Uma semana antes de a Copa do Mundo dar seu pontapé inicial em São Paulo, os metroviários entram em greve. A maior cidade do País ficou cinco dias sem um de seus principais sistemas de transporte. Falou-se muito que os grevistas (não apenas os metroviários, mas das tantas categorias que anunciaram paralisação nessas semanas pré-Copa) eram chantagistas.

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Para ouvir o outro lado, convidamos um colega de jornalismo esportivo que também é metroviário (sim, é isso mesmo) para contar de que forma a Copa influenciou ou não a decisão do setor. E, segundo, ele, ela teve e não teve. Como? Veja abaixo.

Sobre a Copa e direitos

Marcio Hasegava, jornalista e metroviário

Como vocês devem ter visto há alguns dias, eu e meus colegas entramos em greve na última semana, entre a quinta-feira, dia 5, e a última segunda, 9. Eu sei que muitos podem achar que a nossa paralisação – a maior desde a greve de 1986, quando a greve durou seis dias – teve a Copa como principal motivo. Posso dizer com tranquilidade que o Mundial passou longe de ser o fator mais relevante, mas é impossível negar que a Copa proporcionou o ambiente necessário para que nós levássemos essa briga tão longe – assim como tornou possível as Jornadas de Junho do ano passado e ainda vai ser relevante no futuro próximo de boa parte dos movimentos sociais no Brasil.

Por mais que algumas pessoas tentem negar, o futebol é um elemento fundamental na formação cultural de um brasileiro. O futebol, de certa maneira, dá uma solução para as injustiças da nossa sociedade: o campo talvez seja o único lugar neste país em que um pobre pode levar de fato vantagem sobre alguém mais rico.

Assim sendo, considero normal que a proximidade do Mundial catalise a discussão em torno de direitos e desigualdades. Para quem não se lembra, as Jornadas de Junho do ano passado atingiram seu ápice justamente durante a Copa das Confederações, evento-teste para a competição que começou nesta quinta. O futebol é tão parte do que é ser brasileiro que o simples fato de a Copa ser aqui faz com que nos questionemos enquanto sociedade. Esse questionamento explodiu em 2013 e seus efeitos estão sendo sentidos até agora. A greve dos garis do Rio, dos Rodoviários em várias capitais e a paralisação dos metroviários de São Paulo também são fruto disso.

A campanha salarial dos metroviários sempre acontece entre maio e junho. Ou seja, não fomos este momento para negociar o novo acordo coletivo não foi escolhido por causa da Copa: foi a Copa que bateu com a época do ano em que os metroviários sempre negociam a relação de trabalho. Não vou ser hipócrita aqui e afirmar que a categoria não levou em conta o Mundial durante a campanha. Tudo o que foi feito no país em 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede, teve a Copa como desculpa – se você acha que a gente é oportunista, pare para pensar quantas construtoras, políticos, empresários, clubes, veículos de comunicação etc. falaram em “passar vergonha na Copa” para conseguir mais liberação de verbas.

Nós achamos que o fato de São Paulo ser a cidade-sede da abertura poderia criar uma urgência ao Metrô (que pertence ao governo estadual), o que é diferente de dizer que usamos a Copa para colocar uma faca no pescoço da população – tom que vimos durante a semana. Aliás, a forma como governo, Metrô, polícia e boa parte da mídia colocaram o debate de forma que faz parecer que a luta dos trabalhadores não é legítima.

Greve é um direito constitucional e a única arma do trabalhador para conseguir efetivamente negociar com o patrão. Durante a campanha salarial, sentamos para conversar com um governo que se recusou a negociar e, quando paramos, não sentiu constrangimento em jogar a polícia sobre a gente e demitiu 42 pessoas por justa causa sem acusação alguma (lembre-se: greve é direito, não é crime). A Copa, que era para ser uma festa do povo, foi utilizada como argumento para criminalizar qualquer movimento operário, social, da juventude etc.

Enfim, nós metroviários sentimos pelo caos que se instalou na cidade por causa da nossa paralisação, mas não tínhamos escolha. Abrimos mão da maioria dos itens de nossa pauta durante a campanha e chegamos ao fim da greve tendo que reverter demissões injustas. Você entendeu contra quem estamos brigando? E não estou falando de partidos, mas de uma classe política que já deixou de ter a mínima ligação orgânica com sua base.

Na manhã de quinta, mesmo dia em que o Brasil estreou, uma manifestação em solidariedade aos 42 metroviários demitidos por conta da greve terminou por conta da truculência da polícia. Se você não se revolta contra isso agora, tudo bem. Mas talvez issoo atinja quando você precisar brigar por seus próprios direitos.

A Copa é sobre futebol. Mas falar em futebol no Brasil também significa discutir direitos. Espero que tenhamos um grande torneio, mas que nunca esqueçamos de falar sobre os problemas da nossa sociedade.