A construção de um novo estádio, por anos, permeou o imaginário da torcida do Valencia. Era um tema que vinha desde a época áurea dos Ches na virada do século, quando o clube brigava pelos títulos das principais competições que disputava. O projeto começou a sair do papel em 2006, com a apresentação da maquete, e as obras começaram em agosto de 2007. Entretanto, as dificuldades financeiras enfrentadas pelo Valencia e a crise imobiliária que afetou em cheio a Espanha, especialmente a partir de 2008, frearam a construção em fevereiro de 2009. Desde então, ensaiaram-se diferentes tentativas de retomar o Nou Mestalla. A última delas, nesta semana, com nova sinalização sobre o projeto.

“O Valencia irá iniciar, na próxima semana, reuniões de trabalho com os responsáveis municipais para tramitar as licenças necessárias à finalização do novo estádio, sobre um desenho renovado e sustentável com seu entorno, que situe o torcedor no centro do projeto. A máxima prioridade é que, durante sua passagem no novo estádio, desenhado para o futebol e capaz de abrigar novos eventos, o visitante desfrute de uma ótima experiência, não apenas no dia das partidas”, escreveu o clube, em nota oficial, além de publicar um vídeo com imagens do novo projeto.

Apesar das pompas, o jornal local Super Deporte afirma que o anúncio soa mais como uma questão administrativa, com poucas novidades quanto aos prazos para a finalização das obras. Ainda não há uma ideia clara sobre o financiamento ou sobre a data em que a construção será retomada. O comunicado desta semana vem na esteira de encontros da diretoria do Valencia com representantes municipais. O plano urbanístico da cidade prevê que o “velho” Mestalla precisa ser demolido até 2023, o que coloca pressão sobre os Ches. Apesar do prazo, esta não é uma prioridade do clube, ainda mais levando em conta sua conjuntura econômica atual.

É importante frisar que a mudança nas bases do projeto se coloca como uma necessidade, e que isso vem ocorrendo ao longo da última década. Ao permanecerem congelados por tanto tempo, alguns dos planos para o Nou Mestalla estão totalmente defasados. A ideia inicial era um tanto quanto megalomaníaca, considerando a capacidade estimada para 75 mil espectadores. As chances dos Ches criarem um estádio deficitário para si pareciam enormes, diante das demandas atuais nas arenas particulares da Europa. Assim, desde que assumiu a presidência em 2014, o empresário Peter Lim se comprometeu a aparar arestas.

Um dos entraves é a pista de atletismo, anteriormente exigida pela prefeitura, e que deverá ser excluída. As arquibancadas ficarão mais próximas do campo, assim como os camarotes tendem a mudar de lugar, para melhorar a visibilidade. Além do mais, o modelo da cobertura também deverá ser alterado. E, mais importante, como já previsto antes mesmo da chegada de Peter Lim, a capacidade do estádio será reduzida. Em 2013, a intenção era diminuir de 75 mil para 61,5 mil lugares – uma realidade mais coerente com as novas arenas espanholas, considerando o Wanda Metropolitano ou o San Mamés Barria.

Apesar da redução no número de assentos, ainda parece difícil que o Valencia atinja taxas de ocupação próximas aos 80%. Mesmo na sua era de ouro, o clube não levava mais do que 45 mil torcedores em média. Nos últimos anos, esses números chegaram a despencar, especialmente nas temporadas em que a equipe brigou contra o rebaixamento, batendo na casa de 33 mil. No entanto, o bom início na atual campanha alavancou a média para 39 mil. Um desafio dos Ches na casa nova será justamente neste sentido, o de impulsionar o público diante daquilo que pode oferecer.

De qualquer maneira, permanecer no “velho” Mestalla pareceria mais cômodo e mais inteligente. Uma boa reforma poderia oferecer mais conforto ao público, assim como a capacidade atual já apresenta um número satisfatório para ocupação total, beirando os 50 mil lugares. Todavia, o Valencia precisa arcar com a consequência de decisões questionáveis de suas gestões anteriores. Pode até continuar empurrando com a barriga o Nou Mestalla, mas a passagem dos anos apenas tende a aumentar seus prejuízos.