Sabe-se que o Vitesse está há pelo menos três anos envolvido num projeto de tornar o seu nome maior dentro do futebol holandês. Tal projeto segue a linha conhecida (e perigosa) no futebol atual: há um mecenas, que sustenta o clube e banca contratações mais caras. E do nada, o time começa a obter melhores resultados. Em casos mais extremos, consegue até títulos. Não é o caso do clube de Arnhem, ainda. Tudo que se conseguiu foi apenas um quarto lugar e uma participação na terceira fase preliminar da Liga Europa desta temporada. Mas a boa campanha segue, com o segundo lugar no Campeonato Holandês atual.

E é bom que ela termine em um título, enfim. Porque a conta dos investimentos do Vitesse está começando a chegar, literalmente. E ela indica um grande perigo, na forma de um déficit que só cresceu nas últimas temporadas. O balanço do clube na temporada passada, divulgado na última segunda-feira, mostra um déficit líquido de 24,5 milhões de euros. Prejuízo ainda maior do que o da temporada 2011/12 (perda, bruta, de 22,7 milhões). Mais do que isso: se o lucro líquido aumentou de 11,5 milhões para 11,7 milhões, os gastos brutos subiram até mais entre 2011/12 e 2012/13: de 29,6 para 34,3 milhões de euros, numa ascensão de 20%, justificada com gastos extras de pessoal e clube.

Tal cenário, como se sabe, deve ser combatido (pelo menos em tese) pelo Fair Play financeiro proposto pela Uefa. Se até 2015 os clubes devem limitar a soma das perdas das três temporadas anteriores a 45 milhões de euros, o Vitesse já tem perda líquida de 42,9 milhões de euros, somando as temporadas 2011/12 e 2012/13. Os únicos fatores que minoram o temor para o balanço de 2013/14 são as vendas de Bony e Van Ginkel, que renderam aos cofres dos Arnhemmers 24,8 milhões de euros (em dados do site Transfer Markt, Bony foi para o Swansea por 14,8 milhões, enquanto o Chelsea comprou Van Ginkel por 10 milhões).

A esperança de tempos menos bicudos foi enfatizada por Joost de Wit, diretor geral do clube: “Nos últimos anos, nós investimos muito na contratação de jogadores e num moderno centro de treinamento. A base do sucesso atual é que temos elenco e comissão técnica fortes. A direção confia plenamente em nós”. De mais a mais, é preciso lembrar que Alexander Chigrinskiy, ucraniano que agora preside o clube, já era o mecenas de fato desde os tempos em que Merab Jordania era o testa de ferro.

De fato, talvez o balanço desta temporada traga números mais auspiciosos, com a renda vinda das transferências, o fim da construção do centro de treinamento de Papendal e, acima de tudo, com o dinheiro que Chigrinskiy possui. No entanto, se o Vitesse não tivesse pressa para solucionar esse rombo que tem, não teria corrido atrás de um patrocinador, coisa que já não tinha há um ano e meio: nesta semana, os aurinegros fecharam negócio para estampar a marca da Youfone, empresa de telecomunicações, até o final desta temporada.

E de nada adiantará ter um mecenas para bancar todas as perdas, se o clube continuar desperdiçando chances para manter-se bem na disputa do título holandês. Como a chance tida na 20ª rodada, no sábado passado, contra o NEC, lanterna da Eredivisie. O time até começou bem em campo, fazendo 1 a 0 com o zagueiro israelense Dan Mori, mas deixou que os Nijmegenaren se empolgassem em campo. Bastou o inglês Michael Higdon aproveitar uma chance, e estava feito o 1 a 1 desastroso.

No domingo, o Ajax tratou de vencer o Go Ahead Eagles (1 a 0), mesmo sem jogar bem. E abriu dois pontos de vantagem (43 contra 41) para o Vitesse, que viu o Twente ficar a apenas um ponto (40), ao fazer 3 a 1 no Heracles. Fica para os aurinegros a tarefa de consertar o tropeço, nesta sexta, no jogo direto contra o Feyenoord, outro concorrente ao título que precisa se recuperar – perdeu para o ADO Den Haag, por 3 a 2. E também a tarefa de consertarem o rombo que já toma os cofres do clube, antes que a Uefa perturbe o sonho de virar grande. De vários modos: multa, exclusão da Liga dos Campeões. Enfim, ou o Vitesse ganha algo, ou esse sonho vai desmoronar.