A saída de Neymar do Barcelona foi o bater de asas da borboleta que causou um furacão no Liverpool. O interesse dos catalães por Philippe Coutinho, tão especulado nos últimos anos, concretizou-se: foram feitas duas propostas oficiais, ambas recusadas pelo clube, que emitiu um comunicado avisando que nenhuma oferta pelos serviços do brasileiro seria considerada até o fim da atual janela de transferências. Corrobora as palavras do técnico Jürgen Klopp, de que não haveria preço que o convencesse a vender seu principal jogador. Impossível deixar mais claro que o Liverpool não quer vender Coutinho. Mas “querer” não é o verbo correto: o Liverpool não pode vender Coutinho. Não agora.

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A decisão que os Reds tomarem sobre esse assunto – e nenhuma virá sem consequências – será uma indicação de ambição, da presença ou da ausência dela, um testamento do que os donos americanos visualizam para o clube. Depois de quase uma década relegado a coadjuvante, e de 27 anos sem títulos ingleses, o Liverpool tem apenas um caminho a tomar: o que o leve novamente ao topo do país e do continente. O Fenway Sports Group tem uma grande oportunidade de provar para a torcida que é isso que ambiciona, depois de vários exemplos doloridos do contrário.

O raciocínio é bem simples: o Liverpool não pode tornar-se fornecedor de talentos para os que realmente brigam pelos maiores títulos da Europa e da Inglaterra se quiser voltar a ser um dos clubes que realmente brigam pelos maiores títulos da Europa da Inglaterra. E é isso que tem sido desde a chegada dos americanos donos do Boston Red Sox: Fernando Torres foi para o Chelsea, embora tenha saído pelo valor da cláusula de rescisão, Suárez rumou para o Barcelona, e Sterling foi vendido para o Manchester City – o futebol de Sterling não se desenvolveu da maneira como se imaginava, e a venda acabou se provando um bom negócio, mas, na época, os Reds abriam mão da sua mais promissora revelação.

Cada uma dessas transferências teve suas particularidades, e nem sempre o Liverpool teve poder para impedi-las, mas, juntas, formam um contexto que agravam uma eventual saída de Coutinho neste momento. Por dois motivos: desta vez, o Liverpool tem poder para impedir o negócio porque o brasileiro assinou um contrato de cinco anos em janeiro, sem cláusula de rescisão; e porque vendê-lo é passar à torcida a mensagem de que, após sete anos de propriedade, o clube não evoluiu nada e continua vulnerável ao assédio de terceiros às suas principais estrelas.

É uma angústia compartilhada pelos torcedores do Arsenal. Depois de virar o século brigando cabeça a cabeça pelo topo da Premier League com o Manchester United, a entrada de dinheiro externo no futebol inglês colocou o clube de Arsène Wenger nessa posição vulnerável. E os jogadores começaram a ir embora, como se o clube fosse uma estação de trem: foi Nasri, foi Fàbregas, foi Van Persie, e os Gunners nunca mais conseguiram ser campeões nacionais. Agora, lidam com a insatisfação de Alexis Sánchez, provavelmente o próximo a se retirar porque não vê no clube uma boa plataforma para conquistar os títulos com os quais ele sonha. A situação do Arsenal só é melhor que a do Liverpool porque, apesar de tudo isso, conseguiu disputar a Champions League regularmente. Ficou de fora agora pela primeira vez em 19 anos.

A rotatividade de craques é rotineira até mesmo em grandes clubes, e a ida de Neymar para o Paris Saint-Germain está aí para provar que nem mesmo o todo-poderoso Barcelona está isento. Este é um clichê verdadeiro: os jogadores saem, os clubes continuam. Quando são tão grandes assim, continuam fortes. A palavra chave aqui é timing.

Timing para o jogador: Philippe Coutinho era só sorrisos em janeiro, assinando o seu novo contrato de cinco anos, ao lado de Jürgen Klopp, com um salário de £ 150 mil por semana. Declarou: “Eu assinei este novo contrato para ficar aqui mais alguns anos porque esta é uma grande honra para mim”. O interesse do Barcelona já era especulado e, mesmo assim, Coutinho disse essas palavras, comprometeu-se por meia década e aceitou a ausência de uma cláusula de rescisão. Os “alguns anos” viraram seis meses e meio: nesta sexta-feira, no dia anterior à estreia do Liverpool na temporada, uma temporada crucial, o brasileiro enviou um pedido de transferências oficial para a diretoria do clube. Péssimo timing.

Timing para o clube: Jürgen Klopp explicou por que disse que não haveria preço que o convencesse a vender Coutinho, apesar de ter lidado com idas e vindas frequentemente na sua passagem anterior pelo Borussia Dortmund. “Talvez todos tenham um preço – no momento certo. No momento errado? Nenhum preço”, afirmou. Mesmo que o Liverpool arranque mais milhões de euros do Barcelona, quem conseguirá comprar para repor Coutinho neste mercado maluco? Está há dois meses tentando contratar Virgil Van Dijk e Naby Keita e não consegue porque os clubes desses jogadores – Southampton e RB Leipzig – não querem nem precisam vendê-los. E toda a preparação e planejamento da temporada foram feitos com o brasileiro no elenco.

O Liverpool pode buscar um exemplo da sua própria história para extrair dicas de como lidar com a situação. Em 1976, o troféu da Copa da Uefa mal havia sido levantado sobre a cabeça dos jogadores quando Kevin Keegan anunciou que queria ir embora. Keegan era o artilheiro e principal jogador da equipe de Bob Paisley. Estava irredutível. Queria mais dinheiro – a Inglaterra sofria com uma super-taxação – e mais glamour. Era uma época em que os clubes tinham mais força sobre os jogadores do que hoje em dia, mas a diretoria chegou a um acordo com Keegan que ficou bom para todo mundo: ele ficaria mais um ano e sua saída seria facilitada ao fim da temporada. O Liverpool foi campeão europeu pela primeira vez na história na temporada de despedida de Keegan e teve tempo para buscar um substituto com calma. O substituto? Kenny Dalglish. Não é tão provável, mas nada impede que os Reds tenham um excepcional ano pela frente, com Coutinho, e encontrem a sua próxima estrela, se tiverem tempo para procurá-la.

Coutinho ajudou a carregar o Liverpool à Champions League. Por que não disputá-la vestido de vermelho? Já deve ter percebido o quão é poderoso ser ídolo de uma torcida apaixonada como a do Liverpool, e o quanto a sua posição na história do clube pode ser reforçada com uma boa campanha europeia. Viu de perto o carinho com que Lucas Leiva foi tratado na sua saída para a Lazio, apesar de o volante não ser tão bom jogador quanto ele. Coutinho tem apenas 25 anos e muita qualidade. Outras oportunidades aparecerão.

A ida para o Barcelona parece ser o caminho natural para sua carreira. A maneira como essa transferência ocorrerá está nas mãos tanto do clube quanto do jogador. Coutinho pode abrir uma guerra declarada para ir embora, arriscando tudo que construiu em Liverpool em nome do imediatismo. Vale a pena? E o clube está em posição de vendê-lo sob os seus próprios termos. Como fez com Keegan, 40 anos atrás. Como fez quando era o principal time da Inglaterra e prestes a se tornar o melhor da Europa. É essa a lembrança que o Liverpool precisa resgatar na cabeça dos seus torcedores quando inevitavelmente vender Coutinho, e não as de quando se mostrou impotente perante Fernando Torres e Luis Suárez.