A defesa implacável contra o ataque arrasador. O futebol heavy metal, sempre em alto ritmo, de Jürgen Klopp versus o pragmatismo frio e controlado de José Mourinho. O grande clássico da Inglaterra entre Manchester United e Liverpool colocou em lados opostos dois estilos muito diferentes de pensar futebol e, ao fim dos 90 minutos, venceu o dos Red Devils. Com o talento de Rashford, os donos da casa fizeram 2 a 0. E com um empenho defensivo impressionante, anularam o potencial ofensivo dos adversários para segurar a vantagem que haviam construído e apenas um gol contra de Eric Bailly deu alguma chance para o Liverpool. Placar final: 2 a 1.

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A pergunta antes da partida era se o Manchester United, em Old Trafford, adotaria a mesma postura do confronto de Anfield, quando abdicou do ataque e foi criticado por não ter tido a ambição de vencer. Nunca teremos a resposta. Os donos da casa começaram um pouco recuados, sem marcação alta, mas fizeram 2 a 0 com 24 minutos de jogo e qualquer estratégia ficou condicionada pelos gols de Rashford. Não podemos acusar um clube que administra uma vantagem favorável de não querer vencer o jogo.

Klopp alertou, antes da partida, para a supremacia física de alguns jogadores do Manchester United, e certamente Romelu Lukaku é um deles. Talvez Lovren não tenha assistido à entrevista coletiva do seu treinador. Nas jogadas dos dois gols, o zagueiro tentou marcar o belga e foi subjulgado em ambas. Aos 14 minutos, Lukaku desviou o tiro de meta de De Gea para Rashford, que driblou Alexander-Arnold e acertou um lindo chute. Dez minutos depois, ele conseguiu o domínio e tocou para Mata. Van Dijk desviou para Rashford, que pegou de primeira e contou com um desvio no lateral direito para enganar Karius.

Não é de hoje que Rashford faz a diferença no talentoso ataque do Manchester United. Costuma entrar quando as coisas estão difíceis para o time de Mourinho e, apesar de não ser tão renomado quanto Lukaku ou Alexis Sánchez, alcança uma grande produção ofensiva. Ganhou de recompensa seu primeiro jogo como titular na Premier League desde o fim de dezembro e correspondeu com os dois gols que venceram o clássico para os Red Devils.

A defesa do Liverpool, criticada o tempo inteiro, estava em boa fase, vazada apenas uma vez nos últimos cinco jogos. E não havia muito que pudesse ter feito no primeiro gol de Rashford, muito bem construído pelo toque esperto de Lukaku e o drible do garoto inglês. No segundo, teve duas oportunidades para encerrar a jogada e não conseguiu. Logo em seguida, vacilou de novo, quando Sánchez cruzou para Mata, absolutamente livre. O meia espanhol tentou o golaço de meia bicicleta e mandou para fora. No restante da partida, o Liverpool foi seguro defensivamente.

Muito em função, também, de o Manchester United ter parado de atacar. Mas a questão é que, mesmo com a bola, o Liverpool não conseguiu criar. Teve duas cabeçadas perigosas de Van Dijk em escanteios, chutes fracos de média distância com Roberto Firmino e foi basicamente isso até o abafa dos minutos finais, quando Salah pegou uma bola quicando na grande área e mandou para fora. De Gea não precisou fazer nenhuma defesa difícil. Na verdade, fez apenas duas o jogo inteiro, ambas nas jogadas de Firmino.

O Liverpool teve quase 70% de posse de bola em Old Trafford, mas tocando de lado, buscando buracos na defesa do United que nunca apareceram. O ataque com Mané, Firmino e Salah é excepcional, mas precisa de espaços para atingir todo o seu potencial. Contra defesas fechadas, esta equipe já teve dificuldades nesta temporada, o que naturalmente se acentuaria diante de um sistema tão bem organizado e bem executado quanto o do Manchester United.

A formação de meias que Klopp colocou em campo não ajudou. Oxlade-Chamberlain e James Milner, os mais avançados, são jogadores de carregar a bola e atacar os espaços. Nenhum deles tem o passe apurado. Foi o jogo em que a ausência de Philippe Coutinho (ou de um substituto que Klopp se recusou a buscar em janeiro) foi mais sentida desde sua saída para o Barcelona. O brasileiro tem a criatividade, a imprevisibilidade e o chute de fora da área que poderiam ter adiantado a vida do Liverpool. A substituição natural seria colocar Lallana em campo, o meia mais criativo deste elenco. O inglês foi introduzido aos 17 minutos do segundo tempo, mas, ainda recuperando a forma após seguidas lesões, jogou muito mal. Outra opção seria Solanke dentro da área, liberando Firmino para adotar a função de camisa 10. Isso aconteceu já nos dez minutos finais.

Além disso, o Liverpool esbarrou em uma atuação monumental da defesa do Manchester United. Ashley Young anulou Salah, artilheiro da Premier League, com 24 gols, ao lado de Harry Kane. Eric Bailly foi soberano a partida inteira, com exceção do momento em que sua cabeça entrou em tilt, ao cortar um cruzamento de Mané com algo parecido a um toque de calcanhar e marcar contra o próprio matrimônio. Mas teve uma exibição tão boa que nem um gol contra a estraga.

O Liverpool sofreu apenas sua segunda derrota pela Premier League desde outubro e perdeu a chance de assumir o segundo lugar. Mas não há motivo para desespero. Continua bem colocado na briga por vaga na próxima Champions League e, se não brilhou tecnicamente no clássico, mostrou o espírito de luta que se espera nessas ocasiões. Precisa, porém, buscar alternativas para furar ferrolhos defensivos, um problema já antigo desta equipe de Klopp. E o United consolidou-se em segundo lugar, abriu cinco pontos de vantagem para os Reds e fez uma partida perfeita dentro da sua proposta. Desta vez, sem precisar abrir mão da vitória.

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