Antes da divulgação dos 23 jogadores convocados para a Copa do Mundo, José Maria Marin cometeu uma gafe com nomes, ao anunciar quem seria o chefe da deleção da Seleção durante a Copa: “Vilson Rubens de Andrade”, quando queria se referir a Vilson Ribeiro de Andrade, presidente do Coritiba. O cargo no clube paranaense, no entanto, não é a única função de Andrade no futebol. O chefe da delegação brasileira é um forte aliado da CBF nos bastidores, que, justo nos últimos dias, teve papel importante em uma batalha política da entidade na discussão do projeto que renegocia as dívidas de clubes brasileiros com a União.

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O Congresso está votando o Proforte, projeto que visa regularizar a renegociação das dívidas dos clubes brasileiros com a União, atualmente avaliada em R$ 4 bilhões. O primeiro texto, de autoria do deputado Vicente Cândido (PT-DF), também vice-presidente da federação paulista, previa que os clubes pagassem 90% de suas dívidas através de investimentos na formação de atletas e apenas 10% propriamente em dinheiro. É verdade que isso ajudaria a sanar um problema desportivo grave no Brasil. Porém, também significaria que a divida não seria paga como deveria, mas, sim, realocada para um setor que nada tem a ver com as dívidas contraídas pelas agremiações e cujo investimento não deveria depender de dinheiro dos clubes.

Entretanto, o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) apareceu com uma proposta mais incisiva que a de Vicente Cândido, sugerindo que a dívida fosse renegociada para ser paga integralmente em 25 anos. No entanto, para poderem entrar nesse plano de pagamento, os clubes precisariam seguir uma série de regras financeiras e fiscais, mantendo uma gestão econômica sustentável – sem atraso de salários, por exemplo. Além disso, foi sugerida uma taxação sobre a CBF de 10% do faturamento bruto anual, que, em 2013, por exemplo, foi de R$ 436,5 milhões. Nesta terça-feira, esse texto foi votado e aprovado, mas com uma parte postergada para depois da Copa do Mundo. Adivinhe qual?

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A luta da Bancada da Bola, ligada aos clubes e à CBF, deu certo, e a proposta de Otávio Leite foi desmembrada em dois projetos diferentes. O primeiro, abordando a renegociação das dívidas dos clubes, foi aprovado nesta terça-feira. Já o segundo, que fala sobre a taxação sobre a CBF, ficou para depois. Leite afirmou que “houve pedidos de todos os lados” para que a entidade fosse deixada de fora do projeto, caso contrário o texto não seria aprovado. Alguns desses lados citados foram o Ministério do Esporte e alguns clubes, que tem justamente Vílson Ribeiro de Andrade como representante na Bancada da Bola.

Durante as conversas com o Bom Senso no ano passado, a CBF criou uma comissão responsável por tratar os assuntos abordados pelo grupo de jogadores, colocando o mandatário do Coritiba como líder e porta-voz da entidade nas conversas com os atletas. Com a ótima relação de Andrade com a CBF (o presidente coxa-branca foi um dos poucos dirigentes de clube que se dispôs a defender Marin no debate com o Bom Senso), não é de se espantar que tenha havido apoio da comissão na derrubada da parte do projeto que previa as taxas à entidade máxima do futebol brasileiro.

O cargo de chefe de delegação da seleção brasileira não vai à toa para qualquer um, e também não é segredo que aqueles que o exercem têm boa relação com a CBF. Entretanto, vale a pena ressaltar o contexto, para que a manchete não seja apenas sobre a gafe de Marin ao falar o nome do dirigente, e, sim, de quem realmente se trata.