O Vila Nova se orgulha de sua grandeza em Goiás. São 15 títulos estaduais, o segundo maior campeão local, que servem de prova para o poderio regional do Tigre. Além, é claro, de uma torcida apaixonada, que se autoproclama a maior do Estado. Trunfos que se perderam recentemente. Menos de cinco meses depois de conquistar o acesso à Série B do Campeonato Brasileiro, o Vila foi rebaixado no Campeonato Goiano. Com uma equipe muito aquém dos períodos mais gloriosos do clube e sem aquele fervor incondicional que se acostumou a ver nas arquibancadas goianas. Mais um triste episódio do jejum de títulos que completará 10 anos em 2015.

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A situação não é inédita nos 70 anos de história do Vila Nova, mas bastante diferente do rebaixamento vivido em 2000. Naquele ano, os alvirrubros se recusaram a enfrentar o Goiás no segundo jogo da decisão do Goianão, revoltados com as decisões da arbitragem no jogo de ida. Disputaram a segundona, mas conquistaram o acesso no segundo semestre, de volta à elite estadual já no estadual de 2001. Desta vez, o tapetão não foi o algoz ou o salvador. A péssima campanha na competição foi o suficiente para a queda. Neste domingo, o Tigre foi batido pela Aparecidense, a sétima derrota consecutiva do time. Nem mais o confronto direto com o Grêmio Anápolis, na última rodada, evitará o pior.

O passado ajuda a explicar a derrocada

Mas o que aconteceu com o Vila Nova, da glória na Série C ao rebaixamento em tão pouco tempo? Como dá para imaginar, a equação é bastante complexa. Envolve problemas financeiros, falhas no planejamento e falta de qualidade no elenco. Fatores que acabaram se acentuando ainda mais com o baixo envolvimento da torcida neste início de ano. E que tornaram os resultados ruins dentro de campo inevitáveis.

“É difícil encontrar explicação. É um clube tradicional, de muita torcida, grande aqui em Goiás. Era algo anunciado há dez anos, com os erros sucessivos das diretorias”, avalia Pedro Henrique Geninho, setorista da Rádio 730, de Goiânia. A partir de 2012, o Vila Nova teve três mudanças em sua presidência, com as denúncias quanto à idoneidade dos cartolas pesando bastante. No ano passado, as dívidas acumuladas levaram funcionários à greve. Os colorados foram ameaçados de perder pontos na Série C, caso não apresentassem o balanço financeiro com as dívidas quitadas e destituíssem o então presidente, Marcos Martinez. E os ecos da crise já vieram na campanha do Goianão 2013, quando o time só se salvou da queda na última rodada, quando bateu o Rio Verde e rebaixou os adversários.

A situação interna preocupante se mantinha mesmo com o início da Série C. Apesar da mudança na presidência, uma nova greve aconteceu duas semanas depois de Joás Abrantes assumir a cadeira, desta vez com a participação também dos jogadores. A Copa das Confederações deu tempo hábil para que o Vila Nova contornasse o entrave. E o período também representou a chegada de um novo grupo de diretores, composta por empresários bem sucedidos em seus negócios pessoais. O que reanimou o Tigre em uma Série C que não parecia tão promissora.

“A situação estava complicada quando assumimos. Havia a greve de jogadores e funcionários. Conseguimos um dinheiro de entrada para contornar a situação, colocar as contas em dia”, conta Abrantes. “O próprio grupo de diretores deu o aporte inicial para solucionar as dívidas”. Sem que as contas pesassem contra o elenco, o Vila Nova conseguiu encaixar sua equipe na Série C e, depois de ficar com a segunda colocação do Grupo B na fase de classificação, assegurou o acesso ao passar pelo Treze nas quartas de final. O suficiente também para que os cartolas recuperassem o dinheiro desembolsado logo na chegada.

A reformulação malsucedida

No entanto, da festa pelo retorno à segunda divisão, as preocupações com o time não tardariam muito. O Vila Nova não renovou o contrato de boa parte dos protagonistas na Série C, como Frontini e Thiago Marin. Apesar dos pedidos da torcida, Neto Gaúcho teve que esperar dezembro inteiro – e não receber seu salário naquele mês – até que conseguisse chegar em sintonia com o que a direção propunha. A reformulação se tornou, mais do que irremediável, uma necessidade.

“O clube teve problema para renovar o contrato dos jogadores mais importantes da campanha na Série C. A diretoria preferiu sanar as dívidas para depois montar o time. Mas o que aconteceu é que o elenco formado era muito fraco, com muitos garotos da base”, avalia João Paulo Di Medeiros, repórter do Diário da Manhã. E a intenção de encerrar as dívidas acumuladas também influenciou esse processo. “Queriam bancar a folha salarial com o dinheiro da bilheteria dos jogos. E o público deste ano não foi tão bom, com o fim do programa ‘Nota Show de Bola’, que permitia que os torcedores trocassem notas fiscais por ingressos. Não houve investimento, com jogadores tecnicamente abaixo do que se esperava”, complementa Geninho.

Apesar disso, a campanha no início do Goiano não foi tão ruim assim. Com a defesa que conquistou o acesso praticamente intacta, os alvirrubros se viraram bem nas seis primeiras rodadas do torneio, com duas vitórias e quatro empates. Venceram, inclusive, o clássico contra o Atlético Goianiense. O problema é que faltava uma sintonia melhor entre o que acontecia nos campos e nas arquibancadas. E, com o meio-campista Robston pego no exame antidoping por uso de cocaína e suspenso por dois anos, o Tigre perdeu sua última fonte de vibração.

