Dilma deu o pontapé inicial na Arena das Dunas

Público, privado, empréstimo, incentivo: da onde vem o dinheiro dos estádios da Copa?

A história da Copa do Mundo da iniciativa privada foi uma fábula desde o começo. Orlando Silva e Ricardo Teixeira disseram que o governo só botaria dinheiro na infraestrutura, mas isso nunca esteve perto de acontecer. Há muita presença de dinheiro público nas obras dos estádios que vão abrigar os 64 jogos do torneio que começa em junho, mas não dá simplesmente para colocar tudo no mesmo balaio.

Houve diversas formas de o poder público, digamos, impulsionar economicamente as obras. Há aporte direto, com dinheiro saindo do orçamento para pagar a construção, há empréstimo (eventualmente com juros mais camaradas), há renúncia ou incentivo fiscal, há venda de títulos públicos. Pode parecer detalhe, mas não é. Pode ser discutido até que ponto um estádio de futebol é um negócio que merecesse incentivo estatal, mas, dependendo do modelo adotado, há previsão de retorno.

O governo federal trabalhou nesse linha. Ao garantir financiamento do BNDES para todas as arenas (salvo a de Brasília, construída com a venda de terrenos públicos) por meio de uma empresa estatal. Os governos estaduais contraíram empréstimos de outros bancos, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Nordeste, e também fizeram investimentos diretos. Os estádio privados deram o seu jeito. O Corinthians conseguiu isenção fiscal com a prefeitura de São Paulo, o Internacional vendeu o Estádio dos Eucaliptos e o Atlético Paranaense contraiu empréstimos, dando a própria Arena da Baixada como garantia.

De qualquer forma, a oportunidade de modernizar os palcos do futebol brasileiro com dinheiro privado foi definitivamente desperdiçada. Não fosse o Estado, seria difícil essa Copa do Mundo sair do papel.

Há muita informação desencontrada sobre os custos dos estádios. Buscamos as fontes oficiais que foram divulgadas, rebatendo com denúncias de valores irreais publicadas em veículos confiáveis, considerando ainda os valores recorrentes na maioria das matérias que foram publicadas. Privilegiamos as fontes mais atualizadas para chegar mais próximo possível do valor real. 

ARENA CORINTHIANS (obra em andamento)

Total: R$ 1,028 bilhão

R$ 400 milhões de BNDES
R$ 420 milhões de CIDs
R$ 110 milhões de recursos próprios
R$ 60 milhões para estruturas provisórias (iniciativa privada)
R$ 38 milhões com arquibancadas provisórias (iniciativa privada)
Juros: R$ 100 milhões com bancos privados, R$ 300 milhões com o BNDES em 12 anos

Fontes: ESPN, Folha

MARACANÃ

Total: R$ 1,1 bilhão

R$ 400 milhões do BNDES
R$ 250 milhões da Corporação Andina de Fomento (CAF)
R$ 137 milhões da Caixa Econômica Federal
R$ 84 milhões de incentivos fiscais do governo carioca
R$ 259 milhões serão pagos diretamente pelo governo do Rio de Janeiro

Fonte: Jornal do Brasil, O Globo, Portal UOL

MANÉ GARRINCHA

Total: R$ 1,4 bilhão

R$ 1,4 bilhão com venda de terrenos da agência imobiliária pública Terracap

MINEIRÃO

Total: R$ 695 milhões

R$ 400 milhões do BNDES
R$ 40,5 milhões do governo de Minas
R$ 254,5 milhões de recursos próprios da Minas Arena

Fonte: Pini Web, Hoje em Dia

ARENA DA AMAZÔNIA
A Arena da Amazônia foi inaugurada com um jogo entre Nacional e Remo

A Arena da Amazônia foi inaugurada com um jogo entre Nacional e Remo

Total: R$ 605 milhões

R$ 388 milhões do BNDES
R$ 12 milhões de isenção fiscal do Recopa
R$ 100 milhões do governo estadual
R$ 105 milhões da Caixa Econômica Federal

