérea pararam nas mãos do goleiro Stankovic, no tempo extra, com um jogador a mais depois da expulsão do brasileiro André Ramalho, o Sturm finalmente acertou a rede com uma bela cabeçada do meia Stefan Hierländer. Um justo prêmio para o melhor jogador da partida.

Se a torcida alvinegra já fazia um belo espetáculo, nos oito minutos entre o gol e o apito final o estádio inteiro ficou de pé, cantando, a espera do momento de levantar a primeira taça do Sturm Graz em sete anos, e a quinta da Copa da Áustria. Extasiados, dezenas de torcedores invadiram o campo após o fim do jogo para celebrar junto com os jogadores. E, mesmo depois de serem retirados por seguranças, vários voltaram após a taça ser entregue. A essa altura, a segurança já havia desistido de mantê-los longe do campo, o que deu um aspecto de familiaridade ao evento.

Em um pequeno país, em uma pequena cidade como Graz (quase 300 mil habitantes e mesmo assim a segunda maior da Áustria), torcedores fieis são praticamente parte do time. Além disso, diversos jogadores subiram na arquibancada para abraçar amigos e familiares. E a nota de destaque fica para o autor do gol do título. Enquanto seus companheiros ou corriam pelo campo com suas medalhas e a taça, ou celebravam com entes queridos nas tribunas, Hierländer foi à área de deficientes do Wörtherseestadion e tirou foto com todos os cadeirantes que ainda estavam presentes.

A essa altura, as poucas centenas de torcedores do Salzburg que haviam viajado a Klagenfurt já estavam na estrada de volta para casa. O investimento da Red Bull no esporte de seu país de origem certamente traz muito benefícios, e é claro que a força da equipe de futebol obriga os adversários a se reforçarem e aumenta o nível da pequena liga nacional, mas o aspecto comercial da equipe afastou muitos torcedores. Quando o SV Austria Salzburg foi comprado pela Red Bull e teve seu escudo e cores modificados, alguns fãs fundaram uma nova equipe com o nome da original, e em campo, ainda que o time pentacampeão seja superior aos rivais, falta na arquibancada a paixão que sobra entre os tradicionais Sturm Graz, Austria Viena, Rapid Viena e outros. Por outro lado, foi possível ver muitos pequenos torcedores com cachecol do RB Salzburg acompanhados dos pais sturmistas, o que mostra que está se formando uma geração de torcedores “raiz” do time da fabricante de bebidas – fruto, é claro, do sucesso em campo.

Quando cheguei na Áustria e dizia às pessoas que era do Brasil, imediatamente, como acontece em qualquer lugar do mundo, elas falavam de futebol. Aqui, porém, sempre me diziam “Nós também amamos futebol. Só que a nossa seleção não é muito boa. É… Nada boa… Mas a gente gosta. Se bem que… A gente gosta mesmo é de esqui. É… Esqui é o verdadeiro esporte favorito do austríaco. Mas a gente gosta de futebol”. Quarta-feira, no entanto, o esqui ficou em segundo lugar.

Sobre a autora

Apaixonada por futebol desde 1981. Entusiasta de quase todos os outros esportes. Turista de estádios. Combinando a bola no pé e os dedos no teclado em seu próprio espaço.

Texto publicado originalmente no blog Camisa 14. Confira outros artigos de Joana Bueno na página.