Dirk Kuyt realizou todos os sonhos da torcida do Feyenoord em seu retorno ao Estádio De Kuip. A volta de um dos maiores ídolos recentes já era motivo suficiente para os fanáticos em Roterdã se empolgarem. Mas o capitão foi capaz de mais em seus dois últimos anos de carreira. Retomou o protagonismo no Stadionclub para conquistar a Copa da Holanda em sua primeira temporada, antes encerrar a travessia do deserto em 2016/17. Após 18 anos de espera, os tricolores voltavam a faturar a Eredivisie, com o troféu entregue ao veterano. Kuyt pôde se aposentar com o título mais importante de sua carreira, venerado pela maneira como liderou o time novamente ao topo do país. No entanto, seu adeus também deixou uma lacuna.

O Feyenoord não conseguiu manter o sucesso na atual temporada. A campanha na Liga dos Campeões foi decepcionante, sequer rendendo um lugar na Liga Europa. Enquanto isso, o time também não engrenou na Eredivisie. Atualmente aparece a 14 pontos do líder PSV e a nove do rival Ajax. O final do primeiro turno até deixou uma impressão um pouco mais positiva em Roterdã, com os bons resultados em sequência. Ainda assim, será preciso mais na metade final do campeonato. E o conto do regresso do herói surge mais uma vez no De Kuip, materializado em outro gigante do futebol holandês. Agora é Robin van Persie que está de volta ao Stadionclub, em transferência confirmada nesta sexta.

Van Persie é um legítimo filho de Roterdã. Nascido na cidade, iniciou a sua carreira no Excelsior, ingressando nas categorias de base quando tinha cinco anos. Já aos 16, arrumou as malas para o Feyenoord, após entrar em colisão com a comissão técnica de seu clube. Precisou de meses nos juvenis até ganhar sua primeira chance na equipe principal, estreando em 2001/02, aos 17 anos. E logo causou impacto, auxiliando o time a conquistar a Copa da Uefa naquela mesma temporada. Titular na meia esquerda, o garoto participou de 63 minutos da decisão contra o Borussia Dortmund, vencida dentro do próprio De Kuip. Ao final do ano, o talento seria eleito a maior revelação do futebol holandês, recebendo o tradicional Troféu Johan Cruyff.

Não demorou para que Van Persie ganhasse de vez os torcedores do Feyenoord. Em sua primeira temporada completa, acumulou 16 gols em 28 partidas, cinco deles em apenas um jogo. O problema é que o gênio forte atrapalhava a sua ascensão. O prodígio vivia às turras com o técnico Bert van Marwijk, que chegou a removê-lo ao segundo quadro. Isso acabou atrapalhando o seu rendimento, assim como o tempo em campo. A segunda temporada completa, em 2003/04, foi mais modesta quanto aos números do ponta. Sua continuidade no De Kuip estava a um fio, e a balança pendeu mesmo ao treinador, diante da recusa do jovem em renovar o seu contrato.

Em 2004, Van Persie deixou o Feyenoord. Acabou vendido ao Arsenal, por um valor relativamente baixo na época, com os Gunners desembolsando £2,75 milhões. As perspectivas do garoto, em compensação, eram excelentes em Highbury. Chegava numa verdadeira potência nacional, logo depois da consagração dos Invincibles. Tinha o respaldo de Arsène Wenger e, mais do que isso, era visto como o potencial herdeiro de Dennis Bergkamp. Uma enorme influência ao novato, que passou a seguir os passos do craque. Se não conseguiu ser tão técnico quanto o ídolo, não se nega que RVP também escreveu uma história singular – artilheiro dos Gunners e campeão pelo Manchester United.

Os últimos anos da carreira de Van Persie, todavia, foram fracos. Chegou ao Fenerbahçe como grande negócio e nunca conseguiu gerar o impacto esperado. Depois de uma primeira temporada satisfatória, passou a esquentar o banco na segunda. Já durante os últimos meses, entrou em conflito com o técnico Aykut Kocaman, ao atender uma convocação à seleção contra a vontade do clube e retornar lesionado. Com uma mísera partida desde setembro, já estava claro que o destino do veterano não seria Istambul. Então o Feyenoord, que já havia manifestado interesse no início da temporada, escancarou suas portas.

Nesta sexta, a oficialização do negócio aconteceu depois que Van Persie alinhou sua rescisão com o Fenerbahçe. Chega a Roterdã na próxima segunda, quando assinará o novo contrato com o Stadionclub, depois de 14 anos longe do Estádio De Kuip. Por todo o seu histórico, não há dúvidas que o maior artilheiro da história da seleção holandesa poderá ser útil ao clube e jogar por mais algum tempo, aos 34 anos. O entrave fica quanto ao rendimento, considerando que ele já não é o centroavante implacável do começo da década – e isso sem levar em consideração os seus dois últimos anos no Manchester United, também abaixo do esperado.

No anúncio do retorno, o Feyenoord evocou a memória daquele jovem prodígio que surgiu no início do século. Resgatou os gols e os dribles do garoto cheio de espinhas no rosto, com a Copa da Uefa nas mãos. Independentemente da saída conturbada em 2004, a esperança se cultiva entre os torcedores do Stadionclub. É a chance de rever aquele que arrancou sorrisos em sua eclosão e, enfim, desfrutar um pouco mais do velho ídolo. Se for possível repetir o empenho, a liderança e a fome de gols vista em Kuyt, melhor. E depois do que aconteceu em 2017, os sonhos vão um pouco além. Quem sabe, já para uma arrancada no segundo turno da Eredivisie.