Fonte: Globo Esporte, Amazônia na Rede

ARENA PANTANAL (obra em andamento)

Total: R$ 540 milhões

R$ 393 milhões do BNDES
R$ 120 milhões de empréstimo do governo do Estado com a Caixa Econômica Federal
R$ 27 milhões de recursos próprios do Estado

Fonte: Portal 2014, BNDES

ARENA PERNAMBUCO

A estimativa inicial da Arena Pernambuco é de R$ 532 milhões, mas isso foi há cinco anos. Chegou-se a falar em R$ 650 milhões, mas ninguém sabe direito quanto custou. O Jornal do Commercio requisitou o valor por meio da Lei de Acesso à Informação, mas obteve como resposta ele “encontra-se em análise pelo Estado pedido de equilíbrio econômico-financeiro, que resultará no valor final do contrato”. O que se sabe é que o BNDES liberou R$ 400 milhões para a construção, o Banco do Nordeste, R$ 280 milhões, e um banco privado, mais R$ 70 milhões.

Fonte: Jornal do Commercio, LANCE!¹, LANCE²,

ARENA FONTE NOVA

Total: R$ 689,4 milhões

R$ 323,6 milhões do BNDES
R$ 241,9 milhões do Banco do Nordeste
R$ 123,9 milhões do governo da Bahia

Fontes: LANCE!

CASTELÃO

Total: R$ 519 milhões

R$ 351,5 milhões do BNDES
R$ 194,4 milhões do governo do Estado

Fontes: LANCE!

ARENA DAS DUNAS

Total: R$ 423 milhões

R$ 396,5 milhões do BNDES
R$ 26,5 milhões governo do Estado

Fonte: BNDES

BEIRA-RIO (obra em andamento)

Total: R$ 330 milhões

R$ 275 milhões do BNDES
R$ 26 milhões da venda do Estádio dos Eucaliptos
R$ 6 milhões de suítes já vendidas
R$ 23 milhões de investimento da Sociedade de Propósito específico

Fonte: Site do Internacional

ARENA DA BAIXADA (obra em andamento)
A Arena da Baixada é o estádio mais atrasado da Copa do Mundo

A Arena da Baixada é o estádio mais atrasado da Copa do Mundo

Total: R$ 330 milhões

R$ 131,5 milhões do BNDES
R$ 65 milhões do BNDES em parceria com a prefeitura
R$ 133 milhões de recursos próprios do clube, também por meio de empréstimos

Fonte: BBC, Terra, BNDES

Glossário

Sociedade de Propósito Específico: Como o nome evidencia, trata-se de uma sociedade com atividades bastante restritas. No caso, Internacional e Andrade Gutierrez juntaram-se exclusivamente para a reforma do Beira-Rio.

Recopa: Programa federal de isenção fiscal para os estádios da Copa do Mundo, que abrange PIS/Pasep, Cofins, IPI e imposto de importação. Para receber o benefício, o projeto deveria ter sido aprovado pelo Ministério do Esporte até 31 de dezembro.

Corporação Andina de Fomento: Banco latino-americano com o objetivo de desenvolver iniciativas privadas e públicas na América do Sul, e também proporcionar cooperações técnicas e serviços específicos.

CIDs: Criados na gestão da prefeita Marta Suplicy, são papéis que podem ser utilizados para quitar dívidas com a prefeitura. A ideia é desenvolver regiões específicas, como a zona leste de São Paulo. O Corinthians, no caso, títulos equivalentes a R$ 420 milhões e pode vendê-los, com desconto, para as empresas.

BNDES: O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social tem o objetivo de desenvolver e financiar projetos de longo prazo em diversos âmbitos: sociais, ambientais e culturais, por exemplo. No caso da Copa do Mundo, o governo federal empresta dinheiro para as administradoras das obras com um juros pequeno, em torno de 7% ao ano. Condições muito melhores que a do mercado de bancos privados.