Receber subsídios do governo é lugar-comum no futebol atual, principalmente ajuda municipal, o que ocorre com freqüência no futebol brasileiro. Essa ajuda geralmente vem disfarçada em forma de patrocínio, abono de impostos entre outros benefícios. É um fator que pode ajudar (e muito!) no crescimento de uma equipe. Exemplos não faltam: o São Caetano deve boa parte de sua ascensão à estrutura mantida pelo governo municipal. Mas no futebol mexicano a influencia do poder público foi sentida de forma ainda mais direta. Um dos clubes mais populares do país, o Veracruz pertence ao governo estadual!

Começo de glórias, décadas de crise e desaparecimento

Fundado em abril de 1943, o Deportivo Veracruz, o clube disputou a Liga Mexicana logo em seu primeiro ano de vida. Receberam o nome de batalha de “Los Tiburones Rojos”

Nos primeiros anos, o clube lutou para consolidar-se na nascente liga nacional. Logo em sua terceira temporada, porém, o time conquistou seu primeiro título nacional sob o comando de Luis De la Fuente (conhecido como El “Pirata” Fuente) somando 18 partidas de invencibilidade e anotando 105 gols em 30 partidas. Além da histórica campanha o time aplicou a maior goleada da história do futebol mexicano: na tarde de 26 de maio de 1946 anotou 14 x 0 sobre o Monterrey, num show de El ´´Pelón´´ González (4 gols), Lazcano (3), ´´Pirata´´ Fuente (3) e Enrico (3). E pela primeira vez em 26 anos o título saiu da capital mexicana.

Dois anos depois venceu pela primeira vez a Copa do México e na temporada 1949-50 levou o caneco do Nacional pela segunda vez.

A década de 50 marcou o fim da época de ouro da equipe mexicana. A temporada 1950/1 converteu-se na primeira temporada perdedora do time, que passou por graves problemas financeiros que desencadearam até mesmo a intervenção do presidente e do governador estadual. Na temporada seguinte não houve jeito, a equipe foi rebaixada para a recém-criada Segunda Divisão juntamente com o América.

No primeiro ano de disputa da divisão de acesso a equipe não obteve a vaga na Primeira Divisão por apenas um ponto. Tal fracasso propiciou uma debandada de jogadores, que aliada a problemas econômicos fez com que a Federação Mexicana optasse por desaparecer com a franquia.

A equipe voltou a se formar na temporada 1961/2 e aproveitou o aumento no número de clubes (14 para 16) na Divisão principal para obter a promoção em 1964.

Esse período na Primeira durou 15 anos: duros e distantes da disputa do título. Apesar de fraca desportivamente, a época marcou a passagem pelo clube vários craques e ídolos: Charro Garcia, Guillermo ´Campeon´ Hernandez, Jose “Che” Gómez e o brasileiro Didi.

Na temporada 1978/9 nada salvou “Los Tiburones” do descenso. A equipe sofreu 83 gols, perderam 22 partidas e terminaram em último lugar na classificação geral. Cabe dizer ainda que o time foi comandado por cinco treinadores durante a disputa do Nacional.

Novamente na Divisão de Acesso a equipe disputou 5 temporadas, nas quais não chegou nem perto da disputa pelas vagas e devido ao desinteresse dos torcedores locais, a franquia foi vendida para Yucatán, que desapareceria logo depois.

Regresso à elite com apoio estatal

Depois de anos sem representante na divisão principal em Veracruz, um grupo de empresários apoiados pelo governo estadual adquiriram a franquia do recém ascendido Potros Neza para converterem em Tiburones Rojos de Veracruz.

A equipe sofreu em sua primeira temporada de disputa, terminando o campeonato apenas em 15º lugar e salvando-se do descenso nas últimas rodadas. Apesar da fraca campanha a equipe ficou marcada pela dificuldade de ser batida em seus domínios e Jorge comas transformou-se em ídolo da torcida ao se tornar goleador máximo do torneio com 26 gols.

Terminado o campeonato organizou-se um quadrangular internacional em Veracruz, que contou com a participação de Botafogo (BRA), Pumas (MEX), Real Madrid (ESP) e Veracruz. Apesar do título ter ficado com a equipe brasileira a partida que ficou na memória dos torcedores foi a vitória dos “Tiburones” sobre a forte equipe madrilenha por 4 x 2 com um golaço anotado pelo argentino Omar Palma.

O sucesso da equipe converteu-se num fenômeno que recebeu o nome de “La Tiburomania”: a equipe era recebida por todo o país com muita festa, tanto em seu estádio como pelos locais os quais visitava esgotando ingressos como visitantes dias antes das partidas serem disputadas.

A década de 90 caracterizou-se como um período de muita paixão, pouco brilho e um descenso. Vale destacar a vitória do time sobre o Atlético de Madrid por 3 x 2 no amistoso de comemoração pelo aniversário de 50 anos do clube. O clube chegou a disputar a final da Copa do México na temporada 1994-95, mas mesmo com um forte esquema defensivo montado pelo lendário técnico Anibal ´maño´ Ruiz a equipe perdeu a final para o Necaxa.

Mudanças de comando

Na segunda metade da década de 90 a equipe sofreu uma mudança na administração quando os empresários locais e o governo estadual venderam 80% das ações do clube à rede de televisão privada Azteca. A troca de comando foi vista com bons olhos, visto que o ciclo da administração anterior havia se encerrado. Entretanto, a rede de televisora de Ajusco não pode demonstrar em Veracruz por que é uma das empresas com maior êxito no país, e o que começou com grandes expectativas terminou em um rotundo fracasso ante ao desencanto da torcida local. A equipe não realizou boas campanhas apesar das boas contratações, o que culminou no rebaixamento do time na temporada 1997-98. Para a disputa desse campeonato o clube contratou o excêntrico goleiro da seleção colombiana Rene Higuita.

A equipe disputou por quatro anos a Primeira A, a Segunda Divisão mexicana. Durante esse tempo houve nova troca de comando na equipe: a rede FEMSA (detentora de 80% das ações do clube) vendeu sua parte para o conhecido Grupo Pegasus, que já possuía o comando de outros clubes na Primeira Divisão (como Atlante e Irapuato) e alguns em divisões inferiores.

Em 2001 obteve o acesso com a conquista da Primeira A e dias antes do draft de jogadores o grupo Pegasus tomou a decisão de vender a franquia do recém ascendido clube. El Doctor Rafael Herrerias Olea, conhecido empresário e promotor adquiriu “Los Tiburones Rojos”. Rafael Herrerias era conhecido até então por estar relacionado a organização de corridas de touros por todo país. Ele, ao lado do governo do estado comprometeram-se a levar o time de volta aos anos de glória.

A equipe, entretanto, não demonstrou em campo esse mesmo entusiasmo e vem realizando fracas campanhas nos torneios mexicanos desde então. Dias antes do início do Torneio Clausura 2003 uma tragédia abalou Veracruz: o goleiro Samuel Mañez faleceu em um acidente automobilístico.

O time, apesar de boas contratações, como o melhor atleta mexicano Cuauhtemoc Blanco, e jogadores de reconhecida capacidade como Luna, Quatrocchi , Jiménez, Giménez, e o brasileiro Kleber e o apoio do governo do estado que se comprometeu com a torcida a remodelar o estádio para torná-lo um dos mais funcionais do país, não vem rendendo o esperado dentro de campo e realiza apenas fracas campanhas, geralmente lutando contra o rebaixamento, o que mostra que nem sempre o apoio estatal rende o sucesso esperado.