“No ano passado, quando o time beirou o rebaixamento, se via um envolvimento grande com a torcida, o clube se apegava aos fatos históricos para motivar as arquibancadas e acreditar na salvação. E os jogadores demonstravam isso, com muita vibração nos jogos. Algo que não se repetiu nesse ano”, Vinícius Tondolo, repórter da Rádio 730. “Houve uma centralização na diretoria, o que indispôs a torcida. O Newton Ferreira, diretor de futebol, passou a impedir críticas. O time se tornou muito passivo, ninguém tinha culpa de nada. Isso fez com que a torcida não se envolvesse tanto. Já em campo, o doping do Robston foi um grande marco. O time perdeu o líder, a alma, aquele jogador que tenta envolver os companheiros”.

A queda no Goianão

A partir de fevereiro, a derrocada se consumou. O Vila Nova perdia jogadores por lesão e, com um elenco bastante enxuto, se complicava ainda mais. A sequência de derrotas começa a partir de então, algo que não foi solucionado nem mesmo com a chegada de alguns medalhões, como o meia Rico e o atacante Soares – possibilitada pelo pagamento da primeira parcela pelos direitos de transmissão da Série B de 2014, cerca de R$ 270 mil. Com dias de treino, sem tempo para entrosar, os jogadores logo eram escalados.

“As mudanças constantes no elenco são política do clube há um bom tempo. Com os novos jogadores, o time perdeu identidade. O conjunto desmoronou ainda mais. A equipe não tinha estilo definido, era cruzar na área e ver o que dá”, pontua Vinicius Tondolo. O técnico Heriberto da Cunha, responsável por convencer a maioria desses reforços a assinarem com o Tigre, não resistiu aos tropeços. Pressionado logo na estreia, Sidney Moraes pouco pôde fazer para evitar o rebaixamento.

Joás Abrantes, inclusive, admite os próprios erros da diretoria nestes primeiros meses do ano: “O grupo que assumiu tinha uma preocupação com a parte financeira. Tentamos ajustar o time, dar uma chance aos pratas da casa. Mas é difícil, para um clube sem o mesmo aporte do Goiás ou do Atlético, mesclar o elenco com jogadores experientes. A situação financeira não permitiu. Aí vieram os problemas: as contusões, o doping do Robston, a falta de reposição. Foi o que levou o Vila Nova a descarrilar”, diz. “Temos que assumir, não podemos colocar a culpa em gestões anteriores. Fizemos o planejamento errado”.

As perspectivas para a Série B

A consequência só será sentida em 2015, com a disputa da divisão de acesso do Campeonato Goiano. Agora, o Vila Nova precisa se refazer rapidamente. Afinal, a Série B começa dentro de um mês. “O Vila Nova entra no torneio falando baixo. O Sidney vai trazer jogadores de sua confiança, os próximos dias devem contar com a reformulação do elenco já pensando na competição. Com o elenco atual, a situação não vai melhorar muito, ainda que os jogadores tenham chegado no meio da campanha do rebaixamento. O Campeonato Goiano deste ano está em um nível muito abaixo, considerado o pior dos últimos anos”, avalia Geninho.

Enquanto isso, a direção do clube precisa se desdobrar financeiramente. “Houve uma aproximação de patrocínio com a Caixa, mas não deu certo. Não existe um plano sobre o patrocinador principal. O que sempre acontece são os pequenos patrocinadores, alguns conselheiros que ajudam”, conta João Paulo Di Medeiros. Os problemas com a Caixa, aliás, foram resultados das dívidas do clube. Segundo o atual presidente, o problema maior está nos débitos trabalhistas, avaliados em R$ 6,5 milhões. Por serem resultado de diferentes processos, eles não podem ser negociados com a dívida pública, que os alvirrubros se encaminham à quitação. E, com a pendência, não podem ter a certidão negativa, que poderia permitir um acerto com o banco estatal.

Como de costume, os colorados precisam se agarrar à paixão da torcida. O que também será preciso negociar. Parte considerável dos torcedores está descontente com a posição centralizadora do diretor de futebol Newton Ferreira e com o gerente de futebol Lúcio Antônio Rodrigues, alguns deles já visitando a sede do clube para se colocar quanto à insatisfação. “Se não apresentarem uma mudança no comando, com a saída de um dos dois, dificilmente o torcedor vai se envolver”, afirma Vinicius Tondolo. Algo importante, ainda mais quando a renda gerada pelas arquibancadas representa tanto – mesmo que a folha salarial na Série B, estimada em R$ 250 mil, seja planejada sobre os ganhos com direitos televisivos. “Sidney é um bom técnico, como há tempos não havia no Vila Nova em relação ao trabalho nos treinos. Mesmo com esse elenco, é possível reagir. Até para dar uma resposta à torcida”.

Por enquanto, o que Joás Abrantes promete é uma virada. “Agora temos a ajuda da Rede Globo, somada com os recursos que já tínhamos. O objetivo será o de manter o Vila Nova na Série B. Queremos mostrar para a torcida que viemos para modificar, fazer um time no qual se pode confiar”, diz o presidente, expondo também que a diretoria deve se reunir nos próximos dias, pensando em possíveis mudanças. “Não está nada decidido. Queremos nos redimir, trazer pessoas novas para melhorar a situação do clube. O torcedor pode ter certeza que o Vila Nova não vai passar vexame na Série B”. É o mínimo que a massa alvirrubra espera, ainda mais depois da angústia vivida nas últimas semanas.

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