Por aquilo que exibia nos meses anteriores e por aquilo que prometia na Copa do Mundo, o Peru fez uma campanha abaixo das expectativas na Rússia. Foram duas atuações até razoáveis nas duas primeiras rodadas, jogando melhor que a Dinamarca na estreia e peitando a França durante a maior parte do tempo, no compromisso seguinte. Todavia, foram duas derrotas, que determinaram a eliminação precoce do time de Ricardo Gareca. Os mínimos desleixos na defesa, somados às chances perdidas e não criadas no ataque, explicam o insucesso. Ao menos na última partida os peruanos conseguiram se despedir de maneira digna. Depois de 36 anos, os Incas voltaram a marcar um gol em Copas. Mais do que isso, voltaram a vencer, com o triunfo por 2 a 0 sobre a Austrália. André Carrillo anotou um golaço, mas o melhor em campo foi Paolo Guerrero, com o protagonismo que tanto lutou para ter.

A Austrália termina na lanterna do Grupo C, mas merece sua menção honrosa. Apesar das chances matemáticas nesta rodada final, não se aproximou da vaga. Ainda assim, superou o que se esperava de um time que vinha com mudanças recentes no comando. Bert van Marwijk manteve o seu estilo pragmático, mas os australianos propuseram o jogo em boa parte do tempo em que estiveram em campo e poderiam muito bem ter vencido a Dinamarca, em partida na qual foram superiores. Individualmente, destaque a Aaron Mooy, um meio-campista muitíssimo regular e que liderou a equipe em todos os compromissos. E vale ficar de olho também em Daniel Arzani, de 19 anos, que logo deve despontar rumo ao futebol europeu.

Austrália com a iniciativa

Precisando do resultado, naturalmente a Austrália começou mandando no jogo durante os primeiros minutos. Tinha mais posse de bola e acuava a seleção peruana. Faltava conseguir quebrar a marcação. Os Socceroos eram limitados no ataque e pouco assustavam a meta de Pedro Gallese. Já a partir dos dez minutos, o time de Ricardo Gareca passou a se soltar um pouco mais. Empurrou a Austrália ao seu campo de defesa e, em uma boa jogada direta, abriu o placar aos 18 minutos. Lançamento de Yoshimar Yotún para Paolo Guerrero – que partiu ligeiramente adiantado. O centroavante dominou, limpou a marcação e cruzou a André Carrillo. Sapatada do ponta na entrada da área, sem chances de defesa para Matt Ryan.

Reconhecimento a Carrillo

Apesar das derrotas para Dinamarca e França, o Peru teve alguns jogadores que merecem o reconhecimento por suas atuações. André Carrillo foi um desses. O ponta do Watford pode não ter destoado tanto assim, mas fez boas partidas, dando velocidade pelo lado direito e partindo para cima dos marcadores. Criou oportunidade aos companheiros e exigiu uma boa defesa de Kasper Schmeichel na estreia. A exaltação vem em forma de golaço, num chute feroz. O tento que rompeu os 36 anos de espera dos peruanos, finalmente voltando a gritar gol em uma Copa do Mundo.

Pouco da Austrália

O jogo seguiu mais equilibrado na sequência do primeiro tempo, com o Peru também propondo o jogo e buscando o ataque. Até pelas necessidades, a Austrália era mais incisiva. Criou a melhor chance com Tom Rogic, que parou em boa defesa de Gallese, e ainda teve outro bom lance parado por impedimento. Os Socceroos tentaram abrir espaços pelos lados do campo, com Josh Risdon oferecendo o apoio pela direita. Rogic, em especial, chamava o jogo para si e tentava quebrar a marcação peruana com seus dribles. Faltou mais qualidade nas conclusões.

Guerrero mata o jogo

Logo no início do segundo tempo, o Peru ampliou a sua vantagem. A jogada, aliás, nasceu entre os jogadores que atuam por clubes brasileiros. Miguel Trauco e Christian Cueva fizeram uma ótima tabela pela esquerda, com o meia partindo em velocidade. Seu passe desviou na marcação, mas a bola sobrou para Guerrero dentro da área. Então, o centroavante fez aquilo que melhor sabe: protegeu o espaço com o corpo e girou para chutar cruzado, sem que Matt Ryan pudesse pegar. Muita emoção do camisa 9, que mostrou e beijou o escudo da seleção. Seu empenho para disputar o Mundial, enfim, teve uma recompensa.

Austrália parte para cima

Bert van Marwijk precisava mexer. Por isso mesmo, não demorou a aumentar a força ofensiva de seu time. Tim Cahill saiu do banco, em sua primeira participação nesta Copa. Foi o quarto Mundial do veterano. Além disso, o treinador confiou em Daniel Arzani, jogador mais jovem entre os 736 convocados à competição, e que tinha aprontado um salseiro contra a Dinamarca. A Austrália pressionava e tentava se impor fisicamente. Apostava principalmente nas bolas aéreas. O problema é que não conseguia criar grandes oportunidades. Elogiável o trabalho de Christian Ramos e, principalmente, Anderson Santamaría na zaga da Blanquirroja. Santamaría, aliás, poderia ter entrado antes no time. Saiu-se muito melhor em seus minutos em campo do que o veterano Alberto Rodríguez.

O fim das esperanças

Durante os minutos finais, a Austrália entregou os pontos. Não conseguiu impor a mesma intensidade e se resumiu a bolas cruzadas na área, sem levar muito perigo à meta de Pedro Gallese. O Peru até ficou mais próximo do terceiro. Em contra-ataque, Guerrero mais uma vez fez o trabalho de pivô e Edison Flores carimbou a trave, mas a arbitragem assinalou o impedimento no início da jogada. Ao menos um pouco de honra à Blanquirroja. Nos minutos finais, os torcedores que invadiram Sochi até brincaram de gritar ‘olé’. Depois do apito final, destaque ao abraço emocionado entre Guerrero e Cueva, ambos às lágrimas.

Ficha técnica

Peru x Austrália

Local: Estádio Fisht, em Sochi
Árbitro: Sergei Karasev (RUS)
Gols: André Carrillo, 18’/1T; Paolo Guerrero, 5’/2T
Cartões amarelos: Mile Jedinak, Daniel Arzani, Tom Rogic, Mark Milligan (Austrália); Yoshimar Yotún, Paolo Hurado (Peru)
Cartões vermelhos: Nenhum

Peru
Pedro Gallese, Luis Advíncula, Christian Ramos, Anderson Santamaría, Miguel Trauco; Renato Tapia (Paolo Hurado), Yoshimar Yotún (Pedro Aquino); André Carrillo (Wilder Cartagena), Christian Cueva, Edison Flores; Paolo Guerrero. Técnico: Ricardo Gareca.

Austrália
Matt Ryan, Josh Risdon, Trent Sainsbury, Mark Milligan, Aziz Behich; Matthew Leckie, Mile Jedinak, Aaron Mooy, Robbie Kruse (Daniel Arzani); Tom Rogic (Jackson Irvine); Tomi Juric (Tim Cahill). Técnico: Bert van Marwijk.