Mário Gobbi e Paulo Nobre se juntaram em um ato simbólico contra a violência

A união de Corinthians e Palmeiras precisa ser mais do que apenas uma entrevista coletiva

A inocência de toda criança confundiu Elisa. De tanto ouvir o seu tio falar do Palmeiras, depois de todo o trabalho que ele fez para que ela não torcesse para outro clube, a menina não sabia se poderia ser amiga de quem pensa diferente, veste preto ao invés do verde e idolatra jogadores com outros nomes.  Então, como toda criança, perguntou: “Tio, a gente pode fazer amizade com torcedores de outro time?”.

A resposta é tão óbvia que Paulo Nobre, tio de Elisa e presidente do Palmeiras, ficou surpreso. Respondeu de imediato que ela poderia ser amiga de absolutamente qualquer um. Nesta sexta-feira, ele se reuniu com o seu correspondente no Corinthians, Mário Gobbi, e os técnicos dos dois times, Gilson Kleina e Mano Menezes, para dizer aos marmanjos que ainda pensam com a cabeça de uma pessoa de dez anos que os torcedores do time rival não são inimigos e não merecem apanhar.

A iniciativa interessante das duas diretorias é o resultado de um contexto atribulado do futebol brasileiro e do próprio país. Os dois técnicos lembraram as manifestações recentes no Rio de Janeiro que terminaram com a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, acertado na cabeça por um rojão. Há duas semanas, torcedores organizados do Corinthians invadiram o CT Joaquim Grava para agredir jogadores, e, na manhã da última quinta-feira, houve confusão na venda de ingressos do Palmeiras para o dérbi do próximo domingo.

“Os acontecimentos mais recentes fizeram dirigentes, jogadores e todos que trabalham com o futebol tomarem uma atitude que não vai resolver, mas contribuir com a redução da violência”, disse Gobbi. “Não podemos ser ingênuos. Não pretendemos, com esse ato, resolver o problema da violência, mas queremos servir de exemplo”, acrescentou Nobre. “Rivalidade existe dentro de campo. Mário e eu somos amigos, mas eu quero ganhar dele no domingo. Depois, podemos sair e comer uma pizza. Espero que isso seja o primeiro passo de uma maratona”.

Não é. Para Nobre, é pelo menos o segundo. Porque, no ano passado, o ex-torcedor uniformizado, oriundo das arquibancadas, rompeu com as organizadas do Palmeiras quando uma delas agrediu o meia Valdivia, em um aeroporto na Argentina, e acertou o goleiro Fernando Prass. “A partir do rompimento, elas torcem, e nós dirigimos o clube. Elas precisam de independência para criticar a gestão”, ponderou. “Não tenho nada contra, fazem uma festa bonita. É uma minoria de maus elementos”.

A invasão do centro de treinamento não foi o primeiro episódio de violência que Gobbi presenciou. Em 2009, quando era diretor de futebol, uma cadeira pulou das mãos de um torcedor organizado e acertou o seu braço. Mesmo assim, ele reluta em seguir o exemplo do amigo com quem vai dividir uma pizza na noite do próximo domingo. “Em cada clube há uma situação específica”, explicou. “No Corinthians, temos uma relação de diálogo. O Corinthians não subsidia nada, não faz nada. Eles (organizados) sempre se dirigiram ao CT, a diretoria os recebeu e foi tudo em paz. São meia dúzia que não sabem se comportar. Continuamos com o diálogo, quando ultrapassar os limites do diálogo, não há mais diálogo”.

Foram bem mais de meia dúzia, mas os pontos principais são outros. Não foi a primeira, nem a segunda, muito a menos a 18ª vez que os torcedores do Corinthians se acharam no direito de ameaçar a integridade física dos jogadores. E os limites do diálogo devem ser bem extensos porque um esganamento não foi suficiente para ultrapassá-los.

Mesmo assim, Gobbi acerta ao se juntar ao presidente do rival para tentar dar o exemplo. Entre broncas a repórteres e apelos por controle de natalidade no Brasil, fez uma análise precisa de como o futebol deveria ser encarado. “Futebol é um jogo. Não é a vida de ninguém. Quem projeta a sua vida no futebol cometeu um erro primitivo”, disse.

Porque o futebol é alegria, picardia e, sim, provocação, dentro das bases do respeito e do bom senso. Gilson Kleina lembrou-se de quando havia apostas entre personagens dos clássicos paulistas. Os jogadores trocavam provocações, mas era uma época em que os nervos dos torcedores não estavam tão à flor da pele e havia um nível mínimo de compreensão para entender uma brincadeira. O que Mano Menezes não quer é que os atletas, em campo, fiquem inibidos de mostrar o talento que eles têm.

“Não podemos tornar o futebol algo tão chato”, disse, respondendo a uma pergunta sobre o chute no vácuo de Valdivia. “Se o Valdivia acha que chutar o vento traz algum benefício, mesmo que seja apenas provocar, nos desestabilizar, que faça. Nós que temos que lidar com isso”.

E é justamente esse bom senso que os presidentes e técnicos dos dois clubes tentaram colocar na cabeça dos torcedores que encaram o futebol como uma guerra, cujo único objetivo é matar e dizimar o inimigo. Pode ter sido apenas uma ação de marketing, tão cheia de simbolismo quanto vazia de atitude. Em 2009, eles também se juntaram para promover o dérbi e fizeram até um logotipo, mas a iniciativa não foi em frente. Essa entrevista coletiva foi melhor do que continuar olhando para o outro lado e tratando a violência como um efeito colateral inevitável.  Eles têm o restante dos 42 quilômetros da maratona à qual Nobre se referiu para provarem que falaram sério.